sexta-feira, dezembro 28, 2012

Nem tudo está perdido


Livro sobre Anne-Marie de Backer. Um dos poucos de crítica sobre sua poesia



Veio com autógrafo! Que alegria!




O rosto que eu queria conhecer...

Hoje tive um dia chato. Postei o seguinte desabafo no facebook:

"Coisa chata número um do dia: às 4 da manhã, o vizinho liga o rádio dele na Itatiaia. Me acorda, acorda Raquel. Fico puta porque quando acordo assim, fico com dificuldades pra dormir de novo e fico um molambo o dia todo. Fui lá na varanda, chamei o vizinho. Xinguei.

Coisa chata número dois do dia: voltando pra casa, na companhia de Cíntia Almeida, um ser musculosinho de ray ban na cara entrou repentinamente com sua motoca envenenada na frente do meu carro, o que me fez tomar um puta susto, embora estivesse muito atenta. Buzinei, para chamar a atenção e o menino ficou com raivinha e começou a morcegar na minha frente, empacando uma fila inteira de pessoas cansadas que queriam voltar pra casa antes do temporal. Quando deu eu ultrapassei e não resisti: chamei ele de folgado. O bebê chorão ficou ainda com mais raiva, e  deu  uma acelerada na titanzinha . Esse é certamente  o jeito que ele, animal,
sabe bufar. Veio em direção ao meu retrovisor esquerdo e eu preparei a minha mãozinha maquiavélica para puxar o tornozelo dele, caso ousasse chutar meu espelho. Não o fez, mas passou, olhando feio, tentando intimidar, relinchando sobre duas rodas.

Coisa chata número três do dia: cheguei a rua de casa debaixo do temporal. E pra variar, tava lá, na frente da garagem dessa pobre moça cagada de urubu, um carro estacionado. E a rua cheia de vagas. E o carro parado na porta da minha garagem. Esperei. O dono do bat-móvel era um senhor. Juro que pensei que fosse um menino, desses de 18, muitos dos quais ainda não têm responsabilidade alguma. Mas era um tio, de óculos e barba. E quando eu reclamei, dizendo que não se para em portas de garagem, ele me disse que tinha sido por apenas 2 minutos. E quando eu disse que não se para em portas de garagem em hipótese alguma porque é proíbido ,ele me chamou de alguma coisa feia que não ouvi direito, porque ele já estava dentro do carro. A essa altura, a chuva já estava bem mais forte, fato que fez com que eu tivesse muito mais trabalho pra abrir o portão e entrar, depois fechar o portão, sob um guarda-chuva que não segura tempestades.

Então: embora eu seja uma pessoa pacífica, cidadã e consciente dos males que a violência gera no mundo, eu juro que nesses momentos eu queria ter os músculos do meu irmão, William Mutante, pra afundar os osssos dos narizes de seres como esses dos quais falei acima"


Após mais de 60 cometários a respeito desse post, um dos meus vizinhos ( não era o do rádio da madrugada) me chamou para me entregar uma correspondência: era o livro sobre Anne-Marie de Backer que eu tinha importado da França. O livro veio autografado, como o "Oiseaux-Soleil", livro de poemas dela, que eu havia importado há alguns meses.. Pude conferir as letras e me certificar de que o autógrafo é dela mesma! de verdade! Além disso, pude ver, pela primeira vez, seu rosto, numa fotografia que faz parte do livro recém comprado. Acima estão as fotos :
1) da capa do livro
2) do autógrafo de Backer
3) a fotografia de seu rosto, que eu estava desejosa de conhecer, desde que o coração dela começou a conversar com o meu , quando  li, pela primeira vez,  dois versos seus num livro de Bachelard...

Nem tudo está perdido.

quinta-feira, dezembro 13, 2012

Outro da Backer

Tempestades 

Se você soubesse! Eu sofro e eu gostaria de sobreviver
à morte das palmas, ao fenecimento das espigas.
Parece-me que um dia maravilhoso irá me seguir
Após essas voragens que sopram incessantemente

O espectro de uma árvore se inclina sobre a sebe
O castelo assombrado movimenta-se embaixo de escuros pinheiros
todos os pecados mortais são opulentos e eu experimen
to
vender meu coração por um reflexo de esperança.

Os Espíritos da noite e do fogo me iludiram
mas o ar cintilante da chuva é semelhante ao cristal;
Tropeçarei ainda no ouro desta espada
quando eu tentar me esquecer dos jardins que acolheram meus primeiros gemidos?

Se você soubesse! O vento se atira pela minha janela
Folhagens sombrias, e eu não tenho sequer um ramo de oliveira em água benta embebido
Eu sei de cor o grito duro dos corvos que gira em minha cabeça
e faz vibrar até o infinito.

Quando a torre assombrada ampara as tempestades
eu permito que se queimem nas chamas do inferno aqueles que procuram seus corações
e rezo, desejando viver com a erva selvagem
até que venha a divina redenção da alegria.

Tradução: Simone Teodoro
IN: Le Vent des Rues
Edtions Pierre Seghers. Paris.

quarta-feira, dezembro 12, 2012

Mais um poema de Anne-Marie de Backer

Anjo 

Contra os roseirais reverdecidos
por tempestades exasperados,
meu Anjo da Guarda me abandonou
nos confins do Paraíso. 

Quando enfim eu chegaria
ao País dos corações sem problemas,
onde é possível esquecer de si mesmo
do amor e da fome.

Nos confins do Paraíso
meu Anjo da Guarda me deixou.
Sua cabeleira balançava
no vento gelado e resplandecente.

E suas asas de veludo azul
E suas vestes de neve adocicada.
Quem me hipnotizará sobre o musgo
ou cantará para que eu durma perto do fogo?

Esta capela de verdes vitrais
onde os Santos estão sempre tranquilos
Não há nada que possa me salvar ou me exilar
de um sonho pelo inferno avermelhado.

Da flor vermelha das papoulas
escondi conhecidas noites
Muitas coisas acontecem
para serem esquecidas sem nenhum gemido.

Meu anjo luminoso partiu
Através da maravilha do Reinos,
Eu acolherei todos os fantasmas;
para viver em paz, já menti tanto!

Sem as asas de veludo azul
E as vestes de neve adocicada.
Que o Demônio venha, se ele quiser...
Eis -me sozinha, à beira das chamas,
E nenhum astro me protege.







Tradução: Simone Teodoro
In: Le vent des rues. Editions Pierre Seghers. Paris.

sexta-feira, dezembro 07, 2012

Tulipas



Há uma parte de mim
onde a saudade é 
vermelha
cálida
gotejante.

E enquanto não vens
Estranhas tulipas explodem
na umidade insana
do desejo
que lentamente
me aniquila.

quinta-feira, dezembro 06, 2012

Azul-escuro

Extraordinária pétala
irrompendo em fúria
entre ramos sem cor.

Extraordinária lua,
interlúdio de luz
neste réquiem de sombras.

Mas o vento pronuncia
meu nome
E uma toalha manchada de vinho
espalha tristeza
sobre todas as coisas.

segunda-feira, dezembro 03, 2012

Valparaíso


1
Aquela casa era
um monumento às cores.
Feminina no nome
fora edificada no ápice
onde despertar
era um desenho distante do porto.

2
Horas mais tarde
você sorriria para mim
numa estação de buses
enquanto sorvia seu café expresso
tremendo de frio
sob o capuz vermelho do
suéter.

3
Em minha morada de cores
ecoa seu nome
E este sorriso
é mais que o mar
quando amanhece.

sábado, dezembro 01, 2012

Cair


Algo escarnece de nós, às nossas costas (...)

(...) e observo pessoas passando; agarrando-se firmes aos corrimões dos ônibus; determinadas a salvar suas vidas.  (Virgínia Woolf. As ondas)

                                       

Dizem que quando um avião cai, as pessoas que estão dentro dele morrem antes que ele se espatife trágico no chão. Quando estou voando, como agora, agradeço por essa informação valiosa e consoladora . Morrer de susto, e nem sequer sentir a terrível dor de tão violento impacto! Apenas apagar-se no ar. Os corpos inanimados, desmembrados talvez pelas pontas grossas das rochas, assemelhando-se a minúsculos bonecos desmontáveis, uma coleção playmobil completa nas rechonchudas mãos de uma criança rica.

Ontem, antes de me deitar, vivenciei alguns minutos de pânico, quando li uma notícia sobre a queda de uma aeronave. Tratava-se de um jato, com 29 passageiros a bordo, que caiu no Oceano Índico. E o pior: todos sobreviveram! Então eu havia sido enganada? As pessoas não se apagam no ar, como me disseram? Não se dispersa seu sopro de vida antes que seus corpos se quebrem como galhos ressequidos pelo sol de um verão inteiro?

Só depois de continuar lendo o informe jornalístico é que voltei a ter paz: o tal avião despencou logo após a decolagem. Estava ainda muito baixo, quando o combustível começou a vazar como uma torneira.  Com tão pequena variação de pressão, não deu nem tempo de ninguém morrer de susto. 29 paradas cardíacas simultâneas exigiriam alturas mais ousadas...
Enfim, eles tiveram sorte. Foram acolhidos pela maciez do mar. E eu voltei a acreditar que a dor não existe para os diretamente envolvidos em tragédias desse tipo. Quero continuar acreditando.

II
Estou voando. Não gosto disso. Jamais me acostumarei. Estamos a quantos mil pés de altura? É verdade que esse pássaro monstruoso está atravessando os ventos a quase mil quilômetros por hora? Que cidade  estamos sobrevoando? Tudo tão pequeno lá embaixo, um mapa do Google se desenha na minha janela. E uma mão cruel, de dedos ásperos comprime meu estômago e meu coração, como se ambos fossem um órgão apenas. Às vezes o estômago bate forte e disparado, latejando de inchaço. Outras vezes o coração queima ácido, com ânsias de vômito. A mão deve ter entrado pelo meu distraído umbigo, porque também tenho cólicas. E a mão é tão grande que alcança minha garganta, secando minha saliva. Sou toda angústia. Me sinto como deve se sentir um pano de chão de porta de banheiro público. Que lama!

III
Ao longo de suas vidas as pessoas caem bastante. Muitas dessas quedas são até graciosas, como as dos bebês que aprendem as dar os primeiros passos. Outras acontecem, cronologicamente, no outro extremo da vida e mesmo que não sejam ainda fatais, são o prenúncio de um fim: são as tristes quedas dos velhos.
Pensando nisso, para me distrair da angústia, resolvi listar aqui, alguns de meus tombos mais memoráveis:

1- Aos 4 anos, em um caminhão de mudança. Eu estava de pé na carroceria, o caminhão arrancou e caí de joelhos. Doeu. Um pouco.

2- Eu devia ter uns 5 anos... Não me lembro nem do antes, nem do depois: ficou apenas uma imagem sob a chuva. Meu pai carregava meu irmão no colo. Era noite e chovia forte. Ele correu, me deixando para trás. Com medo da noite e da tempestade  tentei acompanhá-lo, mas caí numa poça de lama, rasgando o joelho direito em uma ponta de ardósia que estava fincada no chão, ainda sem asfalto. Doeu. Muito. Ironicamente, eu apertava nas mãos um daqueles guarda-chuvas de chocolate que faziam tanto sucesso entre as crianças da década de 1980.

3- Aprendendo a andar de bicicleta.  Foram três tombos e eu já estava iniciada. Doeu, mas foi uma dor heróica, cheia de orgulho. Será que posso chamar aquilo de dor feliz?

4- Contando uma história engraçada para uma amiga. No meio da performance que a história exigia, escorreguei numa coisa escorregadia, é claro. Minha coluna vertebral chocou-se com um toco de árvore. Doeu por semanas.

5- Indo do estacionamento ao trabalho, a pé. Tinha uma raiz de árvore no meio do caminho. Era uma descida. Tropecei, rolei sobre meu próprio corpo, estraguei o relógio comprado em Paris, esfolei todo o antebraço, e o danoninho que eu transportava nas mãos aderiu convicto, aos fios dos meus cabelos.

6- Num velório. Na casa da pessoa morta tinha uma varanda sem parapeito, por onde eu caminhava olhando para trás, não sei por que motivo.  Preciso dizer que o acontecimento foi uma suspensão ( rápida, mas foi) da atmosfera fúnebre que ali imperava? Pelo menos eu consegui fazer com que pessoas rissem na cara da morte. É um consolo, não é?

Se riram de mim quando caí? Sim, riram. Sei que riram, embora eu não costume olhar para os lados quando caio porque fico com vergonha. Mas posso dizer que nunca ri das quedas alheias. As pessoas quando caem são tristes, miseráveis. É covardia rir da tristeza de alguém.


Penso agora em Albertine, personagem de Proust, cuja queda fatal (de um cavalo) provocou uma das mais belas elegias de toda a literatura universal. E penso também na queda de Percival, personagem de Virgínia Woolf, também arremessado de um cavalo rumo à morte. O que se segue a tão grave acontecimento na narrativa de As ondas? Elegias, as tristes palavras dos amigos, que em páginas e mais páginas tentam em vão nomear uma perda.

Quedas são tristes, não combinam com gargalhadas. Quedas exigem elegias, quando fatais. E quando não matam, como seria desejável o gesto simples e nobre de um braço solidário estendido, a oferecer ajuda!

IV
Há pessoas que provocam a própria queda. Jogam-se de edifícios altíssimos, dão algumas cambalhotas no ar e tornam-se uma fratura em meio ao trânsito,uma ferida aberta em plena quentura do asfalto. Há pessoas que provocam a queda de outras, como num filme de Hitchcock. E há pessoas que se sentem culpadas pelas quedas dos outros...

V
Quando eu tinha 11 anos era tão magra que tinha medo de que me partissem ao meio. Todo mundo é quebrável, eu sei. Mas eu era mais. Pesava míseros 27 quilos, os quais eu precisava manter inteiros e em terra firme. Ventanias e tempestades me aterrorizavam.
Certa vez, voltando da escola num fim de tarde sob um céu  pesado e vento forte, fiquei tão assustada que joguei minha mochila nas mãos de minha mãe e corri como uma louca, deixando-a para trás. Mamãe não era mais jovem, já tinha mais de 50 anos... Tentou me acompanhar, mas caiu. Eu devia estar a uns 500 metros dela, quando ouvi seu grito. Voltei. A imagem de sua fragilidade foi crescendo dentro dos meus olhos.
E doeu. Doeu mais, muito mais do que todos os meus tombos juntos.

VI
Meu pai começou a morrer com uma queda:  caiu da cama de madrugada. Acordei com um estouro. Era o nariz dele que tinha se arrebentado no chão. Convulsionado, ele se agitava com a cara enfiada numa poça de sangue...
Depois começou a cair pelas ruas. Vizinhos o amparavam. Ficava desmemoriado por horas...
E foi assim, até a última queda, da qual ele nunca mais se ergueria.
Mas... Como disse a Clarice: já está se tornando difícil escrever.  O piloto já anunciou que em instantes pousaremos em segurança.
Algo me incomoda. Estaremos seguros em solo? Porque ainda há as escadarias sem iluminação e os pisos escorregadios...
Agarremo-nos, portanto, aos corrimões. Não percamos nossa firmeza.
É preciso salvar nossas vidas.

segunda-feira, novembro 05, 2012

Ana Cristina César Plath limpando a geladeira numa tarde de domingo

Resgatar
de dentro do freezer
o Polo Sul inteiro
( não me espantaria ter encontrado pinguins)

Icebergs na pia da cozinha!

E para evitar naufrágios
deliciar-me
ferindo  o gelo
com a fina lâmina
da água fria.

quarta-feira, setembro 26, 2012

Não era

Não era vento:
era ser forte
era ser fraco
e, às vezes, sem rumo.

Não era chama:
Era um gosto na língua
Era umidade entre as pernas
Era angústia de amar.

Não era outono:
era a superfície da pele
alcatifada por rugas.

Não era um trilho de trem
uma estação rodoviária
um aeroporto
nem mesmo o mar
com um barco distante:
era a vida que restava
acorrentada à ausência.

Não era chuva:
era tristeza pura.
E só.

segunda-feira, setembro 24, 2012

Profanação na teia

Tirar a roupa dela
enquanto vermelha lua
arde.

Romper cascas, desfiar casulos.

Contrair-me em
aracnídeo inseto.

Patas e pelos, perfurar
a pele profanada

E ela se contorce toda
Presa em minha teia:
Era pétala amputada
tornou-se flor inteira.

sábado, setembro 22, 2012

Pizarnik


Vou lendo a Alejandra aos pouquinhos e traduzindo, aos pouquinhos também. Em breve voltarei com a Backer. Já estou sentindo falta!


Nemo

Não está longe o dia de raro verdor
em que cantarei à lua odiada que dá luz à minha espessa cabeça cortada à navalha
que dá luz aos ventos brutais
às flores agudas que ardem nos dedos sob as benignas ataduras
à estrela que  se esconde quando é chamada
à chuva úmida girando em sua nudez repulsiva
ao sol amarelo que traspassa as peles marcando escuros traços
ao despertador, enviado do infernos interrompendo belos sonhos
aos mares gelados arrastando lixo ondas brilhos dourados ardores nos olhos.

                                                                          ( Alejandra Pizarnik in: Poesía Completa. Lumen: Barcelona, 2011)

Versão de Simone Teodoro

domingo, setembro 16, 2012

Gentileza, o caralho!

No prédio onde trabalho tem um caixa eletrônico disputadíssimo. A concorrência pela máquina aumenta, obviamente, nos dias posteriores ao do pagamento, o abençoado, sacrossanto e desejado quinto dia útil do mês.
Dia desses encontrei-o vazio. Nem acreditei. Eu tinha um envelope de faturas a pagar, algumas delas com vencimento para o dia seguinte, outras já estavam até atrasadas. Peguei meu pacotinho e caminhei rumo ao caixa. Tinha que ser coisa rápida, pois eu teria uma reunião em 15 minutos.
Então fui pagando, uma por uma, mantendo a calma até mesmo quando a máquina se recusava a ler alguns códigos de barra, ou a reconhecer meu cartão, acontecimentos que me obrigavam a repetir toda a operação.
Eu estava calma, coisa rara também, de uns anos pra cá.
Ouvi rumores de vozes. Eram três mulheres que formavam uma fila de espera para utilizar o terminal.
Elas falavam mal de mim! Falavam da demora, do tanto de coisa que eu pagava, que era um absurdo, um lugar com apenas um caixa eletrônico "permitir" que tantas operações fossem feitas por uma pessoas só.
Como elas ainda não tinham me dirigido a palavra, apenas continuei o que estava fazendo. Elas estavam como sorte, pois mesmo  com muitas faturas, costumo fazer tudo bem rapidinho,isto é, quando a máquina colabora.
Mas as donas continuaram lá com a conversa chata e deprimente típica dos que se sentem injustiçados. Então uma delas falou comigo.
-Moça!
-Oi?- Me virei para elas, agindo como se pela primeira vez na vida tivesse orelhas e ouvidos.
- Vai demorar?
-Vou. Olha o pacotão de coisas que tenho pra pagar.Se vocês estiverem com muita pressa não aconselho esperar.
- Mas eu preciso fazer um saque!- Ela protestou, como se eu fosse culpada pelo atraso que o fato de eu ter chegado primeiro ao caixa eletrônico ia provocar na  vida dela. Esse protesto era também uma forma de sugerir que eu a deixasse entrar na minha frente.
-E eu preciso pagar minhas contas!- Eu disse- Além disso, tenho que voltar ao trabalho. 
Então outra  mulher, provavelmente amiga da que falou comigo primeiro, levantou a voz em sua defesa:
- Mas ela tem que bater o ponto!
Minha calma foi pelos ares. Parei tudo, olhei para aquelas três caras de bosta e disse:
-Dona, eu não tenho nada a ver com isso!
E continuei fazendo a transfusão do meu suado dinheirinho para  contas bancárias alheias.




segunda-feira, setembro 10, 2012

Blue em rádio abandonado

Segunda-feira é dia de ir à casa da mãe para fragmentar um de seus comprimidos. Para isso, levo comigo uma pequena ferramenta de plástico, cuja lâmina interior faz o serviço da separação. E é estranho: toda vez que coloco o remédio lá dentro e pressiono a lâmina contra ele, tenho a sensação de estar partindo em dois também o meu coração. E quando saio da casa da mãe e a vejo , ao longe, me olhando 
pelo portão entreaberto, me perguntando com os olhos por que motivo estou indo embora tão cedo, é como se a metade do meu coração estivesse ficando lá, com ela.
Ao chegar em casa, fico me indagando se o blue melancólico que insiste em tocar na parte que veio comigo também está tocando lá, na parte que ficou, como num radinho abandonado.

segunda-feira, agosto 27, 2012

Gato, coração, parede



          Quando o irmão chegou a casa naquela noite de outono trazia consigo uma caixa de papelão que tinha um filhote de gato dentro.

            -Cuida dele.

           Foi o que disse à irmã, dois anos mais nova . Aquele pedido, ou ordem, tinha o mesmo efeito de um contrato de doação: o irmão havia encontrado o gato abandonado em um terreno baldio e tivera a ideia de salvá-lo daquela complicada situação, mas não teria paciência para cuidados, que exigiriam muita dedicação e amor. Mas todos esses requisitos a irmã tinha de sobra, ainda mais que nos últimos meses vinha sofrendo de solidão como nunca havia sofrido antes. Ela e a família haviam se mudado recentemente para um bairro feio, para uma casa velha e ela ainda não tinha feito amigos. E para deixar tudo mais difícil o pai não voltava para a casa há semanas e a mãe raramente saía do quarto, pois estava deprimida.
Então a menina recebeu o filhote de gato com os mesmos olhos agradecidos de um morto de fome diante do prato de sopa.

          Levou a caixa com o animalzinho dentro para o banheiro. O bicho seria criado atrás da porta, para que a mãe não visse.

         Então a menina viveu uma semana muito feliz, depois de dias arrastados de tristeza. Alimentava o gato. O pegava no colo. Acariciava seu pelo fofo. Deliciava-se ao vê-lo, na caixinha, estapeando coisas invisíveis no ar.

        A menina não saía da porta do banheiro

        E o gatinho ronronava, com doçura, retribuindo o carinho de sua nova dona.

       E assim os dias foram passando.  A mãe continuava doente, mas a menina parecia quase curada de sua solidão.

       Numa noite o pai apareceu, vindo das profundezas de sua ausência.

      A menina sentiu um aperto no peito: soube de tal presença opressiva por causa de um bater de portas e do choro da mãe, provocado por aquele inesperado retorno.

     Os passos do homem foram ficando cada vez mais sonoros: ele se aproximava e ela se encolhia de medo. O pai apareceu no corredor e eles se olharam, silenciosos. Ele tinha a expressão de um deus que quisesse devorar seus filhos.

      Sem dizer nenhuma palavra ele avançou rumo à porta do banheiro, olhou para o gato com um misto de repugnância e ódio. Chegou perto da caixa, segurou o animal com a mão direita e o arremessou com força contra a parede.

      A menina fechou os olhos.

    O barulho de coisa viva se quebrando foi tão triste, que a menina demorou a se dar conta do que tinha acontecido. Ela ainda estava de olhos fechados quando o pai passou por ela resmungando algo que não dava para entender direito. 

     O gato havia explodido?  Seus pedaços estariam espalhados pelos ralos e rodapés?
   Lentamente ela abriu os olhos doloridos. Seu gatinho estava lá, num canto, molhado. Não havia explodido, mas tinha ossos quebrados, articulações rompidas. Sangrava por dentro, como ela, que parecia ter acabado de levar um soco no estômago.

   Era proibido chorar. A dor ficou corroendo seu interior, como um ácido, um grito querendo liberdade.

   Ela puxou os próprios cabelos, arranhou a própria pele, vomitou.

Enquanto isso, das orelhas e do nariz do gatinho, começavam a sair fios grossos de sangue.

   Os ossos dela estavam quebrados também. 

  O pai havia jogado era o coração dela na parede.

  Ficou olhando a morte chegar devagar para o bichinho agonizante.

  Ela perguntava, baixinho, para Deus, em quem ainda acreditava naquela época: “por que, se ele não tinha culpa de nada, por que, se eu também não tenho”?

  Deus nunca respondeu. E para deixar tudo ainda mais difícil, soprou sobre a casa inteira um vento frio e  carregado de ausências.

quarta-feira, agosto 22, 2012

Funeral blue


Entrei com tanta pressa
na noite
demasiado fria
descendo escadas
rumo à garagem.

Havia alguma coisa perdida
no porta-luvas.

E agora estou triste
como quem acaba de voltar de um funeral.

Não sei por que
às vezes caio de tão alto
se já conheço a dor
que é ter ossos partidos

  A noite
( na qual entrei tão apressadamente)
 era vermelha
como se alguém houvesse esmagado morangos nas nuvens.

E eu estou triste
como quem acaba de voltar de um funeral

E depois de ter tentado trancar
a escuridão do lado de fora
e de nada ter encontrado no porta-luvas
um vento velho veio entrando
pelas fendas das janelas e fraturas
povoando toda a casa iluminada.

Chovia.

E eu estou triste
como quem acaba de voltar de um funeral.

Não sei por que
às vezes caio de tão alto,
eu que já conheço, tanto,
a dor de ter ossos partidos.

Ainda chove.
Mas eu estou triste
como quem acaba de voltar de um funeral.

Não sei por que.
Ossos partidos.
Às vezes caio.
Eu que já conheço tanto!
A dor.

quinta-feira, agosto 09, 2012

Madeleine

                                                                     I


           Alguma coisa me acordou quando ainda estava escuro. Talvez tenha sido o ruído de ovos de pombos se quebrando no telhado, bem acima da minha cabeça. Ou terá sido o arrulhar  das aves recém - nascidas, amedrontadas por terem vindo à luz em plena escuridão?
             Alguma coisa me acordou quando ainda estava escuro.

          Fiquei meio confusa no começo, como se tivesse acabado de me libertar das gosmentas cascas de um ovo aberto antes da hora, ou como se tivesse vindo voando de longe, muito longe e pousado em solo tenebroso, frio e amorfo.
       Mas foi no começo, apenas. Depois reconheci, aos poucos, a mobília do quarto, suas silhuetas familiares.
           No telhado, ao gemido fino e assustado dos pombos bebês veio se juntar uma outra música, a das vozes graves dos pombos adultos; vozes que na linguagem comum a essas aves deve ser uma espécie de cantiga de fazer dormir os pequenos, pois tal melodia se sobrepôs ao aflitivo choro dos filhotes, que finalmente se calaram.
          Foi então que vi uma luz vermelha num dos cantos do quarto. Não era nada demais: nenhuma visita de seres extra-terrenos, nenhuma atividade paranormal se desenrolava na casa enquanto eu dormia e não era, definitivamente, nenhum resíduo ectoplasmático de algum ser inominável.
          Era uma luz familiar, como os contornos dos móveis.
          Era apenas a micro-lâmpada do estabilizador de tensão.
      Tinha ficado acesa a noite toda e seu brilho solitário, naquela madrugada sem lua, num quarto de cortinas fechadas acabou me transportando, sem que eu quisesse, para outras noites de breu, quando eu , criança, precisava atravessar a casa inteira, no escuro, para ir, sozinha, ao banheiro.
          Era proibido acender as luzes e, por isso, aquilo era uma aventura épica.
        E, como em um rito, a cada travessia noturna havia o pai, mítico, fumando no escuro. Na ausência quase total de luz, a única fonte de claridade era a ponta em brasa do cigarro aceso, tão semelhante à pequena lâmpada vermelha que me  esqueci de apagar ontem, quando me deitei.
    A ponta em brasa do cigarro , um farol marítimo para a minha momentânea cegueira:  é que o pai fumava silencioso no sofá da sala e o móvel ficava próximo à porta da cozinha que, por sua vez, dava acesso ao banheiro.

    O pai fumava, fumava muito e era como se tragasse a noite  para dentro de si, porque era só eu passar por ele que, logo depois, a noite virava dia, o escuro virava fumaça e meu medo milagrosamente se transformava em cinzas.

                                                                      II

    O pai não fuma mais. Fumou tanto a noite que um dia um pedaço dela nunca mais saiu de dentro do corpo dele. O pedaço decidiu ficar lá escurecendo seu sangue, até que tudo o que fazia aquela vida funcionar fosse, lentamente, perdendo a umidade. Até secar. Para sempre.
    Alguma coisa me acordou quando ainda estava escuro.

quinta-feira, agosto 02, 2012

Gigantes debaixo da terra, monstros debaixo da cama.

                                                                                                 Nosso luto docemente se prolonga
                                                                                                                                   ( Anne-Marie de Backer)

     Ontem, quando eu passei por aqui, a rua paralela estava interditada e havia homens e máquinas pesadas dando início a um trabalho de escavação.

    Os operários estavam à procura de tubulações de esgoto e não de tesouros enterrados  no Egito; talvez por isso estivessem tão tristes.
   Sobre toda aquela cena, ricamente colorida pelo azul dos uniformes dos rapazes, pelo amarelo das máquinas vorazes, pelo verde meio queimado das folhas das árvores e pelo roxo das melancólicas acácias, havia um céu cinza e vermelho que parecia zombar de todos os  nossos mais belos sonhos sepultados.
   Hoje a rua continua interditada, mas o quadro está um pouco desbotado: não  há mais tratores nem homens sonhando com arcas perdidas. Há apenas o que fora um buraco gigantesco, coberto por um considerável volume de terra.
   As acácias, por causa do vento, desprenderam-se dos galhos e agora repousam sobre o monte de terra, conferindo ao cenário o triste aspecto de um túmulo.
   Ao me dar conta de tal semelhança paro, de súbito, e olho com mais atenção para o quarteirão em obras.

                                                              II

     Só poderia ser o túmulo de um Gigante, penso, daqueles cinematograficamente medievais. Sabe-se lá como teria morrido, talvez graças ao feitiço de alguma bruxa, ou quem sabe teria sucumbido sob a espada de algum guerreiro audaz. Não importa. Apenas consigo pensar no funeral em si, nos amigos  desajeitados cavando o buraco com as unhas, nos urros da fêmea enviuvada, nos filhos que, num ato de revolta e saudade, arrancam as flores de acácia das árvores e semeiam suas pétalas sobre a incrível sepultura.

                                                               III
    Um gigante foi morto e ninguém percebeu. Foi enterrado de madrugada. E nosso sono, à revelia, perturbado pelos monstros desde sempre debaixo da cama. Sono no qual, apesar de já termos passado dos trinta anos de idade, ainda imploramos, chorando, pelo colo da mãe.
   O que me resta fazer? Nesta manhã de vento escuro e de céu avermelhado há um gigante apodrecendo debaixo da terra, sob as acácias.


terça-feira, julho 17, 2012

Mulheres em trânsito.



Fui a casa da mãe. O irmão me recebeu aos berros: 
- Sua magrela, seu carango não era preto?
Dizendo isso, avançou feliz, como uma criança de quem nunca roubaram o doce, para meu carro, que estava coberto de poeira branca.
- É tudo culpa do inverno- Me justifiquei. – Sereno a noite toda e essa secura durante o dia. A sujeira gruda mesmo.
Eu falava para as paredes, pois o irmão já estava desenhando nos vidros do automóvel. Além de pequenas figuras indecentes, escreveu em caixa alta uma frase obscena, dessas que já são comuns em partidas de futebol: “ Vai tomar no cu fedaputa”.
Olhei para aquilo, achei engraçado e não fiz força alguma para apagar.

Então os dizeres ficaram lá. Por dois dias, creio. E esse tempo curto acabou sendo o suficiente para  que  eu chegasse a algumas conclusões sobre como as pessoas se comportam diante de uma "palavra feia" desenhada num carro de mulher.

No primeiro dia, eu dirigia pela avenida Vilarinho, não muito longe de casa. Um moço vinha logo atrás de mim e percebi que ele buscava,com certa aflição,um espaço à minha esquerda. Parecia ansioso por me dizer algo.
Conseguiu. Me disse:
- Moça !
( Acho engraçado ouvir as pessoas me chamando de moça. Engraçado mesmo).
- Pois não? – Respondi de cara muito ruim.
- Você viu o que escreveram aí atrás, no seu vidro?
- Ah, no vidro.. vi sim... Por quê?
Ele me olhou com uma cara estranha. Provavelmente estava esperando que  eu perguntasse,ao mesmo tempo espantada e emputecida “  Vi não! O que escreveram??????”
- Você viu?? Mas é um palavrão!
-Vi... Foi meu irmão que escreveu. Achei engraçado e resolvi não apagar.
- Você também, hein? – Ele disse, com um jeito meio brincalhão. ----Tem irmão pequeno, né?
- Não... meu irmão tem 33 anos.
Houve um breve silêncio.
O homem então concluiu sua fala: - Nossa, quando eu vi o palavrão, fiz de tudo pra te avisar, porque vi que você era mulher e não é legal, né? Mulher ficar andando por aí com uma  palavra feia dessa escrita no vidro do carro...
 Aí fui eu que  olhei para ele com uma cara estranha. Fiquei pensando: “ Puxa, será que a mulher desse cara não tem cu?”
Apenas lhe disse: -Ah, moço, tem galho não... O senhor se divertiu, não foi? É bom para alegrar o povo, não é?
Naquele dia eu estava bem humorada. Sorte dele.

Então a luz verde do  semáforo se acendeu para todos nós que estávamos transitando por aquela via, naquela mão de direção, naquela manhã de sol frio  de inverno.


No dia seguinte, quase no mesmo horário, subindo a Bahia, mais uma vez num sinal vermelho, um rapaz todo musculoso,acompanhado por um exemplar fotocopiado de si mesmo,abriu o vidro do carro dele, buzinou para mim, o que me fez também abrir o vidro do meu carro, pois pensei  se tratar de coisa séria.
 Ele gritou, de uma maneira meio mal educada, meio ofendida, sei lá:

- Pega mal!
Olhei para ele com cara de pessoa que escuta, mas não entende bem as palavras.
- Pega mal! -Ele repetiu, gritando mais alto e fazendo uma expressão ainda mais feroz.
- Tá falando do que , menino? –perguntei, nem me lembrando da obscenidade lá de trás.

- O que tá escrito, pega mal pra uma mulher.

Então entendi. Era a tal da palavra feia.
 Me fingi de égua e perguntei o que estava escrito. Ele engrossou a voz para responder: - Vai tomar no cu fedaputa.
 Eu ri. E disse pra ele, antes de arrancar:
- E por que você não foi até agora?

Saudade



Que saudade daquela sensação de liberdade e felicidade que a gente só experimenta quando está longe, de férias, num outro país...
Hoje estou triste, cansada e com dor de cabeça. Por isso vou me resumindo por aqui, com esta fotografia que me eleva a 3000 metros de altitude, e enche meus pulmões do ar mais inacreditável que já respirei...

quarta-feira, junho 27, 2012

Mendigos



Não falo das criaturas encardidas que perambulam como mortos-vivos pelos caminhos urbanos, muitas das quais, em suas vestes quase bíblicas (que bem poderiam ser restos de túnicas de profetas do velho testamento, corroídas pela ação inexorável dos milênios), possuem o aspecto mineral das rochas escuras e impenetráveis. Não falo também de outra categoria de mendigos, a que é vegetal, cujas pernas se assemelham a grossos troncos tomados por lodo e líquens; cujas unhas compridas têm a aparência de raízes de árvores ancestrais e cuja cabeleira, enroscada de galhos, folhas e ninhos de pássaros,se comporta como se estivesse na cabeça de um antigo fauno.

Falo de mim e de um cão de raça indefinida que, certa noite, quis tornar-se minha sombra, enquanto eu protegia meus olhos das travessuras de uma nuvem de poeira excitada pela impetuosidade do vento, que anunciava tempestades.

Naquela noite, na rua por onde eu passava, só havia a movimentação dos carros, o meu caminhar apressado e amedrontado e os passos do cachorro atrás de mim.

 Até que tentei fugir, mas de nada adiantou andar mais depressa: sua velocidade se adequava à minha; ele tinha pernas compridas, patas grandes. Parecia estar faminto, mas tinha ainda muita energia para tal perseguição.

E assim continuamos: eu caminhando, protegendo os olhos com as mãos,e o cão no meu encalço, rápido como eu, mas de cabeça baixa, como se estivesse com vergonha. Isso durou até a chegada ao portão de grades de minha casa.

Quando parei para pegar as chaves, o cão parou ao meu lado. Olhei para ele. Ele me olhava também, com parte considerável da língua para fora daquela enorme boca que babava.

“Oi, Au-Au, nessa humilde casinha só cabem eu e eu. Você infelizmente vai ter que voltar para seu canil, ou para seu dono malvado que te deixou sozinho nessa noite esquisita, ou sei lá, para país dos cachorros abandonados”, eu disse.

O desgraçado balançou o rabo, e como todo mundo sabe, cachorro balançando o rabo quando ouve a voz da gente  significa cachorro sorrindo pra gente.

“Esse castelo de pulgas riu pra mim. Estou fodida”. Pensei, enquanto terminava de destrancar o portão. Os olhos sorridentes do cão sem dono pediam.

Antes de subir as escadas, ainda pude ver, através das grades, aquela cara que implorava. Solenemente fingi indiferença. Um banho quente me esperava.

No aconchego do lar, após  um dia cansativo, tudo estaria a salvo se não fosse o espinho no dedo em formato de olhar de cachorro, me atravessando a carne.

Então, algumas horas depois (eu já estava de pijama e de luzes apagadas) uma coisa forte como o vento me impeliu para fora da cama, me fez caminhar até a porta da sala, me fez descer as escadas e olhar através das grades do portão.

Ele ainda estava lá, me esperando na ventania.

Deixei-o entrar. Subimos até à cozinha. Na geladeira encontrei pedaços de carne congelada há muito tempo, que eu jamais comeria.

Enquanto acionava os comandos do microondas e esperava o tempo necessário, olhei de novo para o cachorro, cujo sorriso nos olhos havia se transformado em agradecimento. Ficamos nos confrontando, silenciosos. A noite cantava, lá fora, as desarmonias inquietas de ventos de tempestade.

Lembrei-me de cenas muito antigas: numa delas eu esperava que meu pai viesse me salvar de uma melancólica noite de Natal. Naquela triste época de privações sempre havia a esperança de que o retorno do pai a casa fosse coroado com o alimento conquistado com o suor de seu trabalho.

Ele não apareceu. Esperei, sentada sozinha numa calçada, de onde era possível ver o fim da rua,onde ele apontava sempre, virando uma esquina. Como implorei ao sol frio do fim do dia  por aquela presença adorada! Enfim, escureceu e eu ainda esperava, acreditando. Sei que eu tinha olhos de cão abandonado na noite. Eu sei.

Outra lembrança deixou-me triste como a chuva que já cuspia seu caos no silêncio da madrugada: minha mãe, num domingo remoto, me prometeu o paraíso.  Prometeu que ficaríamos ricas; bastava que fizéssemos as malas e viajássemos para a cidade onde ela havia nascido. Uma caravana viria nos buscar e nunca mais teríamos fome.

Fiquei abraçada à mala durante todo o domingo, no início, com a euforia de toda espera feliz, depois, no fim da tarde, com o aspecto de uma rosa morta.

Esse foi meu rito de passagem. Cresci. Só mais tarde, quando soube que doenças mentais existiam, pude perdoar minha mãe.

E quantas vezes  se repetiu em minha vida adulta esse triste processo que transforma perfumes de sonhos em enterros de flores?

Havia um cachorro na minha cozinha, me fitando com olhos marejados de amor. Eu Atirava-lhe pedaços de carne, pelos quais ele agradecia, com seu sorriso de balançar de rabo. Eu era sua deusa.

 Hoje fico pensando sobre sua raça. Seria um fila? Talvez. Mas, é estranho, certa vez li que filas são extremamente amáveis com os donos, e proporcionalmente agressivos com estranhos. Aquele era dócil como um vira-latas.

A solidão e a falta podem  transformar até mesmo os mais aristocráticos pedigrees.

Mas o que eu queria de verdade é que, mesmo escaldada e faminta, eu fosse capaz de manter a nobre e orgulhosa arrogância dos felinos.


terça-feira, junho 12, 2012

Potes de vidro

    Dia desses vi Samuel Medina ficar perplexo diante de minha resposta negativa a uma pergunta sua. A pergunta era: " Si, você queria viver de literatura?"
    Bem, de certa forma eu já vivo pois , até onde eu saiba, não é todo graduado em letras que pode afirmar ser um TNS-Literatura, ou traduzindo em miúdos, um Técnico de Nível Superior cuja especificidade é trabalhar com a leitura literária.
    Tudo bem, ao dizer "viver de literatura", não era disso que ele falava. Estava, é claro, se referindo ao ato de escrever e toda a paixão relacionada a ele; se referia ao sonho de ficar o dia inteiro na frente do computador inventando histórias, pensando atravessado, evocando belezas. E recebendo por isso.  Se tornar conhecido, entrar para as listas do cânone, ser reverenciado, amado pelos estudantes de letras,etc,etc,etc.
    Eu disse que não queria. Eu disse que não podia. Eu disse que nunca esperei por isso.
    Se trata de simples apego ao chão onde piso: pelo pouco que pude sentir, o mercado é demasiado castrador: exigências e mais exigências e a poda de parte de nossos sonhos, censurados pela patrulha do politicamente correto. E há também a arrogância dos que já escrevem para ganhar dinheiro: muitos parecem crer que são a autêntica reencarnação de uma entidade  (uma verdadeira trindade) denominada MachadodeAssisGuimarãesRosaClariceLispector.
     Preciso deixar claro que nada tenho contra o mercado: sem ele os livros não teriam chegado às bibliotecas onde me nutri a vida inteira. Mas escritores metidos são uma merda muito fedida. Eu os detesto.

    Embora eu tenha alguns pré-requisitos, como ser sapatão (e não tenha outros- é bom lembrar!- como  ser feia,) eu seria uma péssima escritora, enfim, há muita concorrência, falta de mecenato e, o mais importante:  muita incompetência para as histórias. Sim: não sou boa de histórias, além do mais. Quando as invento, elas são bem fuleiras, não têm força. Sou boa mesmo é em remoer a minha história, cutucando as grandes chagas vermelhas das minhas pequenas tragédias pessoais. E sei também extrair sonhos de canções encharcadas de melancolia. Mas minhas tragédias e meus sonhos interessam a poucos e, por isso, se eu fosse tentar competir no mercado, certamente morreria de fome.
     Escrevo para que alguns leiam e amem as belezas que moram em mim.  E além disso, escrever vez ou outra é como guardar a beleza num pote de vidro, até que ela vire perfume: a juventude, o amor, delicadezas sensuais sob lençois, os excessos da paixão,  banhos quentes em  noites de outono...
    Então, alguémque a gente conhece, ou não, um dia abre o pote e nossa solidão toda invade suas narinas...
    Então há comunicação. Mesmo se a gente já tiver morrido.

    Queria ganhar muito dinheiro mesmo  escrevendo roteiros para as novelas da Rede Globo, porque seria só mais uma trabalho e nada teria a ver com a poesia.
    Mas não sei escrever histórias. Só remoer as minhas...

       Há um tempo abri um pote de vidro desses bem perfumados.Lá dentro encontrei poemas que venho traduzindo e postando aqui neste blog. No post anterior há três deles: Melodia, O vendo das ruas e Ovelha perdida. Todos de Anne-Marie-de-Backer, poeta Belga ( não é francesa, descobri recentemente), nascida em 1908 e falecida em 1987. Os poemas já postados e os que ainda serão fazem parte da obra Le vent des rues, primeiro livro de Backer, o qual é composto por 15 poemas.      
    Todos serão traduzidos e disponibilizados aos poucos.

Vamos a eles.. Depois divago mais sobre a sensação de traduzi-los nestes belos dias de ventos outonais...

Migrações
 Existe tão belo país, existe,
 De tão doces florestas e hálito de anêmonas;
 E olhares felizes que evocam suas tristezas,
E, por vezes, palavras ternas, esmolas.
 Há navios que singram para ilhas
Onde os mais negros pássaros têm ouro sobre as asas.
Guardiã cega de tesouros inúteis,
Há caminhos onde a vida é real.
 A Rainha do Oriente dorme sob as próprias ataduras,
O Amor dorme com ela na outra extremidade da terra.
 Quem vai te perdoar por ser quem você é,
 e por errar ao vento das praias solitárias?
Quem vai te perdoar por ser quem você é,
Meus olhos, que você fechou às claridades excruciantes,
E você Sonho ruim, que assusta e que inquieta
A razão, sem piedade para com o segredo dos amantes?
 Quem vai me perdoar quando eu estiver cansada,
Desta jornada febril, onde costumo abandonar tudo o que amo,
Sem nunca encontrar o sol ou as distâncias;
Desta jornada febril, onde eu giro em tono de mim mesma?
Recomeço
Cabelos- de-vênus cor de malva em meio ao trigo,
Nosso luto docemente se prolonga.
Todas as flores que já conversaram comigo
Não me disseram nada além de mentiras
 Permaneci fria e serena
Submersa em uma vida onde nada é seguro
Nem a água que se bebe, nem a memória
Daqueles que amamos, nem o azul ultramarino.
 Preparei meu último adeus,
Pois é preciso que se lembre de nós
Neste salão de cortinas azuis
Embaladas por valsas antigas
 Como um réquiem para aqueles que morreram
 E que nunca mais serão vistos novamente
 O vento atirava contra a minha porta
 Neve e folhas negras
 Mas em um casto caminho aberto entre o trigo,
A luz encontrou meus sonhos
Todas as flores que já conversaram comigo
Não me disseram nada além de mentiras
 A canção silenciosa das flores vivas
 Ressuscita em mim a vontade
De experimentar a mudança das estações
E o traiçoeiro resplendor dos meses
 E tudo começa outra vez, eu sempre soube.
Que meu universo se recolha
 E a virgem negra recebeu
 Minha fronte abatida contra seu vestido
 Sabedoria, quando eu a agradeço
 Pela movimentação de meus dedos gelados
Essa cândida hipocrisia
Que me liberta do passado
 Ela vê o meu amor, maior
Que o silêncio e a música
 E espreita, com seus olhos enigmáticos
Meu coração, que se protege.

                         
Resignação
 Eu não sei onde eu vou te encontrar. Sem dúvida
 Dentro do quarto, selado com cortinas rendadas.
E você verá chegar do fundo das estradas
Peregrinos sem rumo, e suas vestes escuras.
 Eu não sei onde eu vou te encontrar. Respigador
À beira do trigo cortado onde eu estaria sentada,
 Ou talvez parecido com a Esperança feliz,
Apanhadora de lírios, apanhadora de cerejas.
 Você mantém meu rosto imóvel e minha alma também,
 Longe destes oceanos onde nossos desejos estão escondidos,
Com sua voz sagaz você me faria ter medo
Das florestas, das ondas pesadas e das flores ​​sem estrelas.
Eu teria medo das canções que dançam nas estradas,
E revelam segredos, como fazem os Ciganos
 Canções que imploram para que as escutemos
Ao bater delicadamente nas portas dos aldeões
  Mas há canções pelas quais eu poderia morrer:
Elas vêm dentro da noite deslizar sobre minha face,
Ou como os pássaros voam para fora da janela
Atravessando os perfumes que as tílias agitam
E que nada trazem, mas parecem tudo prometer.

                                                                     Anne-Marie-de-Backer