quarta-feira, setembro 03, 2014

Fear of the dark

Aqui tão escuro. E veio um vento ventilhando pedrinhas e gravetos, arremessando-os contra a janela de madeira. Ainda é madrugada, falta muito pra amanhecer?
Agarrada à saia do vento veio a chuva, chufininha, umedecendo. Se eu fosse raiz fincada em solo fértil brotaria como brotou aquele pé-de-mamão num túmulo do cemitério de Justinópolis. Os frutos nasciam aos pares, sempre. Pendiam como os tristes testículos de um deus. Pendiam, como os peitos caídos da terceira idade.
Testículos e peitos que os coveiros comiam.

Uma anedota

Dizem que um morto enterrado no cemitério de Justinópolis foi condenado por algum ser inefável a continuar enxergando para sempre. Por isso de seu túmulo feioso nasceu uma robusta jabuticabeira. Cada Jabuticaba, pasmem, era um olho.
Ai que medo.
A rotina do cemitério era aquela pasmaceira, nem um pouco interessante de  ver: abre buraco, fecha buraco; entra cortejo, padre rezando, dentadura escapando.
Assim, assim.
Ai meu deus.

Numa manhã esquizofônica em que bem-te-vis cantavam nos intervalos dos ruídos de uma britadeira, um casal depositava flores no túmulo vizinho do condenado, enquanto tentavam, a seu modo, se comunicar com a morta recente e querida.
O defunto dos mil olhos de jabuticaba morria ( ha!) de inveja de situações desse tipo. Ninguém o visitava, coitado. Não era digno de rosas. Teve vontade de gritar: “Também quero uma flor!”.
Mas fora condenado a ter olhos e não bocas.
O casal se sentiu observado.
Ai que medo.
Ai meu deus.

Vez em quando um coveiro ia até a frondosa árvore carregada de frutinhas brilhantes, arrancava um punhado delas e chupava, com gosto.
O defunto morria (ops!) de ódio.
“Vá chupar o olho do  cu da vó”
Queria gritar.
Mas fora condenado a ter olhos e não bocas.

Um pô, Emma! em homenagem a anedota que inventei:

Aqui jaz.
Aqui, jamais.
Aqui
apenas
jabuticarás.

Bruce Dickinson e Emily Dickinson não eram casados, oh meu sonho. Eles nasceram em séculos diferentes oh, meu cérebro. Além do que ela era tão branca voz da solidão e ele tão fear of the dark.

Fear of the dark!

Fear of the dark!

Dá certo não.

       Já vai amanhecer?
            Sei não.
O vento continua arremessando na janela os destroços das coisas.
E eu aqui.

Louquinha, louquinha de pedra lascada.

Um comentário:

Laércio José Pereira disse...

Fiquei pensando em qual planta caberia a metáfora para a condenação a ter muitas bocas, e não olhos. Muito legal!