quinta-feira, agosto 02, 2012

Gigantes debaixo da terra, monstros debaixo da cama.

                                                                                                 Nosso luto docemente se prolonga
                                                                                                                                   ( Anne-Marie de Backer)

     Ontem, quando eu passei por aqui, a rua paralela estava interditada e havia homens e máquinas pesadas dando início a um trabalho de escavação.

    Os operários estavam à procura de tubulações de esgoto e não de tesouros enterrados  no Egito; talvez por isso estivessem tão tristes.
   Sobre toda aquela cena, ricamente colorida pelo azul dos uniformes dos rapazes, pelo amarelo das máquinas vorazes, pelo verde meio queimado das folhas das árvores e pelo roxo das melancólicas acácias, havia um céu cinza e vermelho que parecia zombar de todos os  nossos mais belos sonhos sepultados.
   Hoje a rua continua interditada, mas o quadro está um pouco desbotado: não  há mais tratores nem homens sonhando com arcas perdidas. Há apenas o que fora um buraco gigantesco, coberto por um considerável volume de terra.
   As acácias, por causa do vento, desprenderam-se dos galhos e agora repousam sobre o monte de terra, conferindo ao cenário o triste aspecto de um túmulo.
   Ao me dar conta de tal semelhança paro, de súbito, e olho com mais atenção para o quarteirão em obras.

                                                              II

     Só poderia ser o túmulo de um Gigante, penso, daqueles cinematograficamente medievais. Sabe-se lá como teria morrido, talvez graças ao feitiço de alguma bruxa, ou quem sabe teria sucumbido sob a espada de algum guerreiro audaz. Não importa. Apenas consigo pensar no funeral em si, nos amigos  desajeitados cavando o buraco com as unhas, nos urros da fêmea enviuvada, nos filhos que, num ato de revolta e saudade, arrancam as flores de acácia das árvores e semeiam suas pétalas sobre a incrível sepultura.

                                                               III
    Um gigante foi morto e ninguém percebeu. Foi enterrado de madrugada. E nosso sono, à revelia, perturbado pelos monstros desde sempre debaixo da cama. Sono no qual, apesar de já termos passado dos trinta anos de idade, ainda imploramos, chorando, pelo colo da mãe.
   O que me resta fazer? Nesta manhã de vento escuro e de céu avermelhado há um gigante apodrecendo debaixo da terra, sob as acácias.


9 comentários:

SÉRGIO FANTINI disse...

muito bom!

Rangel disse...

Muitos gigantes sepultados em tempos medíocres como esses no qual vivemos e é bom pensar na sombra deles repousando a espera de que algo mágico como seu texto permita que eles tenham um outro sopro breve de vida.

Rangel disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Simone Teodoro disse...

Rangel, tipo naquele jogo de PS2,o Shadow of the Colossus....

Nerito disse...

Realmente, Si, tive que voltar e ler de novo, tão forte são as imagens do seu texto.

Engraçado como cada um de nós, à sua maneira, tem falado de fantasmas ultimamente...

Simone Teodoro disse...

Nerito, escrevi esse texto porque descobri que, de noite, quando durmo, falo muito sozinha e , na maioria da vezes choro. Na casa de minha mãe, durante toda a infância, meu o sonambulismo de meu irmão sempre foi motivo de piada: ele andava dormindo, lutava com o guarda- roupas, estourava as pontas dos dedos dos pés de tanto dar chutes nas paredes... Naquela época eu tinha um sono tranquilo. Dia desses Raquel me disse que chamei minha mãe enquanto dormia.Depois de velha, olha só!Raquel vive me acordando, quando pressente meu medo...
É. A gente tem falado de fantasmas... acho que é essa idade nossa, que é uma espécie de choque de realidade, né? Vida adulta, responsabilidades, pouco tempo para as alegrias...

Rodrigo disse...

"A gente tem falado de fantasmas..."

Lourdinha Viana disse...

Simone, passei ontem ao lado do túmulo ainda aberto, mas eu ía distraída,nem notei que era um enterro,mas hoje eu passei por lá e lembrei do gigante.Adorei o texto. Bjos. Lourdinha viana

Lourdinha Viana disse...

:-)