segunda-feira, agosto 27, 2012

Gato, coração, parede



          Quando o irmão chegou a casa naquela noite de outono trazia consigo uma caixa de papelão que tinha um filhote de gato dentro.

            -Cuida dele.

           Foi o que disse à irmã, dois anos mais nova . Aquele pedido, ou ordem, tinha o mesmo efeito de um contrato de doação: o irmão havia encontrado o gato abandonado em um terreno baldio e tivera a ideia de salvá-lo daquela complicada situação, mas não teria paciência para cuidados, que exigiriam muita dedicação e amor. Mas todos esses requisitos a irmã tinha de sobra, ainda mais que nos últimos meses vinha sofrendo de solidão como nunca havia sofrido antes. Ela e a família haviam se mudado recentemente para um bairro feio, para uma casa velha e ela ainda não tinha feito amigos. E para deixar tudo mais difícil o pai não voltava para a casa há semanas e a mãe raramente saía do quarto, pois estava deprimida.
Então a menina recebeu o filhote de gato com os mesmos olhos agradecidos de um morto de fome diante do prato de sopa.

          Levou a caixa com o animalzinho dentro para o banheiro. O bicho seria criado atrás da porta, para que a mãe não visse.

         Então a menina viveu uma semana muito feliz, depois de dias arrastados de tristeza. Alimentava o gato. O pegava no colo. Acariciava seu pelo fofo. Deliciava-se ao vê-lo, na caixinha, estapeando coisas invisíveis no ar.

        A menina não saía da porta do banheiro

        E o gatinho ronronava, com doçura, retribuindo o carinho de sua nova dona.

       E assim os dias foram passando.  A mãe continuava doente, mas a menina parecia quase curada de sua solidão.

       Numa noite o pai apareceu, vindo das profundezas de sua ausência.

      A menina sentiu um aperto no peito: soube de tal presença opressiva por causa de um bater de portas e do choro da mãe, provocado por aquele inesperado retorno.

     Os passos do homem foram ficando cada vez mais sonoros: ele se aproximava e ela se encolhia de medo. O pai apareceu no corredor e eles se olharam, silenciosos. Ele tinha a expressão de um deus que quisesse devorar seus filhos.

      Sem dizer nenhuma palavra ele avançou rumo à porta do banheiro, olhou para o gato com um misto de repugnância e ódio. Chegou perto da caixa, segurou o animal com a mão direita e o arremessou com força contra a parede.

      A menina fechou os olhos.

    O barulho de coisa viva se quebrando foi tão triste, que a menina demorou a se dar conta do que tinha acontecido. Ela ainda estava de olhos fechados quando o pai passou por ela resmungando algo que não dava para entender direito. 

     O gato havia explodido?  Seus pedaços estariam espalhados pelos ralos e rodapés?
   Lentamente ela abriu os olhos doloridos. Seu gatinho estava lá, num canto, molhado. Não havia explodido, mas tinha ossos quebrados, articulações rompidas. Sangrava por dentro, como ela, que parecia ter acabado de levar um soco no estômago.

   Era proibido chorar. A dor ficou corroendo seu interior, como um ácido, um grito querendo liberdade.

   Ela puxou os próprios cabelos, arranhou a própria pele, vomitou.

Enquanto isso, das orelhas e do nariz do gatinho, começavam a sair fios grossos de sangue.

   Os ossos dela estavam quebrados também. 

  O pai havia jogado era o coração dela na parede.

  Ficou olhando a morte chegar devagar para o bichinho agonizante.

  Ela perguntava, baixinho, para Deus, em quem ainda acreditava naquela época: “por que, se ele não tinha culpa de nada, por que, se eu também não tenho”?

  Deus nunca respondeu. E para deixar tudo ainda mais difícil, soprou sobre a casa inteira um vento frio e  carregado de ausências.

4 comentários:

Nerito disse...

Eu diria lindo, se não fosse cruelmente triste. A beleza das escolhas que você fez ao contar esta história a torna ainda mais dolorida...

Lourdinha viana disse...

Escritura incômoda....acho menos chocante ler sobre assassinato de humano do que ler sobre maltrato ou morte de um bichinho. Lourdinha Viana

medinalages disse...

Tremendo! Com certeza Deus viu tudo! Ele tem um propósito em tudo!

Laércio José Pereira disse...

Percebemos menos a interferência de Deus, dos anjos, dos entes do lado do bem. A Adélia Prado disse que o mal está enraizado, me parece que ele está vencendo. O frio da solidão é o frio da ausência de um apoio. Com o tempo descobrimos que todo apoio está apenas dentro de nós.