sábado, março 10, 2012

Ver e ver sobre a terra


I

Tenho um leve defeito perceptivo: meus olhos não sabem distinguir algumas cores das outras.
E, por isso, cenas como as seguintes são constantes em minha vida: Eu estou na cozinha, preparando drinks e tira-gostos. Raquel sai do banho e caminha rumo ao quarto. Deseja uma roupa leve para se vestir e pergunta:

- Meu bem, onde está aquela camiseta azul fresquinha que um dia eu te dei de presente de aniversário?
Tento decifrar o que ela diz, pois sua voz doce chega a mim misturada à diarreia musical da vizinhança.Respondo:

-Que camiseta azul? Eu não tenho nenhuma camiseta azul.
- Tem sim. Fui eu que te dei. Ela já tá velhinha.
-Não sei do que você está falando...
 Dizendo isso abandono meu trabalho de “barwoman”, e sigo para o quarto, a fim de evitar mais catástrofes em minhas gavetas.
Raquel me dá mais uma pista:
-É uma camiseta onde está escrito “I Love Summer days”.
-Ah!- Eu grito eurekamente.- Agora sei... É aquela camiseta roxa que você meu deu de aniversário e que de tão velhinha já virou pijaminha.
- Si! Ficou doida? A camiseta é azul.
- Não, amor. É roxa.
-Azul!
-Roxa.
-Azul!
-Roxa.
Então a discussão se transforma numa verdadeira guerra. Saio a procura de tecidos genuinamente azuis para mostrar para ela que eles não se parecem em nada com o que ela julga ser azul. Ela faz o mesmo com os tecidos roxos.
E a batalha sempre termina sem vencedores.
Outra cena:
Estou com meu carro estacionado atrás de um outro, de cor azul. Ligo para Raquel e digo:
- Anjo, estou perto do Shopping, estacionada atrás de um uno azul, tá?
Ela nem se despede. Desliga na minha cara e devo entender isso como um já estou indo.
Enfim, ela chega. Entra no carro, logo depois das trezentas sacolas e ao mesmo tempo em que as quinhentas reclamações. E, mais uma vez, meu problema com cores é evocado. Ela diz:
-Nossa, Si, ainda bem que teve a referência do shopping, porque esse uno aí da frente é verde.
Indignada, vocifero:
- Ficou doida, Raquel?! É claro que ele é azul.
-verde.
-Azul!
-Verde.
-Azul!
-Cala a boca, Si. É verde.
Então recito, pra mim mesma, atabalhoadamente aquele versinho do Gullar:
Mundo azul, céu azul, seu cu.
E a briga, que podia perfeitamente terminar aí, ainda é temperada com uma fina ironia de Raquel, que diz:
-Puxa, ainda bem que você escreve. Porque se pintasse estaria perdida.
 Para tentar resolver esse nosso impasse conjugal, um dia pedi uma terceira opinião. Depois uma quarta e até apelei para a quinta.  E o pior é que todos concordavam com Raquel. 

E dessa maneira, fui obrigada a aceitar que para mim o mundo foi mesmo colorido de um jeito diferente.

II

Faz quase dois anos que conheço Wander. Foi no trabalho: eu estava lendo e-mails, distraidamente, quando ele entrou em nossa sala, explorando o espaço com sua bengala. A chefa, que o acompanhava, fez as devidas apresentações. E foi assim que ficamos sabendo que nosso novo bibliotecário era cego de nascença.
Eu, que já tinha visto tantos cegos por aí (todos dançando aquela tão conhecida coreografia da varinha mágica...) nunca havia pensado seriamente sobre como é uma vida toda vivida na escuridão...
E ali estava o Wander ( que nunca tinha visto nem coisas belas, nem a parte feia do mundo) para me contar como era.
-Com o que você sonha?- Perguntei à queima roupa.
Ele, que exalava doçura, me disse que sonhava com sensações: calor, cheiros, sons, gostos, movimentos...
-Que gostoso! Imagine só, eu sonhando com o cheiro dos cabelos de alguém que adoro, ou com o gosto da pele dessa mesma pessoa e com a elevação de minhas temperaturas corporais, provocada por essas lembranças oníricas todas! Ou então, sonhar com uma melodia e acordar chorando de tanta beleza... Sem dúvida, amigo, isso deve ser melhor do que sonhar com imagens...
Esta foi apenas minha primeira conversa com Wander.
 Em outras ele me contou que tem um “nariz” inacreditável. E tinha mesmo. Sabia de cor todos os meus perfumes e xampus, e cremes de cabelo e hidratantes.
Contou-me também que gosta de fazer amor com os dedos, que sabe em qual ponto de ônibus descer porque sente as curvas, subidas e descidas.
Sou assim também. Costumo dizer que meu olfato é responsável por muitas das minhas melhores sensações nesta vida e por grande maioria das piores também. Cheiros de livros, de folhas de árvores, de mulher, de bebidas, de roupas, de comidas. E o cheiro da morte.
Não há dúvida que cheiro de carne podre incomoda a toda gente. Mas será que ele provoca em todos que o detestam esse terrível sentimento de absurdo que provoca em mim, que sempre provocou?

Um dia desses, era verão, eu estava lavando roupa. Minha máquina de lavar fica na varanda, no extremo oposto em relação à porta da cozinha. Como a porta da sala não tem chave, eu tenho que passar pela da cozinha mesmo e atravessar toda a varanda para chegar até a máquina. Numa dessas idas e vindas, fui surpreendida por um odor nada agradável, que vinha não sei de onde. “Isso é cheiro de morte”, pensei. “Cheiro de morte velha”, como diria o Rosa. De onde estaria vindo? Fazia sol forte.
Seria um rato? (Não sei por que, mas toda vez que percebo que há carne se decompondo por perto, é em ratos que penso). E o pior é que cada vez que eu fazia o percurso, a coisa fedia mais. Enquanto há carne, o tempo é implacável.
 Instigada, pedi ao meu vizinho da frente para, de onde ele estava, verificar se havia alguma coisa morta em cima do telhado de minha casa. Diante da resposta afirmativa, meu estômago se contorceu. “Um rato morto apodrecendo irá estragar o meu sábado, porque vou ter que dar um jeito de tirar ele de lá”. Pensei.
-É um pombo- Disse o vizinho. E continuou,  solidário:- se quiser eu te ajudo a tirar ele daí
Então traçamos nosso plano: ele iria subir num banquinho e afastar uma telha próxima ao pombo. Em seguida o alcançaria com as mãos (protegidas com luvas de limpeza doméstica).
           Minha parte no plano: ficar esperando, com um saco plástico aberto, onde o corpo seria depositado.
         Tudo foi feito. Tudo deu certo. O bicho morto foi retirado do meu telhado. Mas, de fato, o acontecimento acabou com meu sábado e  com meu almoço (que seria pura suculência de churrascos). E fiquei o dia todo pensando que morrer só é terrível por causa da violência com que nossas carnes são destruídas. E, se tem que acabar mesmo, e já que tem que acabar desse jeito, podia, pelo menos, ter um cheiro melhor.
Como o meu amigo Wander, também sonho com cheiros. No entanto, esses sonhos quase nunca são delícias. São verdadeiros pesadelos que costumam misturar imagens aterrorizantes com cheiros indesejáveis.  Na última vez, sonhei com uma mulher morta, que tinha se levantado do túmulo, e que era rejeitada por todo mundo. Somente eu conversava com ela, e por isso, ela não me dava sossego. A situação foi ficando cada vez mais infernal e incontrolável. A defunta era carente demais. Ela não estava se decompondo, estava até inteirinha, mas era horrível saber que ela já tinha morrido. Seu hálito exalava um nauseabundo cheiro de podridão, o que me fazia falar sem parar, enquanto conversávamos, para que ela ficasse o máximo de tempo de boca fechada, apenas me ouvindo. Confesso que era uma tortura ficar tagarelando, pra que meu nariz não me fizesse sofrer tanto. Graças a deus, depois de passar muito aperto, eu acordei, na minha cama querida, sem nenhuma morta- viva grudenta do meu lado.
E havia também os inquietantes sonhos com meu pai morto.
Meu pobre pai morreu de tanto beber cachaça. Sofreu não sei mais quantos acidentes vasculares cerebrais, e ficou dois anos maluco, gritando, como se estivesse tendo visões do inferno e , quando ainda podia se arrastar pelado pela casa, urinava como um cão, em cada canto por onde passava.   Depois, parou de andar, e foi ficando com o olhar cada vez mais distante. Mas só parou de gritar mesmo quando morreu. Nesse dia, eu recebi um telefonema do hospital, para onde segui, com o coração corroído por uma tristeza específica, aquela que apenas os finais provocam. O dia foi cheio. Depois do hospital, tive de ir ao cartório dar, oficialmente, baixa na existência do velho. E para finalizar as burocracias da morte daquela tarde, que parecia nunca acabar, fui à funerária, cujo funcionário que me atendeu, responsabilizo por todos os pesadelos que tive dali em diante, com a decomposição da carne paterna.
O agente das trevas, ou, como “carinhosamente” passei a chamá-lo, o Funerário, me disse
-O plano de seu pai cobre: esquife, coroa de flores e aluguel do túmulo.
-Sei... - respondi, olhando para um jarro de flores artificiais que estavam sobre a mesa.
-O seu pai faleceu às 13horas, e de acordo com as informações que foram repassadas a mim pela senhora, ele será sepultado amanhã, às 10h.
-Sim. É isso mesmo.
-Bem, como já informei, o plano do seu pai cobre: esquife, coroa de flores e aluguel do túmulo. Como o corpo ficará muito tempo sendo velado, recomendo que a senhora autorize que façamos nele um tratamento especial para situações desse tipo. Estamos com preços promocionais. Apenas R$399,99 para garantir à senhora e a todos os seus familiares um sepultamento tranquilo, sem grandes surpresas.
-Surpresas? – Perguntei, preocupada
-Sim... O corpo ficará muito tempo sendo velado. Pode expelir líquido ou cheiros desagradáveis. Recomendo que...
Como tive ódio daquele urubu!
-Não vou pagar nada... Se algo estranho acontecer, eu fecho o caixão.
-Mas, senhora...
-E eu não sou uma senhora!
Saí de lá com o espírito retalhado. Fui para casa, tomei banho, devorei um lanche, sem vontade e fui para o cemitério.
O corpo chegou meia-noite, em ponto.
Minha madrugada foi esquisita: fiquei, numa parte dela, olhando para meu pai defunto, achando ele tão bonito e sereno, como se seu inferno tivesse sido todo engolido por um mar inteiro. Numa outra parte, fiquei caminhando sobre lápides, que estavam espalhadas por todo o campo gramado, salpicado de orvalho. Teve ainda uma parte (a madrugada foi mesmo muito longa...) em que me reuni com velhos amigos, para contar e ouvir histórias de terror que tinham como cenários cemitérios feios e sujos depois de meia-noite. E houve momentos que se repetiram a noite toda: o choro hipócrita de algumas primas e tias, que me tratavam como o Meursault de Camus. E o  colo de minha mãe, ao qual recorri várias vezes.
E minha angústia, por causa dos líquidos e cheiros que podiam de repente...
Amanheceu. As flores já cheiravam a morte fresca, o sol, doente dos nervos, não admitiria que no funeral de meu pai uma chuva apaziguadora e lírica tornasse minha dor menos atroz.
Enfim, o caixão foi levado para uma das quadras, onde a terra abria sua boca vermelha e esfomeada.
Minhas primas e tias tiveram um chilique de última hora, e queriam que o caixão fosse aberto mais uma vez. Eu, fria como um iceberg, não autorizei a abertura.
-Enterra logo- Foi o que eu disse.
A “surpresa” prometida pelo Funerário ainda me inquietava. Eu só queria que aquela tortura acabasse logo.
Depois, o retorno para a casa, onde a lacuna de um quarto vazio tornou-se a dama cruel dos meus dias seguintes. E havia aquela porta, que rangia nas noites de vento, e subitamente me revelava, num susto, a escuridão daquele espaço que a morte tornara sagrado.
Então, começaram os pesadelos.
Num deles havia uma caixa de madeira, destas que são usadas para transportar legumes. Ela estava entreaberta. Moscas a assediavam. O corpo de meu pai estava lá dentro, claro. Fedendo a noite inteira no meu nariz miserável.
 Sobressalto e gritos ao despertar.
Outro sonho hediondo: o velho morreu, mas voltou do mundo dos mortos. E não está nada sereno: é novamente aquele cachorro raivoso, que uiva como um demônio e urina em tudo que vê.  Está exalando os odores dos subterrâneos dos cemitérios. Minha mãe, pobre Antígona desesperada, sofre mais que a heroína grega, porque o seu Polinices, além de estar insepulto, caminha e é horrível. Então, eis que surge, numa esquina cinzenta, um caminhão, daqueles que transportam ossos de animais que foram abatidos para abastecer os açougues, e enriquecer com proteína o prato nosso de cada dia. Minha mãe cria, então, uma estratégia:
_Vamos colocá-lo junto aos ossos, assim ninguém sentirá o cheiro.
Minha parte do plano: parar o caminhão, de modo que desse tempo de nosso querido zumbi ser depositado na carroceria. E depois, sabe-se lá como, eu deveria dar um jeito de fazer com que o motorista seguisse o caminho do cemitério. O sonho termina aí, com meus argumentos persuasivos, direcionados ao dono do caminhão, homem feio e desdentado, cujo rosto, repentinamente se transforma no de meu pai.
Os pesadelos foram ficando cada vez menos recorrentes, na medida em que eu conversava com as pessoas sobre eles e, principalmente sobre meu diálogo com o Funerário, naquela tarde opressiva.
Mas, enfim, Proust tinha razão: quando alguém que amamos morre, ou vai embora porque deixou de nos amar, primeiro vem a mágoa e depois o esquecimento.
 Confesso: não sei se isso me consola ou se aumenta ainda mais o buraco que sempre existiu dentro do meu peito.
III
Nunca perguntei ao Wander se ele tem pesadelos. Para mim, só pode ter sonhos ruins quem viu coisas feias. Mas ainda vou perguntar porque tenho quase certeza de estar equivocada.
Numa manhã, depois de uma noite aterrorizante dessas que acabei de narrar, cheguei ao trabalho pensando naqueles versos ácidos de Drummond:

Depois de tantas visões
Já não vale concluir
Se é melhor deitar fora
a um tempo, os olhos e os óculos.
E se a vontade de ver
Também cabe se extinta,
Se as visões, interceptadas,
E tudo mais abolido.
Pois deixa o mundo existir!
Irredutível a um canto,
Superior à poesia,
Rola, mundo, rola, mundo,
Rola o drama, rola o corpo,
Rola o milhão de palavras
Na extrema velocidade,
Rola-me, rola meu peito,
Rola os deuses, os países,
Desintegra-te, explode, acaba!

E, nesse climão ruim todo, eu disse pro Wander:
_ Cara, tem tanta coisa feia no mundo, que eu nunca gostaria de ter visto!
Eu pensava, é claro, na boca vermelha da terra e numa caixa fúnebre envernizada, de onde a pessoa amada nem sequer podia acenar um adeus.
E ele me disse:
_ Mas e as coisas bonitas? Devem ser muitas também... Não compensam?

"Compensam sim, claro que compensam", eu pensei.  E,  na hora, fiquei com muita vergonha do meu sacrilégio.

IV
 Mesmo que azul, para mim, às vezes seja roxo ou verde, ver e ver sobre a terra... E mais que ver...
As coisas bonitas também podem ser sentidas de outras formas. Wander sabe bem disso. E eu que enxergo de um jeito estranho também sei: decorar o traçado do desenho inteiro de alguém que a gente adora. Começar de qualquer ponto. Refazê-lo com as pontas dos dedos, com movimentos leves, como se a gente o estivesse inventando...
Quantas vezes, enquanto andava de ônibus, não fechei os olhos e, em seguida, brincando de adivinhações comigo mesma, me perguntava em que trecho do trajeto estava? Subidas e descidas. Semáforos. Uma curva forte e um cheiro de águas desenganadas. Uma reta. Outra curva. E assim, de olhos fechados, eu nunca errei.
O céu era azul lá fora. Fazia sol. Eu era criança. Ao abrir os olhos eu sentia que as cores eram, para mim, mesmo que diferentes, um pedaço meio-amarago de uma mistura esquisita entre tristeza e alegria
VI
Uma vez sonhei que era um ciclope. Meu olho era um telescópio e eu podia ver a cor verdadeira das estrelas. Elas eram vermelhas quando se afastavam da terra e cor de violeta quando se aproximavam.  Meu olho podia também ver dentro de gente. E era sempre bonito ver amor começando, em violeta. E era sempre uma dor, ver o amor sufocando em vermelho. Era assim também quando alguém ia nascer: eu via a cor dentro do corpo da mãe. Era assim, quando alguém começava a morrer.
E o pior é que eu sempre sabia antes, muito antes de acontecer.