sexta-feira, maio 29, 2015

A música das águas

Maio amanheceu
Cantando
Notas de chuva
E frio.
A música das águas
Dodecafônica tempestade
Embala
Nosso sono-quadro em
Chiaroescuro,
Nosso sono quente
E de ternuras macio.
Nosso sono:
Tua respiração
Em minha face.

Entulho

Tenho voz aveludada,
Dizem,
Mas 
No estômago, eles não sabem,
Toneladas de entulho
Na garganta, aspereza e
Cacos de vidro.
Se sangro pouco
Quando falo
Ou se há um canto em vez de um grito
É questão de alquimia
É porque sou macumbeira, minha filha.

Essa lua, esse conhaque

A infância talvez fosse azul
não houvesse tanta barata.
Não houvesse
barriga vazia
as tardes talvez
fossem.
A fome é
alucinógeno natural.
O inferno
indo e
vindo,
criança desnutrida na gangorra
do parquinho
infestado de pedófilos.
Não houvesse tanta miséria
a infância
talvez
fosse.

Com licença, com licença poética

Tenho apenas minhas mãos
e um tesão maior que o mundo
A vontade de amor
sempre me paralisou o trabalho
Sou anjo esbelto e safado
Solidão me come por dentro
diariamente
Tenho minhas mãos
Sou mulher desdobrável
Eu sou.

Diva, macumbeira


I
No centro de macumba
a mãe
caminhava no círculo em brasa.
Os santos desciam
para girar com ela.
Foi assim que aprendi
a dançar no fogo.
Além disso
a Avó Preta
do céu de Olorum
olha por mim
Rainha Louca
cantando no meio da roça
distante de uma história paterna.
II
Também sou Rainha de mim.
Tenho um teto todo meu.
Paguei o automóvel
em sessenta prestações.
Foi ninguém que me deu.
Homem nenhum me tem.
Sou de outra mulher
que é Rainha também.
Ando pela casa,
sem roupa
e no Divã meu deito
lendo Anna Akhmátova.

Para quem tropeça

Mais um poema se perdeu
quando eu descia
com a pressa habitual
as escadas sujas do metrô.

Como de costume
foram abertas todas
as portas dos vagões.

Nesta manhã
mais uma vez
pessoas colidem
como baratas envenenadas.

Para que tanto ombro, meu Deus?
Pergunta meu coração
com a voz vacilante
de um convalescente.

Me sento numa cadeira verde
recolhendo junto ao peito
uma imensa asa ferida.

Lá fora faz sol.
Mas a paisagem é sempre
meio cinza
para quem tropeça
nas próprias ataduras.

Muitos carnavais

A pele
Não faz ruído
Quando enruga,
Meu amor.
O tempo borda em silêncio
Em cada face
Um mapa de morte.
Em cada rosto
Marcado
Foi esculpido
À navalha
Um mapa de dor.

Domingo

Ela me diz
que estou tão triste
porque viu
em cada olho meu
uma antiga umidade.

Revisito velhos discos.
Há canções que ecoam
sempre que a morte atravessa o jardim.

Minha tristeza
é de quem acaba
de voltar de um funeral.

Com a mão direita
seguro uma estrela partida.
Seus estilhaços se afundam
em minha carne.

( de que vale um punho fechado quando está sangrando?)
Na mão esquerda
trago uma rosa morta.
A escuridão de seu corpo
avança para o meu coração.

Inércia

Inércia 
é também
movimento infinito
Voar para sempre
retilínea
uniforme
ou até que
um corpo me ampare
ou até
que me arrebente a parede.
Ação, reação
e uma sinfonia
para o amor mais destrutivo.
Um lamento
e um blue
para o potencial
explosivo de todo amor
que começa com metáforas.

Poeminha safadinho

Para 
saciar
saudade
siririca
sem-vergonha.
Fabulosa felina
arranha o caos
engole a lua
e sonha.

Alparazolam

Meu coração
é uma cripta.
Aqui não chegarão
vozes de aquém.
Silêncio é luxo
só gente morta tem.

Meu coração
é um bunker.
As bombas
ficaram do lado
de fora,

Para dor no peito
nitroglicerina.
Para dilacerar-se
em espetacular explosão
idem.

Ambiguidade sulfúrica
Disfarçada
com a cor
e a textura
do mel.

Mas meu coração é uma cripta.
O amor ficou
do lado
de fora.
Pronunciei
meu nome
para o grande espelho
da sala de espera.
O Som
retornou em eco
Como se eu estivesse
à beira do vazio

Esperar Saturno

Enquanto esperava Saturno
Colei mil vezes meu coração
A Solidão hospedada em meu útero

Enquanto esperava Saturno
Colhia amoras
nos intervalos da dores

Enquanto esperava Saturno
Decorei a Primeira Elegia
A Solidão alargando os espaços
por dentro
A Lua sangrava através do meu corpo

Esperei Saturno
com livros nas mãos:
"Tulipas são perigosas", eles sussurravam
"Flores que falam não dizem nada
além de mentiras"

Enquanto esperava Saturno
me masturbava
Colhendo Luas nos intervalos das dores
Amoras sangravam através do meu corpo

E quando Saturno voltou
Explodi, sem pesar,
meu triste museu de sarcófagos.

sexta-feira, setembro 12, 2014

Lugar

Aqui
onde foi abolido
o hímen
úmido hífen
que nos separava.

Aqui
onde a língua é dinâmica
e dedos são talheres.

Aqui
onde o grelo
destrona o falo:
É rijo
É  lindo
É talo.

Anoitecer

Tecer o amor.
Depois tecer
a dor
de o amor ter sido.

Amortecer a queda.

Amor só é suave
na subida: canção de harpa.

O inverso
é farpa.

quarta-feira, setembro 03, 2014

Fear of the dark

Aqui tão escuro. E veio um vento ventilhando pedrinhas e gravetos, arremessando-os contra a janela de madeira. Ainda é madrugada, falta muito pra amanhecer?
Agarrada à saia do vento veio a chuva, chufininha, umedecendo. Se eu fosse raiz fincada em solo fértil brotaria como brotou aquele pé-de-mamão num túmulo do cemitério de Justinópolis. Os frutos nasciam aos pares, sempre. Pendiam como os tristes testículos de um deus. Pendiam, como os peitos caídos da terceira idade.
Testículos e peitos que os coveiros comiam.

Uma anedota

Dizem que um morto enterrado no cemitério de Justinópolis foi condenado por algum ser inefável a continuar enxergando para sempre. Por isso de seu túmulo feioso nasceu uma robusta jabuticabeira. Cada Jabuticaba, pasmem, era um olho.
Ai que medo.
A rotina do cemitério era aquela pasmaceira, nem um pouco interessante de  ver: abre buraco, fecha buraco; entra cortejo, padre rezando, dentadura escapando.
Assim, assim.
Ai meu deus.

Numa manhã esquizofônica em que bem-te-vis cantavam nos intervalos dos ruídos de uma britadeira, um casal depositava flores no túmulo vizinho do condenado, enquanto tentavam, a seu modo, se comunicar com a morta recente e querida.
O defunto dos mil olhos de jabuticaba morria ( ha!) de inveja de situações desse tipo. Ninguém o visitava, coitado. Não era digno de rosas. Teve vontade de gritar: “Também quero uma flor!”.
Mas fora condenado a ter olhos e não bocas.
O casal se sentiu observado.
Ai que medo.
Ai meu deus.

Vez em quando um coveiro ia até a frondosa árvore carregada de frutinhas brilhantes, arrancava um punhado delas e chupava, com gosto.
O defunto morria (ops!) de ódio.
“Vá chupar o olho do  cu da vó”
Queria gritar.
Mas fora condenado a ter olhos e não bocas.

Um pô, Emma! em homenagem a anedota que inventei:

Aqui jaz.
Aqui, jamais.
Aqui
apenas
jabuticarás.

Bruce Dickinson e Emily Dickinson não eram casados, oh meu sonho. Eles nasceram em séculos diferentes oh, meu cérebro. Além do que ela era tão branca voz da solidão e ele tão fear of the dark.

Fear of the dark!

Fear of the dark!

Dá certo não.

       Já vai amanhecer?
            Sei não.
O vento continua arremessando na janela os destroços das coisas.
E eu aqui.

Louquinha, louquinha de pedra lascada.

segunda-feira, agosto 18, 2014

O que o lixo me deu


Eu era Criança-Menina
Um Pássaro Sujo 
e com fome

E o lixo me deu
certa vez
um saco repleto de livros;
uns bonecos tristes e mutilados
e um caderno velho de poemas

que eu lia pros gatos;
que eu lia pra lua
que eu lia na rua
quando lá não havia ninguém.

E o lixo me deu outras coisas:
porque lá atiravam
pneus em chamas
então o lixo me deu minha primeira queimadura;

porque lá atiravam cacos de vidro
então o lixo me deu meus primeiros ferimentos;

porque lá atiravam animais que morriam
então o lixo me deu o cheiro podre
do corpo sem alma.

O lixo me deu
certa vez
uma caixa com muitas memórias dos outros:
cartões com figuras em alto-relevo
que guardavam mensagens de desejos de felicidades eternas;
cartas para um amor distante;
pequenas anotações ordinárias;
fotografias em sépia.

O lixo meu deu
misturada a cor amarela daqueles papéis
uma miséria que era maior que a miséria
que eu tinha,
e eu senti com força
a força de toda saudade do que não existia
e um gosto
de tempo
de resto
e ruína.

Eu era uma Criança-Menina.
Eu era a Menina Encardida
que ninguém queria amar.

Eu lia poemas pros gatos;
eu lia poemas pra lua;
eu lia poemas na rua
quando lá não havia
ninguém.

quinta-feira, agosto 14, 2014

Refrão para um blue



Sonhei que tinha perdido uma caixinha vermelha, com algo valioso dentro.
A pessoa que eu mais amava no mundo brigou comigo e, em seguida, me deixou.
A caixinha vermelha com algo valioso dentro não era aquela que guarda minha gaita.
A caixinha vermelha era meu coração.

Refrão para uma manhã chuvosa

Amor que grita
e ninguém escuta

Amor que abre
a ferida oculta

Amor que morre
e ninguém sepulta

quarta-feira, julho 30, 2014

Balada para uma estrela partida


Se uma estrela se partisse
em minhas mãos,

cortariam os meus dedos
seus pedaços?

Estilhaços são estilhaços...

E se a lua arrebentar
há dor também

Como toda dor
fincada em cacos:

1- do copo
que continha o leite derramado;

2-do anel que tu me deste
( o que era vidro)

3- do amor que tu mentias.