quinta-feira, agosto 09, 2012

Madeleine

                                                                     I


           Alguma coisa me acordou quando ainda estava escuro. Talvez tenha sido o ruído de ovos de pombos se quebrando no telhado, bem acima da minha cabeça. Ou terá sido o arrulhar  das aves recém - nascidas, amedrontadas por terem vindo à luz em plena escuridão?
             Alguma coisa me acordou quando ainda estava escuro.

          Fiquei meio confusa no começo, como se tivesse acabado de me libertar das gosmentas cascas de um ovo aberto antes da hora, ou como se tivesse vindo voando de longe, muito longe e pousado em solo tenebroso, frio e amorfo.
       Mas foi no começo, apenas. Depois reconheci, aos poucos, a mobília do quarto, suas silhuetas familiares.
           No telhado, ao gemido fino e assustado dos pombos bebês veio se juntar uma outra música, a das vozes graves dos pombos adultos; vozes que na linguagem comum a essas aves deve ser uma espécie de cantiga de fazer dormir os pequenos, pois tal melodia se sobrepôs ao aflitivo choro dos filhotes, que finalmente se calaram.
          Foi então que vi uma luz vermelha num dos cantos do quarto. Não era nada demais: nenhuma visita de seres extra-terrenos, nenhuma atividade paranormal se desenrolava na casa enquanto eu dormia e não era, definitivamente, nenhum resíduo ectoplasmático de algum ser inominável.
          Era uma luz familiar, como os contornos dos móveis.
          Era apenas a micro-lâmpada do estabilizador de tensão.
      Tinha ficado acesa a noite toda e seu brilho solitário, naquela madrugada sem lua, num quarto de cortinas fechadas acabou me transportando, sem que eu quisesse, para outras noites de breu, quando eu , criança, precisava atravessar a casa inteira, no escuro, para ir, sozinha, ao banheiro.
          Era proibido acender as luzes e, por isso, aquilo era uma aventura épica.
        E, como em um rito, a cada travessia noturna havia o pai, mítico, fumando no escuro. Na ausência quase total de luz, a única fonte de claridade era a ponta em brasa do cigarro aceso, tão semelhante à pequena lâmpada vermelha que me  esqueci de apagar ontem, quando me deitei.
    A ponta em brasa do cigarro , um farol marítimo para a minha momentânea cegueira:  é que o pai fumava silencioso no sofá da sala e o móvel ficava próximo à porta da cozinha que, por sua vez, dava acesso ao banheiro.

    O pai fumava, fumava muito e era como se tragasse a noite  para dentro de si, porque era só eu passar por ele que, logo depois, a noite virava dia, o escuro virava fumaça e meu medo milagrosamente se transformava em cinzas.

                                                                      II

    O pai não fuma mais. Fumou tanto a noite que um dia um pedaço dela nunca mais saiu de dentro do corpo dele. O pedaço decidiu ficar lá escurecendo seu sangue, até que tudo o que fazia aquela vida funcionar fosse, lentamente, perdendo a umidade. Até secar. Para sempre.
    Alguma coisa me acordou quando ainda estava escuro.

5 comentários:

SÉRGIO FANTINI disse...

bonito.

LOurdinha Viana disse...

Gostei muito , Simone. Eu costumava sonhar com meu pai, mas depois de um tempo nem em sonhos mais ele vem.Abraço.Lourdinha.

Nerito disse...

Poxa, Si, que imagens lindas! Esse texto me fez lembrar de minhas próprias aventuras infantis: a travessia escura em uma casa estranha.

Mais uma vez você mostra seu poder com as palavras...

Nerito disse...

Estava procurando a forma certa de falar isso... acho que você balanceia muito bem a saudade no seu texto, como se fosse uma linha que costura todo o tecido. Saudade, afetividade, melancolia. Tudo isso amarrando as belas construções de imgem que vc faz...

Abraço!

Ewerton Martins disse...

Gostei bastante.