domingo, setembro 16, 2012

Gentileza, o caralho!

No prédio onde trabalho tem um caixa eletrônico disputadíssimo. A concorrência pela máquina aumenta, obviamente, nos dias posteriores ao do pagamento, o abençoado, sacrossanto e desejado quinto dia útil do mês.
Dia desses encontrei-o vazio. Nem acreditei. Eu tinha um envelope de faturas a pagar, algumas delas com vencimento para o dia seguinte, outras já estavam até atrasadas. Peguei meu pacotinho e caminhei rumo ao caixa. Tinha que ser coisa rápida, pois eu teria uma reunião em 15 minutos.
Então fui pagando, uma por uma, mantendo a calma até mesmo quando a máquina se recusava a ler alguns códigos de barra, ou a reconhecer meu cartão, acontecimentos que me obrigavam a repetir toda a operação.
Eu estava calma, coisa rara também, de uns anos pra cá.
Ouvi rumores de vozes. Eram três mulheres que formavam uma fila de espera para utilizar o terminal.
Elas falavam mal de mim! Falavam da demora, do tanto de coisa que eu pagava, que era um absurdo, um lugar com apenas um caixa eletrônico "permitir" que tantas operações fossem feitas por uma pessoas só.
Como elas ainda não tinham me dirigido a palavra, apenas continuei o que estava fazendo. Elas estavam como sorte, pois mesmo  com muitas faturas, costumo fazer tudo bem rapidinho,isto é, quando a máquina colabora.
Mas as donas continuaram lá com a conversa chata e deprimente típica dos que se sentem injustiçados. Então uma delas falou comigo.
-Moça!
-Oi?- Me virei para elas, agindo como se pela primeira vez na vida tivesse orelhas e ouvidos.
- Vai demorar?
-Vou. Olha o pacotão de coisas que tenho pra pagar.Se vocês estiverem com muita pressa não aconselho esperar.
- Mas eu preciso fazer um saque!- Ela protestou, como se eu fosse culpada pelo atraso que o fato de eu ter chegado primeiro ao caixa eletrônico ia provocar na  vida dela. Esse protesto era também uma forma de sugerir que eu a deixasse entrar na minha frente.
-E eu preciso pagar minhas contas!- Eu disse- Além disso, tenho que voltar ao trabalho. 
Então outra  mulher, provavelmente amiga da que falou comigo primeiro, levantou a voz em sua defesa:
- Mas ela tem que bater o ponto!
Minha calma foi pelos ares. Parei tudo, olhei para aquelas três caras de bosta e disse:
-Dona, eu não tenho nada a ver com isso!
E continuei fazendo a transfusão do meu suado dinheirinho para  contas bancárias alheias.




2 comentários:

Marina disse...

Nossa, eu consigo imaginar a sua raiva... eu, que sou uma pessoa relativamente controlada, tranquila, mas que se irrita com coisas desse tipo. Esse relato seu me trouxe uma sensação de muita solidão, de frustração, sei lá... às vezes eu acho tão difícil continuar vivendo, pagando contas, resolvendo problemas, brigas, pepinos e não me tornar amarga..! Como você reage com raiva, acaba se defendendo melhor. Eu costumo reagir com tristeza e acabo me sentindo oprimida, o que não me ajuda em nada!

Simone Teodoro disse...

Sabe, Marina, não é sempre que tenho força pra reagir com raiva não... Às vezes as situações são tão cansativas que acabo me fechando em minha tristeza também... Não, não ajuda nada! No trânsito então! Fico num dilema danado, se brigo ou se me calo e fico triste... Tanto de gente sem educação... nunca vi igual.
Ouvi alguém dizer um dia que no Brasil, na hora de resolver problemas e se relacionar com desconhecidos, ou a gente é histérico ou é idiota. Acho a palavra "idiota" pesada, então prefiro trocá-la por "passivo". Fico então oscilando entre os dois estados, mas predomina, atualmente a histeria, o que não é bom também.
Acho que a gente precisa mesmo é procurar um ponto de equilíbrio, pra não se sentir tão triste, quando passivo e cansado e pra não dar brecha pras violências que podem surgir com a histeria.
Eu ainda chego lá.... rs!