segunda-feira, dezembro 27, 2010

Melancolias de cemitério




Irei à França nas próximas férias. Eis um tipo de viagem desejado por qualquer pessoa de sensibilidade e que já esteja farta da mediocridade da rotina vivida num charco diário de desespero silencioso. Se qualquer viagem, por mais modesta que seja, quando estamos doentes de uma vida mecânica e sem cor, já é uma pausa repousante, a simples ideia de ir à França é uma overdose de lirismo.
Hoje, pela manhã, enquanto ouvia a Valsa de Amelie, descambei em febres de sonhação, delirando lugares, monumentos, climas, árvores estrangeiras, odores e sensações. Quando penetrava esse jardim de delícias de narcose, um leve desvio me fez esbarrar nos portões do Pére Lachaise. Meu delírio levou-me entre curvas e cruzes tristes, ao túmulo de Proust, diante do qual constatei alarmada, que a gente morre de verdade, inexoravelmente, mesmo sendo um imortal.
A canção continuava (eu tinha colocado no repeat, pois detesto devaneio interrompido) e como meu imaginário sobre Paris é ainda muito limitado e pelo fato de eu ainda ter de pesquisar muito sobre os mortos do glorioso Pére Lachaise, acabei entrando, num descuido, em um portão errado,corroído de ferrugem e cheirando à sangue velho; caí  num buraco de mais de sete palmos de profundidade, e pousei, sem querer, em um cemiteriozinho feio que nada tinha de glória: o sonho, traiçoeiro, findara e, sem que eu percebesse, dera lugar à memória. Paris, a desejada, fora substituída, sem meu consentimento, por uma cidadezinha desconhecida, miserável e suja: Justinópolis, que tinha um cemitério que, como ela, era feio,  miserável e sujo.
Nesse lugar podre e vermelho passei algumas tardes da infância, brincando de esconde-esconde, entre lápides e cruzes, com meu irmão e um amiguinho nosso, enquanto mamãe, do outro lado da avenida, num posto médico, enfrentando uma fila que tinha o tamanho das muralhas da China, tentava conseguir uma senha que nos curasse de nossas bronquites e amigdalites eternas.
O cemitério não era grande, mas eu era muito pequena e, um dia, me perdi. Os meninos haviam se escondido de verdade e eu fiquei sozinha, analisando túmulos, lendo melancolias nas lápides, sofrendo a saudade das palavras. E fazia sol. O sol, que era vermelho como a terra e forte como a morte. A morte, que era indiferente à vivacidade da menina curiosa e suada que, com ousadia, entrava em seus domínios, explorava suas quadras e seus espaços demarcados.
As sepulturas eram mal-cuidadas: capim, ervas daninhas e dentaduras  poluíam o terreno.
Não sei quanto tempo durou aquela exploração solitária. Mas me lembro exatamente de quando ela terminou: eu olhava para uma foto ¾, em preto e branco, de um homem de uns trinta anos, cujo túmulo era um montinho de terra cercado com grades azuis desbotadas, de onde emergia um pé de mamão frutificado, quando ouvi:
__ Hey, menina!
Lá longe, um coveiro abria um buraco. Ele continuou me chamando, como se quisesse me dar um presente, uma bala chita, talvez. Eu adorava bala chita.
Sonhando com o gostinho artificial de abacaxi que se misturaria à minha saliva depois que o homem encardido estendesse para mim suas ásperas mãos, repletas de balinhas amarelas, fui ao seu encontro, sorrindo.
Fiquei esperando as balas que ele não me deu.
 Ele continuou cavando. A cova já estava bem funda e atraiu meu olhar para a sua profundidade úmida e sanguinea. Fiquei um pouco tonta, acho que de tanto sol.  Enquanto cavava, o coveiro olhava para mim com uma cara esquisita que, na época, eu não sabia que tipo de sentimento traduzia; só depois, muitos anos mais tarde, fui saber que aquilo era uma expressão de perversidade. Era a cara de quem vai fazer uma maldade com alguém, sabendo que é uma maldade, que isso não se faz, mas, mesmo assim, vai morrer de prazer por ter feito.
Ele me olhou assim, eu olhei para ele e, depois, de novo para o buraco. Então ele fez uma força maior com a pá e tirou de dentro da escuridão um crânio enorme, feio e encardido como ele e o atirou aos meus pés, quase sufocando de gargalhadas.
Foi a primeira vez que vi um crânio tão verdadeiro.  Ele não se parecida em nada com aquele do Hamlet, na hora do To be or not to be, todo branquinho e desinfetado, como o esqueleto do laboratório de ciências da escola onde eu estudava. Ele era enorme, encardido e feio como o coveiro e tinha vindo de um túmulo de verdade, com toda aquela umidade escura e vermelha dentro.
Não me assustei. Não gritei. Não corri e nem fiz cocô nas calças silenciosamente. Fiquei olhando para aquela cabeça morta há anos, achando muito diferente. Minha mudez contemplativa e minha reação imprevisível interromperam as gargalhadas insanas do homem, que agora parecia assustado com a situação.
Eu olhava para a cabeça suja de terra, o homem olhava para mim, a pá abandonada na cova, o sol ardendo e, de repente, os gritos de minha mãe rasgando os portões enferrujados do cemitério. Palavrões amaldiçoavam o coveiro, que saiu correndo para a sala de velório, se esquivando, fugitivo, dos murros pesados da mulher que pressentira os apuros da filha.
Ficamos sozinhas.
Os braços de mamãe me elevaram à altura de seu rosto, o que, na época, significava, para mim, estar muito grande. Vi sua face de perto, ela era bonita até quando praguejava. Abraçou-me, dramática.
_ Você ficou com medo?_ perguntou-me, com o coração tremendo de angústia.
_ Não_ Respondi, orgulhosa.
Então ela, com um pontapé, empurrou o crânio velho para dentro do buraco de onde ele tinha saído.
Atravessei o portão de ferrugem no colo de minha mãe. Meu coração sonhava o anoitecer: meu belo pai chegaria em casa,cheirando a tabaco e a retorno. Nos bolsos das calças surradas, uma profusão de balas de abacaxi  seria, mais uma vez,  uma pausa para minha fome.

sábado, dezembro 18, 2010

Assassinato na Rede



Ilusões deslizam
em cabos.
Mentira Virtual,
um eu diverso
me aniquila
numa página

Injustiça

Não é a gente que mata o tempo.
Ele é que é suicida.