sábado, dezembro 01, 2012

Cair


Algo escarnece de nós, às nossas costas (...)

(...) e observo pessoas passando; agarrando-se firmes aos corrimões dos ônibus; determinadas a salvar suas vidas.  (Virgínia Woolf. As ondas)

                                       

Dizem que quando um avião cai, as pessoas que estão dentro dele morrem antes que ele se espatife trágico no chão. Quando estou voando, como agora, agradeço por essa informação valiosa e consoladora . Morrer de susto, e nem sequer sentir a terrível dor de tão violento impacto! Apenas apagar-se no ar. Os corpos inanimados, desmembrados talvez pelas pontas grossas das rochas, assemelhando-se a minúsculos bonecos desmontáveis, uma coleção playmobil completa nas rechonchudas mãos de uma criança rica.

Ontem, antes de me deitar, vivenciei alguns minutos de pânico, quando li uma notícia sobre a queda de uma aeronave. Tratava-se de um jato, com 29 passageiros a bordo, que caiu no Oceano Índico. E o pior: todos sobreviveram! Então eu havia sido enganada? As pessoas não se apagam no ar, como me disseram? Não se dispersa seu sopro de vida antes que seus corpos se quebrem como galhos ressequidos pelo sol de um verão inteiro?

Só depois de continuar lendo o informe jornalístico é que voltei a ter paz: o tal avião despencou logo após a decolagem. Estava ainda muito baixo, quando o combustível começou a vazar como uma torneira.  Com tão pequena variação de pressão, não deu nem tempo de ninguém morrer de susto. 29 paradas cardíacas simultâneas exigiriam alturas mais ousadas...
Enfim, eles tiveram sorte. Foram acolhidos pela maciez do mar. E eu voltei a acreditar que a dor não existe para os diretamente envolvidos em tragédias desse tipo. Quero continuar acreditando.

II
Estou voando. Não gosto disso. Jamais me acostumarei. Estamos a quantos mil pés de altura? É verdade que esse pássaro monstruoso está atravessando os ventos a quase mil quilômetros por hora? Que cidade  estamos sobrevoando? Tudo tão pequeno lá embaixo, um mapa do Google se desenha na minha janela. E uma mão cruel, de dedos ásperos comprime meu estômago e meu coração, como se ambos fossem um órgão apenas. Às vezes o estômago bate forte e disparado, latejando de inchaço. Outras vezes o coração queima ácido, com ânsias de vômito. A mão deve ter entrado pelo meu distraído umbigo, porque também tenho cólicas. E a mão é tão grande que alcança minha garganta, secando minha saliva. Sou toda angústia. Me sinto como deve se sentir um pano de chão de porta de banheiro público. Que lama!

III
Ao longo de suas vidas as pessoas caem bastante. Muitas dessas quedas são até graciosas, como as dos bebês que aprendem as dar os primeiros passos. Outras acontecem, cronologicamente, no outro extremo da vida e mesmo que não sejam ainda fatais, são o prenúncio de um fim: são as tristes quedas dos velhos.
Pensando nisso, para me distrair da angústia, resolvi listar aqui, alguns de meus tombos mais memoráveis:

1- Aos 4 anos, em um caminhão de mudança. Eu estava de pé na carroceria, o caminhão arrancou e caí de joelhos. Doeu. Um pouco.

2- Eu devia ter uns 5 anos... Não me lembro nem do antes, nem do depois: ficou apenas uma imagem sob a chuva. Meu pai carregava meu irmão no colo. Era noite e chovia forte. Ele correu, me deixando para trás. Com medo da noite e da tempestade  tentei acompanhá-lo, mas caí numa poça de lama, rasgando o joelho direito em uma ponta de ardósia que estava fincada no chão, ainda sem asfalto. Doeu. Muito. Ironicamente, eu apertava nas mãos um daqueles guarda-chuvas de chocolate que faziam tanto sucesso entre as crianças da década de 1980.

3- Aprendendo a andar de bicicleta.  Foram três tombos e eu já estava iniciada. Doeu, mas foi uma dor heróica, cheia de orgulho. Será que posso chamar aquilo de dor feliz?

4- Contando uma história engraçada para uma amiga. No meio da performance que a história exigia, escorreguei numa coisa escorregadia, é claro. Minha coluna vertebral chocou-se com um toco de árvore. Doeu por semanas.

5- Indo do estacionamento ao trabalho, a pé. Tinha uma raiz de árvore no meio do caminho. Era uma descida. Tropecei, rolei sobre meu próprio corpo, estraguei o relógio comprado em Paris, esfolei todo o antebraço, e o danoninho que eu transportava nas mãos aderiu convicto, aos fios dos meus cabelos.

6- Num velório. Na casa da pessoa morta tinha uma varanda sem parapeito, por onde eu caminhava olhando para trás, não sei por que motivo.  Preciso dizer que o acontecimento foi uma suspensão ( rápida, mas foi) da atmosfera fúnebre que ali imperava? Pelo menos eu consegui fazer com que pessoas rissem na cara da morte. É um consolo, não é?

Se riram de mim quando caí? Sim, riram. Sei que riram, embora eu não costume olhar para os lados quando caio porque fico com vergonha. Mas posso dizer que nunca ri das quedas alheias. As pessoas quando caem são tristes, miseráveis. É covardia rir da tristeza de alguém.


Penso agora em Albertine, personagem de Proust, cuja queda fatal (de um cavalo) provocou uma das mais belas elegias de toda a literatura universal. E penso também na queda de Percival, personagem de Virgínia Woolf, também arremessado de um cavalo rumo à morte. O que se segue a tão grave acontecimento na narrativa de As ondas? Elegias, as tristes palavras dos amigos, que em páginas e mais páginas tentam em vão nomear uma perda.

Quedas são tristes, não combinam com gargalhadas. Quedas exigem elegias, quando fatais. E quando não matam, como seria desejável o gesto simples e nobre de um braço solidário estendido, a oferecer ajuda!

IV
Há pessoas que provocam a própria queda. Jogam-se de edifícios altíssimos, dão algumas cambalhotas no ar e tornam-se uma fratura em meio ao trânsito,uma ferida aberta em plena quentura do asfalto. Há pessoas que provocam a queda de outras, como num filme de Hitchcock. E há pessoas que se sentem culpadas pelas quedas dos outros...

V
Quando eu tinha 11 anos era tão magra que tinha medo de que me partissem ao meio. Todo mundo é quebrável, eu sei. Mas eu era mais. Pesava míseros 27 quilos, os quais eu precisava manter inteiros e em terra firme. Ventanias e tempestades me aterrorizavam.
Certa vez, voltando da escola num fim de tarde sob um céu  pesado e vento forte, fiquei tão assustada que joguei minha mochila nas mãos de minha mãe e corri como uma louca, deixando-a para trás. Mamãe não era mais jovem, já tinha mais de 50 anos... Tentou me acompanhar, mas caiu. Eu devia estar a uns 500 metros dela, quando ouvi seu grito. Voltei. A imagem de sua fragilidade foi crescendo dentro dos meus olhos.
E doeu. Doeu mais, muito mais do que todos os meus tombos juntos.

VI
Meu pai começou a morrer com uma queda:  caiu da cama de madrugada. Acordei com um estouro. Era o nariz dele que tinha se arrebentado no chão. Convulsionado, ele se agitava com a cara enfiada numa poça de sangue...
Depois começou a cair pelas ruas. Vizinhos o amparavam. Ficava desmemoriado por horas...
E foi assim, até a última queda, da qual ele nunca mais se ergueria.
Mas... Como disse a Clarice: já está se tornando difícil escrever.  O piloto já anunciou que em instantes pousaremos em segurança.
Algo me incomoda. Estaremos seguros em solo? Porque ainda há as escadarias sem iluminação e os pisos escorregadios...
Agarremo-nos, portanto, aos corrimões. Não percamos nossa firmeza.
É preciso salvar nossas vidas.

5 comentários:

bruna dutra disse...

Minha cara, a vida é apenas um pouso.

Anônimo disse...

Quedas são sempre necessárias,pra que possamos levantar com muito mais força e atingir o objetivo.Mas penso que a pior queda acontece quando alguém te derruba,não no sentido de literalmente te jogar no chão,mas sim de roubar seu chão.Isso me deixa triste e desanimado.

Simone Teodoro disse...

Pois é Bruna...O problema é que pousamos sem saber a origem de nosso voo, nem o destino. Isso, de certa forma, é meio angustiante.

Simone Teodoro disse...

Concordo com você "Anônimo". O tombo dói mais quando alguém nos deixa sem chão...

Anônimo disse...

Adoro essas divagações!!! Quando lançar um livro hei de comprá-lo!

Ligia