terça-feira, junho 12, 2012

Potes de vidro

    Dia desses vi Samuel Medina ficar perplexo diante de minha resposta negativa a uma pergunta sua. A pergunta era: " Si, você queria viver de literatura?"
    Bem, de certa forma eu já vivo pois , até onde eu saiba, não é todo graduado em letras que pode afirmar ser um TNS-Literatura, ou traduzindo em miúdos, um Técnico de Nível Superior cuja especificidade é trabalhar com a leitura literária.
    Tudo bem, ao dizer "viver de literatura", não era disso que ele falava. Estava, é claro, se referindo ao ato de escrever e toda a paixão relacionada a ele; se referia ao sonho de ficar o dia inteiro na frente do computador inventando histórias, pensando atravessado, evocando belezas. E recebendo por isso.  Se tornar conhecido, entrar para as listas do cânone, ser reverenciado, amado pelos estudantes de letras,etc,etc,etc.
    Eu disse que não queria. Eu disse que não podia. Eu disse que nunca esperei por isso.
    Se trata de simples apego ao chão onde piso: pelo pouco que pude sentir, o mercado é demasiado castrador: exigências e mais exigências e a poda de parte de nossos sonhos, censurados pela patrulha do politicamente correto. E há também a arrogância dos que já escrevem para ganhar dinheiro: muitos parecem crer que são a autêntica reencarnação de uma entidade  (uma verdadeira trindade) denominada MachadodeAssisGuimarãesRosaClariceLispector.
     Preciso deixar claro que nada tenho contra o mercado: sem ele os livros não teriam chegado às bibliotecas onde me nutri a vida inteira. Mas escritores metidos são uma merda muito fedida. Eu os detesto.

    Embora eu tenha alguns pré-requisitos, como ser sapatão (e não tenha outros- é bom lembrar!- como  ser feia,) eu seria uma péssima escritora, enfim, há muita concorrência, falta de mecenato e, o mais importante:  muita incompetência para as histórias. Sim: não sou boa de histórias, além do mais. Quando as invento, elas são bem fuleiras, não têm força. Sou boa mesmo é em remoer a minha história, cutucando as grandes chagas vermelhas das minhas pequenas tragédias pessoais. E sei também extrair sonhos de canções encharcadas de melancolia. Mas minhas tragédias e meus sonhos interessam a poucos e, por isso, se eu fosse tentar competir no mercado, certamente morreria de fome.
     Escrevo para que alguns leiam e amem as belezas que moram em mim.  E além disso, escrever vez ou outra é como guardar a beleza num pote de vidro, até que ela vire perfume: a juventude, o amor, delicadezas sensuais sob lençois, os excessos da paixão,  banhos quentes em  noites de outono...
    Então, alguémque a gente conhece, ou não, um dia abre o pote e nossa solidão toda invade suas narinas...
    Então há comunicação. Mesmo se a gente já tiver morrido.

    Queria ganhar muito dinheiro mesmo  escrevendo roteiros para as novelas da Rede Globo, porque seria só mais uma trabalho e nada teria a ver com a poesia.
    Mas não sei escrever histórias. Só remoer as minhas...

       Há um tempo abri um pote de vidro desses bem perfumados.Lá dentro encontrei poemas que venho traduzindo e postando aqui neste blog. No post anterior há três deles: Melodia, O vendo das ruas e Ovelha perdida. Todos de Anne-Marie-de-Backer, poeta Belga ( não é francesa, descobri recentemente), nascida em 1908 e falecida em 1987. Os poemas já postados e os que ainda serão fazem parte da obra Le vent des rues, primeiro livro de Backer, o qual é composto por 15 poemas.      
    Todos serão traduzidos e disponibilizados aos poucos.

Vamos a eles.. Depois divago mais sobre a sensação de traduzi-los nestes belos dias de ventos outonais...

Migrações
 Existe tão belo país, existe,
 De tão doces florestas e hálito de anêmonas;
 E olhares felizes que evocam suas tristezas,
E, por vezes, palavras ternas, esmolas.
 Há navios que singram para ilhas
Onde os mais negros pássaros têm ouro sobre as asas.
Guardiã cega de tesouros inúteis,
Há caminhos onde a vida é real.
 A Rainha do Oriente dorme sob as próprias ataduras,
O Amor dorme com ela na outra extremidade da terra.
 Quem vai te perdoar por ser quem você é,
 e por errar ao vento das praias solitárias?
Quem vai te perdoar por ser quem você é,
Meus olhos, que você fechou às claridades excruciantes,
E você Sonho ruim, que assusta e que inquieta
A razão, sem piedade para com o segredo dos amantes?
 Quem vai me perdoar quando eu estiver cansada,
Desta jornada febril, onde costumo abandonar tudo o que amo,
Sem nunca encontrar o sol ou as distâncias;
Desta jornada febril, onde eu giro em tono de mim mesma?
Recomeço
Cabelos- de-vênus cor de malva em meio ao trigo,
Nosso luto docemente se prolonga.
Todas as flores que já conversaram comigo
Não me disseram nada além de mentiras
 Permaneci fria e serena
Submersa em uma vida onde nada é seguro
Nem a água que se bebe, nem a memória
Daqueles que amamos, nem o azul ultramarino.
 Preparei meu último adeus,
Pois é preciso que se lembre de nós
Neste salão de cortinas azuis
Embaladas por valsas antigas
 Como um réquiem para aqueles que morreram
 E que nunca mais serão vistos novamente
 O vento atirava contra a minha porta
 Neve e folhas negras
 Mas em um casto caminho aberto entre o trigo,
A luz encontrou meus sonhos
Todas as flores que já conversaram comigo
Não me disseram nada além de mentiras
 A canção silenciosa das flores vivas
 Ressuscita em mim a vontade
De experimentar a mudança das estações
E o traiçoeiro resplendor dos meses
 E tudo começa outra vez, eu sempre soube.
Que meu universo se recolha
 E a virgem negra recebeu
 Minha fronte abatida contra seu vestido
 Sabedoria, quando eu a agradeço
 Pela movimentação de meus dedos gelados
Essa cândida hipocrisia
Que me liberta do passado
 Ela vê o meu amor, maior
Que o silêncio e a música
 E espreita, com seus olhos enigmáticos
Meu coração, que se protege.

                         
Resignação
 Eu não sei onde eu vou te encontrar. Sem dúvida
 Dentro do quarto, selado com cortinas rendadas.
E você verá chegar do fundo das estradas
Peregrinos sem rumo, e suas vestes escuras.
 Eu não sei onde eu vou te encontrar. Respigador
À beira do trigo cortado onde eu estaria sentada,
 Ou talvez parecido com a Esperança feliz,
Apanhadora de lírios, apanhadora de cerejas.
 Você mantém meu rosto imóvel e minha alma também,
 Longe destes oceanos onde nossos desejos estão escondidos,
Com sua voz sagaz você me faria ter medo
Das florestas, das ondas pesadas e das flores ​​sem estrelas.
Eu teria medo das canções que dançam nas estradas,
E revelam segredos, como fazem os Ciganos
 Canções que imploram para que as escutemos
Ao bater delicadamente nas portas dos aldeões
  Mas há canções pelas quais eu poderia morrer:
Elas vêm dentro da noite deslizar sobre minha face,
Ou como os pássaros voam para fora da janela
Atravessando os perfumes que as tílias agitam
E que nada trazem, mas parecem tudo prometer.

                                                                     Anne-Marie-de-Backer


                                                                                       





5 comentários:

Nerito disse...

Oi Si, adorei sua definição sobre vier de literatura. Suas palavras refletem a sinergia que vai além de nossas conversas.

Você sabe que eu adoro suas histórias. E também acho que sua sensibilidade, sua maneira de lidar com a linguagem, mais bacana que qualquer história. Beijo.

Cíntia Almeida disse...

Nossa. Que metáfora mais linda. Potes de vidro, vidrinhos de perfume, coisinhas vividas. Muito sensível. Agora vou ler os poemas da Anne.

Cíntia Almeida disse...

Nossa. Que metáfora mais linda. Potes de vidro, vidrinhos de perfume, coisinhas vividas. Muito sensível. Agora vou ler os poemas da Anne.

Dora Delano disse...

a maioria das formas de se expressar da arte são hobbies, mesmo dos mais talentosos [e eu acho vc talentosa, você sabe, né?], para sobreviver, temos que ser peões. Triste fato.

Teixeira disse...

É aquilo que nós conversamos em nosso último almoço: acho que deveríamos procurar cristalizar as coisas com papel. Não é viver de literatura. Não é abaixar a cabeça pros PNBEs ou pro mercado dos vampiros e detetives.
É o se ver e se entender a partir da posição de "autor de livro". Você é poetisa sapatão, publicando ou não publicando. Então é o convite é "vamos publicar!" "Vamos ser autores de livros!"
Pode ser que não faça diferença, mas pode ser que faça alguma.
E eu sou uma puta ressentida com o fato de que nunca serei TNS-Literatura...