segunda-feira, setembro 05, 2011

O monstro do armário IV


Marina e Cláudia estavam paradas diante da porta vermelho-sangue da sala que procuravam. Olhavam para o número 15 pintado com tinta preta, que já começava a desbotar.
 __ É aqui__ Disse Marina. O corredor estaria deserto se as duas não estivessem ali.
__ Este lugar é meio assustador. Melhor a gente ir andando... __ Disse Claudia, fingindo estar com medo.
__ Então, o que estamos esperando? __ Disse Marina, já fazendo o caminho inverso que tinham percorrido até chegar à sala quinze. Claudia fez o mesmo.
__ É impressão minha, ou você tem um leve sotaque? Tão leve que não consigo identificar de onde... __ Perguntou Marina.
Claudia respondeu sorrindo:
___ Sim, tenho um leve, muito leve sotaque. Eu morava do México, desde os primeiros meses de vida.
Marina estava admirada:
__Puxa, mas seu Português é perfeito!
Marina se explicou:
___Ah, sim... Isso porque minha mãe é daqui.  Em casa só falávamos Português. Ela sempre teve medo de esquecer a língua de seu país. Meu avô, pai dela é que é mexicano. Ele e minha avó viveram aqui durante muitos anos e aqui criaram minha mãe. Depois voltaram para o México. Minha mãe  ficou, e depois que engravidou de mim, resolveu ir para lá também.
Marina ouvia tudo atenta.
___ E seu pai? __ Arriscou perguntar, sem saber se deveria.
___ Meu pai sempre morou aqui. Estou na casa dele agora. Minha mãe estava muito chata, pegando demais no meu pé, então eu disse que queria vir pra cá. Ela não gostou da idéia, mas eu fiz muitas chantagens, tipo ficar sem comer, e comecei a me recusar a ir à escola também. No fim das contas, acho que ela concluiu que me mandar pra cá seria um alívio. E aqui estou.
Marina prestava atenção em cada palavra dita por Claudia. Enquanto isso olhava para seu rosto, comovida. Ela era sem dúvida, a garota mais bonita que já vira em toda a sua vida.
___ Você se jogaria de um penhasco por causa de um homem? __ A pergunta de Claudia atingiu Marina, que estava desprevenida, em cheio, como se um tijolo misterioso houvesse se esfarelado sobre sua cabeça, numa rua sem construções em andamento.  Ficou tonta novamente, e sua pele branca, quase transparente, ficou da cor da porta da sala 15. Respondeu gaguejando, diante do olhar fixo de Claudia:

__ Não! Quer dizer... Não sei, ou melhor... Acho que eu não me jogaria de um penhasco por ninguém. Você pularia?
__ Não, não... Detesto drama. Mas eu acho que pular por causa de um homem é burrice demais. Só isso.
Marina não teve coragem de perguntar qual era o problema que Claudia tinha com os homens. Chegou até a pensar que talvez ela fosse como sua falecida mãe: uma ativista feminista, que um dia usaria um homem só para engravidar, e depois o jogaria no lixo, como se ele fosse uma máquina de lavar estragada.
Elas já se encontravam próximas às grades dos portões eletrificados da escola secundária. Marina só percebeu que o tempo havia passado mais rápido do que sempre porque seu estômago roncou.

__ Bom, preciso ir. Tô morta de fome. __ Disse Marina. __ É bem provável que a gente se encontre amanhã, afinal, sua sala é do lado da minha.
As duas se abraçaram e se beijaram fraternalmente.
Claudia disse:
__ É, vai ser foda estar aqui às sete da manhã... No México a vida só começa depois da nove. Se não fosse o chato do meu pai eu não teria vindo hoje. Esse horário absurdo só pode ser coisa de padre. Não é possível!__ Disse sorrindo o sorriso mais lindo do mundo.
Marina ouviu aquele comentário com prazer.
Claudia já se afastava, olhando ainda para Marina, que permanecia de pé, encostada no portão da escola.
__ O que está desenhado?__ Marina perguntou com voz forte, para se fazer ouvir, já que a amiga já estava um pouco distante.
__ Desenhado onde? Claudia respondeu.
__ A tatuagem nas suas costas...
__Ah, ta. É uma loba.
__ Nossa, que agressivo! Marina sorria irônica.
__Nada... Ela é mansinha. Em vez de sangue, gosta de mel.

Ao dizer isso, acenou mais uma vez para Marina e parou de andar de costas, como vinha fazendo desde que havia sido questionada sobre a tatuagem.

Marina a viu desaparecer na esquina nublada. Ficou se lamentando por não ter tido a oportunidade de ver sua tatuagem e ficou imaginando como seria o desenho de uma loba viciada em mel. No dia seguinte pediria para ver. Sem querer, acabou se lembrando do garoto comedor de meleca que vira pela manhã desenhando pintos sob medida, para todos os gostos.
 Uma gota grossa de chuva caiu sobre seu nariz. As outras vieram juntas e fortes acompanhadas de um vento nervoso.
Marina correu sob a tempestade.

Ao chegar a casa foi saudada pelos latidinhos frenéticos e felizes de Hamlet. Como manifestação de carinho recebeu também um par de patas de cachorro, desenhadas com lama em seu uniforme encharcado.
Uma canção triste de violino ecoava. Por um momento, houve pausa na música, seguida do som da voz paterna:
__ Marina, você demorou hoje.
__Estive conversando com uma nova amiga__. Ela se explicou.
__ Seu almoço está na geladeira__ele disse, sem sair do quarto, e continuou sua canção.

Depois de tomar um banho bem quente, colocar roupas confortáveis e secas, Marina tentou almoçar, mas só então percebeu que havia perdido a fome. Comeu pouco e seguiu para seu quarto.
Ficou irritada com a presença de Hamlet que estava lá, deixando poças de lama por onde passava. Expulsou o cachorro do quarto a chineladas e palavrões. Deitou-se. Estava péssima. Sentia-se sozinha, seu cachorro havia emporcalhado tudo, estava com sono, não parava de pensar em Claudia. Vontade imensa de chorar. Ouviu ruídos estranhos vindos do armário. Detestava abrir aquela porta, porque tinha medo de encontrar lá o monstro das lendas infantis. Sabia que era bobagem, mas tinha medo. E medo é medo. Caminhou até o armário que ás vezes parecia um sarcófago. Abriu uma de suas portas. Duas baratas escandalosas copulavam no escuro. Ao serem surpreendidas, ficaram olhando para Marina por instantes, com cara de quem é pego no flagra fazendo coisa errada. Mas antes que Marina tivesse qualquer tipo de reação, as baratas abriram suas asas de seda cor de ferrugem e voaram pela janela. Marina correu para a cama, se masturbou pensando em Claudia, chorou e dormiu como uma pedra triste. A porta do armário estava aberta.


sexta-feira, agosto 12, 2011

O nascimento da tragédia no espírito da infância

I

Meus olhos percorriam um e-mail saturado de formalidades e se perdiam, hipnotizados pelos mega pixels da tela do computador, quando uma voz, cheia de doçura, de súbito, me pediu:
__ Moça, pega o Harry Potter pra mim?
Olhei para a menina parada a minha frente. Ela devia ter uns dez anos. Cabelos de caracol, olhos noturnos e tão magra, que flutuaria pelos ares, se o vento estivesse nervoso. “Mas essa sou há vinte anos”, pensei. A única diferença é que ela é rica e eu, na idade dela, era apenas um pássaro sujo, se alimentando de restos.
Rica, sim. Mora no prédio milionário que fica do outro lado da rua. Não obstante a fragilidade de suas formas dava para perceber que era uma menina bem alimentada. E a criança faminta que fui outrora se contorceu de inveja.
__ Você pega, moça? O Harry Potter? Tá muito alto, a estante é muito grandona.
__ Claro que pego!__respondi.__ Vamos lá!
Caminhamos juntas até a estante. A menina estava ansiosa e olhava para os livros com desejo. Perguntei:
__ Qual deles você quer?
__Todos__ Ela respondeu, gulosa.
Com um abraço, retirei a coleção de onde ela estava. Depositei os livros numa mesa, em direção a qual, minha versão infantil avançou faminta.
Depois de um tempo observando-a, arrisquei uma provocação. Queria mostrar outra coleção que, a meu ver, é bem mais legal e inteligente do que a do venerado Harry Potter.
__ Vem cá, quero te mostrar uns livros legais!
Ela me acompanhou curiosa. No caminho, me contou que já tinha lido todo o Harry Potter e que só estava matando saudades.
Chegamos ao nosso destino. Lá estava a coleção Desventuras em série, que sempre indico pra quem gosta de Harry Potter.
__ Ah, já li todos__ ela me disse, cheia de frustração.__ Não gostei, porque achei muito trágico.
__ Trágico? __ Perguntei surpreendida, diante daquela lucidez argumentativa.
__ É. E o mundo já é trágico demais. Prefiro ler Harry Potter.
Ficamos nos olhando em silêncio, por alguns instantes. E foi bruscamente que interrompi a conversa:
__ Então tá. Se precisar de mais alguma dica, é só me procurar.
Ela agradeceu e foi ler uma história do Batman.
Fiquei com um pouco de raiva: o que pode saber sobre tragédia, uma menina de dez anos de idade? Então, a bastilha das minhas pequenas tragédias infantis foi derrubada e tudo o que tinha lá dentro veio zunir no meu ouvido, com a impertinência do mais filho da puta pernilongo.

II
Quando eu tinha a idade dela talvez não soubesse nomear ainda muita coisa, principalmente as mais complexas. No entanto, naquele tempo eu era trágica e silenciosa.
Não perdi meus pais em um incêndio, não presenciei cenas sangrentas, ninguém se suicidou na minha frente. Mas havia os cães mortos, as histórias tristes e a terrível guerra que é a fome.
III

Dias atrás, eu soube que filhos de presos têm direito a uma bolsa de um salário mínimo e meio. Eles não têm culpa, não podem pagar pelos crimes do pai. Foi o pai que matou, estuprou, roubou, não eles. O meu pai não fez nada disso: ele trabalhou a vida inteira, carregando caixas pesadas nas costas, feito burro de carga. Não era criminoso, era alcoólatra e gastava parte considerável do dinheiro mirrado que recebia com seu vício; a outra parte, a que sobrava, ele não sabia administrar. Resultado: Fome, miséria e humilhação. E nada de bolsa alcoólatra trabalhador.
Dias e dias sem comer nada. Aos desmaios pelas ruas, eu sonhava com a casa de pão de mel da velha bruxa
.
IV
E é claro, anos depois, quando eu já era adulta, a cachaça acabou matando meu pai. Morte em Slow Motion. Que estranho vê-la agindo assim, tão lenta e perspicaz, como um gato se movendo na noite.

V
Na semana passada, alguém me lembrou que o dia dos pais estava próximo e eu disse que precisava comprar um presente, com urgência. Então, o alguém me olhou com uma cara esquisita, como se estivesse vendo uma pessoa doida. “Teu pai já morreu”, o alguém disse. “Eu sei, eu estava lá quando fecharam o caixão. Só que mamãe faz 70 anos nesta semana”, respondi.
No dia seguinte comprei o tal presente: um par de sandálias leves e confortáveis. Levei-as para mamãe.
Não serviram.
Não, não comprei números menores. Não, a numeração de seus pés também não mudou da noite para o dia.
Minha mãe estava com os pés enormes e feridos. Problemas de circulação sanguinea, associados a um pequeno acidente com uma pedra pesada.
Diante de tal visão, senti uma pontada forte de dor em um lugar em mim, nunca antes apunhalado.
“Minha querida magnólia branca, de raízes machucadas”, pensei.
Voltei para casa, escurecida. E foi em meio a um choro desamparado que telefonei para um médico.
“Que dramalhão mexicano”, é o que devem estar pensando meus leitores.
Que seja. Mas para mim, esses dias significaram a visita do pior dos monstros da minha infância: a ideia de perder minha mãe.

VI
Quando eu era criança tinha medo da sombra do eucalipto que tinha em frente à minha casa. Quando ventava forte nas noites de agosto, a projeção da imagem farfalhante das folhas da grande árvore no asfalto fazia lembrar um monstro malvado ou uma gigantesca alma penada.
Eu tinha mesmo era medo da noite: a noite da rua de casa, que era vazia e silenciosa e a noite da avenida próxima, com suas luzes e carros velozes, tão ameaçadores.
Na avenida, à noite, eu só circulava se tivesse meus dedos enroscados nos de meu pai, que me protegia das hostilidades e me dava o céu, num copo de guaraná.
Naquela época eu ficava pensando o que seria de mim se meus pais morressem. Como eu sobreviveria na noite? Como poderia enfrentá-la, atravessá-la sem que seus monstros me devorassem?
O tempo passou, meu pai morreu e eu saí de casa, deixando minha mãe na antiga rua do eucalipto-alma penada. Moro ainda no mesmo bairro, agora mais perto da avenida outrora hostil.
Transito freqüentemente por estes dois universos noturnos. Estou sempre sozinha, sem mãos de pai, sem guaraná com estrelas.
Um dia desses, enquanto transitava me senti tão só, que pensei: ” Meu deus, estou dentro do meu medo! Sozinha, na noite hostil do meu futuro!”

VII
Puxa vida! Como estou confessional hoje! Culpo os hormônios.
Se eu pudesse conversar agora com a pequena leitora que me falou de tragicidade como se fosse uma velha de oitenta, eu a aconselharia a comer muito chocolate, ler muito Harry Potter, antes que chegue ,inexorável, o tempo das mutilações.

quinta-feira, julho 07, 2011

O monstro do armário III


Após um momento fugaz de silêncio comovido, um som repentino de palmas encheu o salão.
Marina não sabia por que, mas se sentia um pouco tonta. Todos estavam de pé, mas ela se sentou para recuperar o equilíbrio e a respiração. A presença da tatuada havia provocado aquilo ou seria apenas uma indisposição por causa do desjejum tomado às pressas e de qualquer maneira, naquela manhã? Claro. Não havia comido direito. Uma presença desconhecida não podia incomodar tanto. Ainda mais de uma menina.

As pessoas se sentaram novamente. A palestra ia prosseguir. Então a tatuada perguntou,  sussurrando, a Marina:

__ Por acaso você sabe onde fica a sala 15?

O coração de Marina disparou de novo. A vertigem se insinuou novamente, mas um pouco mais leve. Meio gaguejando, ela respondeu:

__ Ao lado da sala 14.
__Bom, isso é meio óbvio. __ A tatuada falou, irônica. __ O problema é que não sei onde fica a sala 14 também. Na verdade não consegui encontrar o bloco de salas que vai da 10 à 20. __ Continuou.

Marina já se sentia um pouco melhor. Disse, então, sem gaguejar:

__ Desculpe. O I.E é muito grande mesmo. Só não fiquei perdida porque minhas aulas de música aconteciam aqui, então conheço muito bem o espaço. Na sala 13 está funcionado uma turma de segundo ano, na 14 , uma de primeiro,que é a minha e na 15 uma de terceiro.

__ É essa de terceiro que procuro. Passei os dois primeiros horários na sala errada, você acredita?
Marina não conseguia tirar olhos dos peitos da tatuada.
__ Ah, você é do terceiro ano... __ Comentou, tentando desviar seu olhar para o relógio, que agora começava a girar seus braços desesperadamente. “Tenho vários relógios”, pensou.

__ Sim, eu sou. Ah, meu nome é Cláudia, e o seu? ___ A tatuada perguntou.
__ Meu nome é Marina. Ah, assim que a palestra acabar te mostro onde é a sua sala, ta bom?
__ Combinado__ Disse Claudia, satisfeita.

Virginia já parecia cansada quando começou a falar de sua poetisa lírica preferida: Safo, de Lesbos:

__ Safo foi, sem dúvida, a maior poetisa lírica da antiguidade. Nasceu na ilha de Lesbos por volta do ano 612 a.C. Filha de aristocratas, teve acesso a bens culturais que as moças pobres não tinham: a dança e a poesia. Foi exilada duas vezes, uma em Pirra, outra na Sicília, pelo Ddtador Pítaco, por motivos políticos. Ao retornar a sua terra natal, teria fundado uma escola para moças, onde as ensinava poesia e dança. Alguns dizem que Safo possuía extraordinária beleza. Outros dizem que não possuía tantos atributos físicos assim. Mas, embora as opiniões a respeito de sua aparência sejam divergentes, sabe-se que encantava suas alunas, com sua poesia. Não demorou muito, muitas historias sobre outras práticas dentro da escola, além da poesia e da dança, começaram a surgir. A fama da escola como um lugar de lascívia entre mulheres começou a se espalhar.

Marina ouvia, atenta, o discurso de Virginia.
“Meu Deus, que papo mais estranho o dessa mulher”, pensava.

Virginia continuou:
__Havia uma aluna, Átis, que era a preferida de Safo. Quando seus pais souberam da má fama do estabelecimento de ensino, “trancaram a matrícula dela” e a levaram embora, fato que deixou Safo de coração partido. Foi daí que surgiu um dos mais belos poemas líricos de todos os tempos, chamado “adeus a Átis”, com o qual pretendo encerrar esta palestra. Mas antes há ainda algumas coisas a serem ditas a respeito dessa magnífica poetisa. Lendas e lendas foram contadas a seu respeito. Uma delas, do poeta Ovídio, diz que ela teria voltado a amar os homens. E ainda de acordo com Ovídio, sua morte teria sido provocada por um amor desse tipo: apaixonada por um marinheiro chamado Faon, e não sendo correspondida, Safo teria se atirado de um Rochedo em Leuca.

Cláudia, ao ouvir isso se revoltou:
__ Como assim? Pulou de um rochedo por causa de um homem? Duvido muito! Ainda mais depois de ter vivido amores tão intensos e diferentes como aqueles! Ela não seria capaz de voltar ao medíocre! Essa lenda só podia ter sido escrita por um homem mesmo! Não acredito.

Marina achou estranha aquela revolta toda, mas não disse nada.

Virginia prosseguiu:
_ No século XI a Igreja católica queimou toda sua obra, contida em nove volumes. Apenas no século XIX, alguns arqueólogos ingleses descobriram, em Oxorinco, sarcófagos envoltos em tiras de pergaminhos. Em umas dessas tiras estavam lá, legíveis, uns 600 versos de Safo. E é isso que restou dela para os leitores de hoje. Fragmentos.
Finalizo então com o poema que Safo fez para sua adorada Átis:

Adeus a Átis

Não minto: eu me queria morta.
Deixava-me desfeita em lágrimas:

“Mas, ah, que triste a nossa sina!
Eu vou contra a vontade, juro,
Safo”. “ Seja feliz”, eu disse,

“ E lembre-se de quanto a quero.
Ou já esqueceu? Pois vou lembrar-lhe
Os nossos momentos de amor.

Quantas grinaldas,no seu colo
__ Rosas, violetas, açafrão_.
Trançamos juntas! Multiflores

Colares atei para o tenro
Pescoço de Átis,os perfumes
Nos cabelos, os óleos raros
Da sua pele em minha pele
[...]

Cama macia, o amor nascia
De sua beleza e eu matava
A sua sede [...]

Cai a lua, caem as plêiades e
É meia-noite, o tempo passa e
Eu só,aqui deitada, desejante.

__Adolescência, adolescência,
Você se vai, aonde vai?
__ Não volto mais para você,
Para você não volto mais.


Tenham todos um bom dia!

Todos estavam de pé, aplaudindo Virginia. Ela realmente tinha um jeito especial de ler poemas, todos ficavam emocionados.

O auditório principal começava a ficar vazio. Marina e Claudia se levantaram e andaram em silêncio até a porta vermelha. Os olhos de Marina percorriam sutilmente e sem querer os contornos dos lábios de Cláudia, que disse:
__ Vamos, me mostre onde é minha sala.
Então as duas saíram apressadas pelos corredores. Marina andava quase correndo, como se estivesse fugindo de alguma coisa da qual ela tinha muito medo. O poema de Safo martelava em sua cabeça.


sábado, julho 02, 2011

O monstro do armário II


Era o início do ano letivo no Instituto Educacional. Marina cruzou ofegante, o amplo pátio da escola secundária. Seus olhos automaticamente se voltaram para o grande relógio fixado na parede verde acima da porta da diretoria. Sete horas e dez minutos. Estava atrasada. Sempre estava. Perguntava-se sempre quem teria sido o indivíduo que teria inventado esse horário absurdo para as aulas começarem. “Só pode ser coisa de padre”, pensou. “Coisa de gente que dorme cedo todo dia porque não tem mais nada de interessante para fazer”.
Ela mesma não conseguia dormir antes de meia-noite, por isso acordar tão cedo era um suplício.
Isso mesmo, um suplício. E acreditava que tudo fora planejado perversamente pelo padre do horário absurdo, só para que as pessoas comuns, como ela, que só dormem depois da meia-noite (porque ficaram vendo um filme legal, ou então lendo um livro pornográfico, ou sei lá, fazendo amor deliciosamente), sofressem, porque o prazer sempre foi um pecado mesmo, na concepção desses religiosos.
No momento em que amaldiçoava toda a congregação jesuíta e andava a passos largos, em direção à sala quatorze, esbarrando em outros alunos que provavelmente também estavam atrasados como ela, um cartaz cor laranja, colado em uma das paredes verdes do pátio, chamou sua atenção.
Marina diminuiu a velocidade de seus passos. Já estava atrasada mesmo, não faria muita diferença perder mais um minuto na leitura do tal cartaz. Aproximou-se e leu as letras salvadoras:




CONVITE

 O INSTITUTO EDUCACIONAL (I. E) TEM O PRAZER DE CONVIDAR A TODOS OS INTERESSADOS PARA A PALESTRA SOBRE “A IMPORTANCIA DO LIRISMO NOS DIAS ATUAIS”, A REALIZAR-SE NO DIA 3 DE FEVEREIRO DO ANO CORRENTE, ás 9;30h, EM NOSSO AUDITÓRIO PRINCIPAL.
A PALESTRANTE SERÁ VIRGÍNIA. L, PREMIADA POETA DA ATUALIDADE.
O PÚBLICO ALVO: TERCEIRO ANO DO ENSINO MÉDIO E TODOS Os INTERESSADOS EM POESIA.

CONTAMOS COM SUA PRESENÇA.

ATENCIOSAMENTE,

 A COORDENAÇÃO.

       Marina estava começando o primeiro ano ainda, mas julgou que não haveria problema trocar as duas últimas aulas de Física, matéria que detestava, pela palestra sobre poesia. Então seu primeiro dia de aula não seria tão penoso. Não poderia fugir das duas primeiras aulas de Biologia, mas, para compensar, mataria as de Física. Sem nenhum remorso. Tinha só quinze anos e se considerava muito responsável para tão pouca idade. Uma “matadinha” de aula de leve não faria mal ao seu caráter. Seu pai sempre dizia que o maior ato de irresponsabilidade dele tinha sido ter tido uma filha com apenas 20 anos, com uma mulher que ele nem conhecia. E que, no entanto, esse ato irresponsável tinha se transformado na maior alegria da vida dele. “Quem sabe”, ela pensava, “ eu não tenha a mesma sorte?”

Os dois primeiros horários, como já previra Marina, foram uma tortura chinesa. Ela contava os segundos, que pareciam girar num relógio diferente daquele onde olhara as horas pela manhã. O tempo havia parado. A professora de Biologia parecia falar uma língua estranha, tão amplo era seu vocabulário de palavras esquisitas. Um garoto, sentando perto de Marina, tirava melecas do nariz, com as quais fazia bolinhas, que arremessava nos cabelos louros de uma garota que tentava fazer as sobrancelhas olhando-se num minúsculo espelho. Uma formiga, lenta, como se estivesse sem uma das patas, subia, com sofrimento, pelos tornozelos de um garoto gordo, sentado à sua frente. “Coitada da formiga”, Marina pensava, “ não sabe onde está se enfiando”.

 Quando pensava no terrível destino da formiga desorientada, o sinal bateu. Estava alforriada. Não via a hora de ir para a palestra logo.

Ao se levantar, ainda pôde perceber que o garoto das bolinhas de meleca havia desistido de acertar seu alvo de madeixas tingidas de amarelo. Agora ele comia as bolinhas, enquanto desenhava pênis de todos os tamanhos, em uma folha de papel ofício amarrotada.

O auditório principal era gigantesco e estava quase lotado. Pouquíssimas poltronas permaneciam desocupadas. Marina teve a impressão de que a escola toda fugia das aulas dos últimos horários, porque não era possível que todo mundo estivesse interessado em um tema tão esquisito como o daquela palestra. As salas de aula deviam estar vazias. Mas, embora não estivesse se sentindo muito confortável no meio daquele monte de gente, pelo menos se sentia tranqüila: se fosse punida pela escapadela, não seria sozinha.
Virgínia. L, com os olhos brilhantes, falava, com uma voz quase masculina, que ecoava por todo o auditório, através das caixinhas de som, estrategicamente instaladas nas pilastras:

__ Quando falamos em poesia lírica, estamos nos referindo aos textos poéticos onde há subjetividade, ou seja, o que se lê nos textos líricos é uma visão pessoal, individualista do poeta,;são seus sentimentos que estão ali,escancarados, sua sensibilidade, seus segredos, seus medos. O mesmo não ocorre na poesia épica, uma vez que o objetivo desta é contar histórias, na maioria das vezes, histórias dos feitos heróicos de um povo. Há um afastamento do poeta em relação ao que escreve; o sentimento que predomina na épica é o orgulho do poeta de ser parte daquele povo cujo heroísmo ele canta. Mas, observem: é um sentimento que ele compartilha com os demais, é um sentimento coletivo. Não há espaço aqui para o individualismo...

Marina não desgrudava os olhos de Virgínia. Gostava de poesia desde pequena, quando seu pai lia versos para ela antes de dormir.
Depois de muito falar sobre o individualismo dos poetas líricos, sobre a proximidade entre poesia e música, sobre a lira, instrumento musical muito antigo que acompanhava os poemas líricos na antiguidade, Virginia se pôs a falar da morte, que, de acordo com ela, era um dos temas mais abordados em toda a lírica mundial, em todos os tempos:

__ Agora, gostaria de ler um poema do qual gosto muito. Chama-se “Esta é a graça” de Henriqueta Lisboa.

Ao dizer isso, abriu um livro tão espesso, que parecia conter todos os poemas do mundo, e começou a ler, com a voz muito grave:

__ “Esta é a graça dos pássaros:
Cantam enquanto esperam.
E nem ao menos sabem o que esperam.

Será porventura a morte, o amor?”

A música e o significado deste último verso ainda ecoavam nas caixinhas de som e nos ouvidos de Marina, quando a porta vermelha do auditório se abriu. Virginia continuava a leitura do poema, no entanto Marina não ouviu mais. Toda a sua atenção se voltou para a garota que havia entrado no salão. Ela era alta, tinha a pele bonita e cabelos compridos. Os olhos eram escuros como os cabelos. Ela usava jeans e camiseta. Havia um desenho tatuado em suas costas, mas Marina não conseguiu enxergá-lo, antes porque a garota ainda estava longe e o desenho era pequeno, e nem depois, no momento em que a tatuada se sentou ao seu lado, quase caindo em seu colo, porque os cabelos dela encobriram o desenho.


Todos esses movimentos, de pernas e quadris da tatuada e dos olhos de Marina duraram exatamente o tempo de leitura de quatro estrofes do poema que Virgínia declamava. Quando a tatuada finalmente se acomodou na poltrona ao lado, Virginia lia a última estrofe do poema, que Marina ouviu ainda um pouco perplexa:

__ E minha voz perdura neste concerto
Com a vibração e o temor de um violino
Pronto a estalar, em holocausto,
As próprias cordas_ demasiado tensas.

domingo, junho 26, 2011

Embalos de sábado à noite

Ontem: enquanto lia Proust, baixava os filmes do Tarkovsky que perdi  por causa de um Biziu no PC. Enchi a cara de batata frita industrializada e de cerveja puro malte(uma garrafa inteira de decepção).Comecei a ler o Jimmy Corrigan do Ware, mas desisti quando percebi que os quadrinhos estavam dançando valsa.Então ouvi três canções de cortar os pulsos, assisti um Kieślowski e depois adormeci como um bebê amamentado.

quarta-feira, junho 22, 2011

O monstro do armário




        Ainda não me acostumei a sangramentos. Me lembro do susto de minha primeira menstruação:   acredito que não fui a única menina do mundo que achou que ia morrer em segundos, ou que, incoerentemente, pensou ao mesmo tempo que a morte poderia ser lenta e dolorosa, com todo o sangue de meu corpo saindo em jatos pequenos, porém significantes, de minha boceta perplexa. Se falava tanto em menstruação na escola, mas eu sempre imaginava que aquilo era para as outras mulheres, não para mim. Como quando a gente pensa que só os outros morrem de câncer, eu jamais. Meio isso.
       Hoje cortei meu pulso com o espelho do armário. Foi bem cedinho, antes de sair pra Faculdade. O espelho estava meio embaçado, minha imagem parecia a de um fantasma, ou a de uma estranha de olheiras, aprisionada na neblina. Resolvi passar um paninho nele, pra ver se melhorava o aspecto da coisa e, consequentemente, meu aspecto também. Enquanto eu fazia isso, não percebi que um parafusinho se soltou, o espelho ficou bambo, e na hora que me abaixei para amarrar meu tênis, ele veio todo sobre minha cabeça. Só não rachei o côco, porque o protegi heroicamente com minha mão direita. Uma das pontas do espelho penetrou meu pulso. Saiu sangue. Muito.
       È claro eu fiquei a manhã inteira me sentido ofendida. Como se tivesse levado uma surra injustamente.
       Papai não estava em casa, viajou ontem à noite com a orquestra sinfônica. Só fiquei sabendo disso porque, na hora do acidente, corri pro quarto dele e constatei decepcionada, que o violino não estava lá. Depois de ter cuidado, eu mesma, de meu ferimento, soube formalmente, através de um bilhete de geladeira, que ele iria passar o fim de semana todo fora, fazendo apresentações em cidadezinhas interioranas.
        Às vezes sinto falta de uma mãe. Mas a minha parecia meio louca, então talvez seja melhor não ter uma mesmo. No meu quarto tem uma foto dela e de papai juntos: foi tirada na noite em que me fizeram. Eles nem se conheciam e nem se conheceram depois. Explico-me: minha mãe era uma ativista do movimento feminista. Detestava homens. Só queria um filho, ou melhor, uma filha, no entanto era pobre para ter acesso a essas modernidades da medicina, tipo inseminação artificial e tal, então precisava de um homem bonito para executar seus planos. Ficou sabendo, através de amigas intelectuais como ela, que na orquestra sinfônica tinha um tal de Robson, rapaz de 19 anos, corpo atlético, excelente músico e com cara de bobo inteligente. Minha mãe se interessou. No dia da grande apresentação da orquestra, seduziu meu pai e engravidou de mim. Quando eu nasci, meu pai até tentou aproximação, mas minha mãe era muito arredia e não queria mesmo saber dos homens. Só que morreu meses depois e minha avó, mãe da minha mãe, que era também muito pobre e já tinha mais de 70 anos, procurou meu pai e me deixou com ele.
        Na foto tirada no dia em que fui feita, minha mãe aparece com uma camiseta surrada, calças jeans também surradas, cabelo muito curto e vermelho e os olhos que herdei, cinzentos como os dos cães do gelo. Meu pai, de violino na mão, sorri para a câmera, seu sorriso de bobo inteligente. Os olhos dele sempre me pareceram trechos curtos de uma floresta antiga, tão verdes, como são, em meus pensamentos, as sinfonias que ele tocava para me fazer dormir, quando eu era apenas uma coisa careca e sem dentes, cheia de medo do mundo.
        Vinte anos depois, aqui estou com bastante cabelo vermelho na cabeça. Cabeleira que corto periodicamente, porque detesto ficar parecendo crente, com cabelão na cintura me incomodando no calor. Além dos olhos cinzentos e do gosto por cabelos curtos, ainda herdei de minha mãe louca uma pele muito branca, quase transparente. Não me pareço nada com meu pai. Talvez eu tenha também uma cara de boba inteligente, mas pode ser a convivência. Há entre nós uma semelhança, mas não física: assim, como ele, adoro música. Ele queria que eu tocasse piano, mas há uns bons anos atrás, me apaixonei pelo sax. Então essa semelhança acabou se tornando um contraponto entre nós: meu pai clássico, eu totalmente pop.
        Mas convivemos bem com essa semelhança / diferença. Às vezes ele toca no quarto dele, solitário, suas notas melancólicas, em seu violino impecavelmente afinado; e eu, também toco no meu quarto, meu saxofone apaixonado, soprando as notas para seu interior, como se a musica nascesse de dentro de mim e provocasse tamanha inquietude e assombro, que eu precisasse expeli-la, para dentro de outro ser, de preferência inanimado, que não estivesse em constante perigo de explosão, como eu.

        Meu pai anda estranho ultimamente. Me disse que tem algo para me contar, mas está cheio de rodeios. Disse que me ama muito e que está com medo do efeito que o que ele vai falar poderá provocar. Mas tudo bem. Ele sempre foi meio excêntrico mesmo. Não acredito que seja nada demais. Só me resta esperar.
        Gosto muito de andar de metrô nesse horário. È vazio, dá pra ir sentada, dá pra olhar pela janela e pensar na vida, enquanto as imagens se despedaçam lá fora. Gosto muito também desses dias nublados e frios. Nem parece que estou nos trópicos. Devo ter a alma européia.
        As pessoas devem estar achando que sou uma suicida. Não é agradável ficar circulando por aí com esse curativo no pulso. Na faculdade me encheram o saco, ficaram me perguntando o que houve comigo, e mesmo eu tendo de repetir a historia um milhão de vezes, parecia que eu estava inventando. Os colegas não pareciam convencidos. Alguns idiotas me disseram que ando lendo Cioran demais e que isso pode não estar me fazendo bem. Acho Cioran pesado, o máximo de pessimismo que consigo suportar é Schopenhauer. Na verdade, aqueles babacas só falaram de Cioran pra dizer que são cultos e que são os nerds da Filosofia. Ai que preguiça.
        Aquele espelho desabando na minha cabeça hoje de manhã acabou azedando bastante o meu humor. E a Faculdade também. E as pessoas de lá. E as paredes da biblioteca, entre as quais fui obrigada a devorar páginas e páginas sobre Platão, nos dois primeiros horários, para dar conta de uma prova indigesta nos dois últimos.
Ainda bem que estou aqui, no metrô, longe de lá. O ferimento dói ainda. Fisgadas.
        E meu grande problema hoje não é apenas essa dor. O meu grande problema hoje é que essa dor me fez lembrar de outra, que tenho tentado anestesiar em vão, há anos...

        Hoje acordei pensado em Cláudia. Febrilmente.  E posso garantir que isso dói mais que um pulso cortado. Não cicatriza, nessa ferida não nasce casca. Ela foi embora há quatro anos e me engano, sei que me engano, quando acho que a esqueci, depois de uma noite com algum cara idiota, depois de algum porre universitário, depois de me enclausurar por horas em bibliotecas ou no meu quarto, escrevendo artigos e mais artigos acadêmicos. Como uma mulher pôde espalhar tantos rastros de pólvora assim em minha vida tão pacata de colegial? Por que sucumbi diante de seu olhar letal e de seu corpo moreno que massacrava o meu em nossas mais úmidas tardes, quando nos pedíamos sem trégua, e nos dávamos, tremendo de medo e de tesão, nos labirintos dos meus lençóis amarrotados? Não houve garotas depois dela.  Alguns garotos esporádicos, nas festas de faculdade. Eles me fazem, momentaneamente, me livrar de mim. Como alguém, que, em horas alcoólicas, acha que é feliz, mas depois, no dia seguinte, é obrigado a enfrentar a ressaca, ácida, como o vômito que se despeja na privada.
        Que espécie de encantamento havia naquela saliva morna que me untava o corpo, que se misturava aos calores lascivos de minha boceta molhada?
        Dói. Mais do que um pulso ferido por um espelho embaçado que faz com que eu me sinta, ao me ver refletida, como alguém que já morreu, cujo fantasma acena tristemente através da cerração.

Eu tinha 15 anos. Era uma palestra, na escola, sobre a poesia lírica. Eu olhava, fascinada para a palestrante, que lia efusivos versos líricos de poetas renomados. Foi quando Cláudia entrou no auditório. Era a primeira vez que eu a via.
Mas, por Deus...
Ainda não me acostumei  aos sangramentos...

( continua...)

sexta-feira, junho 17, 2011

Para Mário Quintana

 Cabelo

Cabelo é o fio dental dos dentes do pente.

domingo, maio 22, 2011

Macumba on-line



Faltam dez minutos para as 8 horas da manhã. Como acontece todos os dias, reduzo a marcha na Bahia com Contorno: paro o carro lentamente diante da imposição vermelha do semáforo à frente. Nunca passo direto por esse cruzamento.

Aqui, todas as manhãs, coleciono desgraças. Desgraças dos outros, o que não é bom, mas, em todo caso, seria pior se fossem minhas.
Explico-me: é que o trecho é local de trabalho de pelo menos três vendedores de jornais sensacionalistas, desses que todo mundo lê nos ônibus e no metrô, a caminho do trabalho, a fim de se inteirar sobre as desgraças do dia. Então é sempre assim: levanto os olhos e leio: “ESFOLADA VIVA”, ou, “ESTUPRADA, ESFAQUEADA E ABANDONADA EM MATAGAL” e ainda: “MATOU NAMORADA E PULOU DO PRÉDIO”, tudo isso grafado na mais sanguinea caixa alta, certamente para despertar nosso animal interior, ou talvez para aguçar nossa fome predatória, o nosso tão paradoxal fascínio pela violência.
Já cheguei ao ponto de fechar os olhos, nesse momento de parada obrigatória, e imaginar qual seria o infortúnio ou a catástrofe do dia. Então fico inventando os mais grotescos crimes e resumindo-os em manchetes; desço ao mais torpe instinto violento de que o ser humano é capaz e redijo sórdidas notícias mentais. Enfim, abro os olhos e, antes de arrancar, constato alarmada, que a vida real é muito mais terrível. Sim, a vida real é muito, muito mais terrível.

Depois de 20 minutos tentando estacionar, chego ao trabalho. E, de novo, o jornalzinho mais lido pelos belo horizontinos me persegue. Dessa vez acontece assim: surpreendo o vigia às gargalhadas, com um exemplar nas mãos. Ele ri e alterna seus quase soluços com a palavra “estúpida”. É lógico que fico praticamente morta de curiosidade, e quero rir também, porque, como é de conhecimento de todos, rir faz bem, assim como cantar, para espantar nossos males. (Risadas, cantoria e quem sabe, de quando em vez, uma fumacinha cheirosa de incenso, nos ambientes mais pesados).
Ele estende uma das mãos para mim (a outra se ocupa em desfazer as lágrimas resultantes do momento feliz). Na mão estendida está o tal jornalzinho e lá, num pedacinho de umas das páginas, a notícia que provocara a crise de riso.

Não chegava a ser uma desgraça. Na verdade, era uma quase desgraça. Eis a manchete: “NOIVA TENTA SE MATAR, MAS VESTIDO NÃO DEIXA”.
Foi assim que as coisas aconteceram, segundo o jornal: uma moça chinesa, de 22 anos, tinha um noivo, ao qual devia amar muito. Mas, como tudo nessa vida é fugaz, o romance entre os dois acabou. A pobre coitada  já tinha até comprado a indumentária para o casamento, um belíssimo vestido de noiva, com o qual, numa atitude de desespero e revolta, se fantasiou e saltou para a morte, partindo do sétimo andar de um prédio. Só que o vestido dela ficou pendurado nas grades da janela e a chinesinha ficou pendurada junto. Após isso foi resgatada com sucesso, não sem chamar a atenção dos transeuntes, que estavam lá embaixo rindo muito, filmando e fotografando tudo.
Minha primeira reação foi rir descaradamente. “Que corpo leve!”, pensei. “Que tecido resistente!”, repensei. “Que estúpida”. Concluí.
E, de repente, parei de rir. É que olhando bem para a fotografia que acompanhava a notícia, quase descobri um mistério; alguma coisa obtusa estava ali, tentando me seduzir. Então me dei conta de que aquela mulher de vestido esvoaçante pendurada numa janela transubstanciara-se em rosa recém brotada milagrosamente do concreto, sob um sol oriental. Flor selvagem, suicida, pendendo para o vazio. Ela resplandecia, flutuando , trágica, no fracasso de sua quase queda.
Eu  juro que não queria pensar sobre o futuro da rosa. Já seria demasiado triste refletir sobre sua solidão passada. Pior ainda pensar na dor que virá.

Mas,no fim do dia,tal pensamento se impôs. Ao ligar o computador me deparei com o seguinte anúncio: “Macumba on-line, experimente!” Adeus, ó aventura- da galinha- preta- com cachaça- e vela vermelha- na encruzilhada- meia-noite! O lado bom da coisa foi pensar nas repercussões positivas dessa “revolução tecnológica” no futuro da moça chinesa que, depois de muito sangrar, provavelmente metamorfosear-se-á em pétala vingativa.Se tal momento triunfante chegar, suas delicadas mãos de porcelana não precisarão nem costurar a gosmenta boca do sapo.
Bastará um clic no mouse.

quarta-feira, maio 04, 2011

Camila e outros bichos

             O meu amor pelos animais começou muito cedo, quando eu ainda era bem criança. Onde morávamos havia um milharal onde os gatos se multiplicavam. A cada dia surgiam novos bebês gato, que atraiam a atenção de nossos olhos espantados.
Quando eu tinha quatro anos nos mudamos para o bairro onde passei o resto de minha infância e lá não foi diferente: rapidamente meu irmão transformou nossa área de serviço  em um verdadeiro zoológico.
           Tudo começou com a Lassie. Era uma fofura quando nos foi apresentada. Pequena, gorducha e dona dos pelos negros mais brilhantes que já vi... enfim, uma beleza de vira-latas. Foi difícil convencer  a mamãe de deixar a linda cadelinha ficar, mas depois que me irmão e eu ameaçamos incendiar a casa, ela acabou cedendo. Lassie cresceu e se tornou uma grande companheira.
           Depois de sua vinda, chegamos à conclusão de que ela precisava de uma amiga. A partir de então muitos outros cães foram trazidos por meu irmão. Ele se comovia ao ver os pobres animais abandonados nas ruas e os adotava. Dessa forma, chegamos à surpreendente marca de doze cães. Doze cães, muito vivos e comilões! Ainda bem que todos viviam na mais perfeita harmonia com Lassie, nossa querida primogênita. Muitos adoeciam e morriam e outros eram trazidos. Perdi a conta de quantas Xuxas e paquitas tivemos...
            Havia também uma coleção de pombos. Eram muitos os viveiros espalhados pela área de serviço. Havia lindos pombos-correio e meu irmão, como talentoso comerciante mirim, sempre os vendia por um preço mais elevado. E os passarinhos? Eram muitos... canários, periquitos, pardais... armávamos alçapões sobre o telhado para apanharmos pardais! Depois, ao vê-los presos, eu me entristecia. Pobres passarinhos impossibiitados de voar! Mas eu nada podia fazer, apenas colaborar para que permanecessem encarcerados. Deveria viagiá-los, se não o fizesse, meu irmão me enchia de tabefes. Deveria também arrancar as penas das asas dos pombos para que pudessem andar pela área sem fugir.
             Mas não acaba aqui. Havia os macacos. Isso mesmo, os macacos. Eram micos,destes que povoam as árvores de nosso parques municipais. Tivemos muitos deles. Acredito que não há bichos tão estressados quanto os micos. Eles faziam muito barulho, pulavam demasiadamente e balançavam tanto as gaiolas que elas chegavam a oscilar. E coitado de quem se atrevesse  a colocar os dedos entre as grades do viveiro... Meus dedinhos eram repletos de furos: os dentes dos macacos eram muito afiados e eu não tinha mesmo vergonha. Não aprendia nunca.
           Eu gostava muito das tartarugas. Tínhamos de todos os tamanhos:algumas cabiam na palma da mão, outras eram tão gigantescas, que até assustavam. As menores gostavam de subir pelas paredes e ficavam lá por muito tempo. As grandes nem se moviam. Ficavam em um cantinho, com cara de quem está carregando o peso do mundo nas costas. Eu adora fazer festinha para uma delas, a Maior de Todas. Quase todos os dias, uma de minhas amiguinhas da escola ia lá pra casa me ajudar. Preparávamos o refresco, os biscoitos e até coroávamos Maior de Todas. Depois cantávamos e devorávamos o lanche. No fim da tarde minha amiga  voltava para casa e eu ficava como lanche dela todo pra mim.
            Tivemos poucos coelhos.Os pequenos foram assassinados pelos cães. O grande,chamado Juba, numa triste época de privações, foi assassinado por mamãe. Tornou-se um delicioso ensopado e parte do de dentro de cada um de nós.
             Ah.... Eu não poderia me esquecer dos filhotes de rato que meu irmão encontrou não sei onde! Imaginem que ele os estava criando dentro do forno! Até que mamãe os  descobriu e esmagou todos com o salto do sapato.
        Cães, pombos, pássaros, tartarugas, coelhos.... eram mesmo muitos bichos para uma área de serviço tão pequena...
              E havia os gatos. Foram muitos,mas lembro-me, com nitidez, de apenas três: Chaninho, Robozinho, e a Belíssima Camila.
              Chaninho foi o primeiro. Viveu conosco durante muito tempo, e então desapareceu. Ficamos deprimidíssimos. Depois de um ano, para a nossa surpresa, ele retornou. Estava muito magro e mancava. Eu me aproximei, cheia de alegria e de saudades e o resultado foi a marca de três afiadíssimas unhas em meu braço direito. Parece que não fui reconhecida. Ele estava diferente, era outro. Gatos também perdem  memória? Aquele havia perdido, e fico pensando em seu sofrimento, tentando se lembrar de sua casa, do caminho que o conduziria até lá. Pobre Chaninho! Em sua confusão mental, deve ter me confundido  com os seres  que o espancaram, pelo prazer da mais gratuita covardia. Depois ele foi embora de novo, e um dia o vimos grudado no asfalto da  rua dos Eucalíptos. Trágico fim.


      Robozinho era um filhote. Era um dos quinze gatos que habitavam o nosso zoológico. Eu não me interessava muito por ele até que,em uma das minhas tardes de solidão, o vi cair da escada da sala. Abandonei meus livros, meus brinquedos e meus amigos invisíveis e corri em sua direção. Estava morrendo. E eu , que nada podia fazer,assiti a sua morte. Foi durante a agonia que lhe dei nome. Morreu na boca da noite e  chorei como uma idiota.
          Eu gostaria de saber por que os gatos são tão enigmáticos.Eles têm algo de místico, seus olhos parecem portadores de grandes mistérios. São tão sensuais... e às vezes nos fitam como se conhecessem os nossos segredos. Minha infância não teria sido a mesma se eles não estivessem sempre por perto, como entes mágicos, ou simplesmente como bons ouvintes de meus monólogos infantis.
           A Camila foi especial. Assim como a Lassie, ela chegou em nossa casa ainda pequenina, era linda e quando cresceu, ficou mais bela. Seus pelos esverdeados tinham listras pretas. Nunca vi gata mais elegante. Ela me acompanhava sempre  por todos os lugares. As pessoas gostavam dela, principalmente, as crianças. Eu costumava passar tardes inteiras explorando um terreno baldio  que existia em frente à minha casa. Os vizinhos depositavam lá livros velhos e brinquedos estragados. Mas o que não era mais útil para eles para mim era motivo para festejar: encontrar um livro ou brinquedo me deixava muito feliz. Camila estava sempre comigo. O lote vago também dava acesso aos muros das casas dos meus melhores amigos: Bruno e Sandrinha. Eu sempre encontrava um ou outro e conversávamos por horas.... O assunto? Nem me lembro mais. Só me lembro que morríamos de medo do fim do mundo.

         Foi numa tarde de inverno que Camila morreu. Foi o dia mais frio do ano, e o céu estava cincento. Eu estava feliz,afinal, tinha encontrado uma moeda de cinquenta cruzeiros no caminho da escola. Eu brincava com um velotrol e atirava pedras em calangos, enquanto meu irmão e os outros meninos jogavam bola perto da calçada onde Camila dormia. Uma moto enlouquecida surgiu no início da rua, passou velozmente por todos e a atingiu. A gata correu para o lote vago. Todos interromperam a brincadeira e a seguiram. Lá estava ela, olhos arregalados de medo, sob uma árvore seca.
          Cena triste aquela, do ser amado se debatendo de morte.
        A levamos para casa e tentamos, inutilmente, reanimá-la, aspergindo-lhe água sobre a cabeça.
         Fizemos uma espécie de cortejo fúnebre para enterrá-la. Voltamos para o terreno baldio, perfuramos o chão com uma faca de pão, e no buraco raso depositamos o corpo morto do adorado felino.
        Dias depois, fui visitar seu túmulo: a terra não havia suportado seu  inchaço. O corpo, desprovido de todo veludo, estava exposto,  se desfazendo. Voltei ali todos os dias, como num ritual, e assiti , com gravidade, a todo o processo. Havia em meus lábios, um áspero gosto de fim.
       Durante muito tempo sonhei com Camila. Em meus devaneios noturnos ela aparecia e me olhava  de um jeito estranho. E o esquisito é que nos sonhos a aparição se dava justamente no lugar onde eu havia encontrado os cinquenta cruzeiros. Seria meu coração me avisando que dali para frente  minha vida sempre oscilaria nesse terrível contraponto  do  ganhar e do perder?

     Até hoje me lembro do cheiro do sabonte que estava em nosso banheiro no dia em que Camila morreu.

     Visitei um zoológico pela primeira vez quando tinha dezenove anos. Meus amigos estranharam quando eu disse que nunca havia estado ali antes, afinal, toda criança já fez semelhante visita pelo menos uma vez na vida.
    Eu sorri e me lembrei de Camila e dos outros bichos. Para quê ir ao zoológico, se ele está em casa, em nossa área de serviço?
      Não tive muitos amigos quando criança, mas tive gatos, cachorros, tartarugas... e para mim foi o suficiente.  
       Fui feliz.

terça-feira, janeiro 04, 2011

Briga de rua

A pedra veio voando em direção a minha  cara e acertou em cheio  minha boca, cuja rosada delicadeza destoava da robusta variedade de palavrões que ,constantemente ,dela nascia.
Cuspi: sangue e uma lasca de um dos dentes da frente.  Justamente um dos dentes da frente,  caralho.
Mato esses ordinários ,pensei. Filhos da puta.
Eram quatro irmãos: duas meninas e dois meninos.
Ficaram parados vendo a pedra voar até minha boca e arrebentá-la, com o peso de um muro todo inteiro.
Após o  cuspe devo ter feito cara de “lutador do bem com intenções de virar o jogo depois ter sido espancado”,  aquela expressão de ”isso não vai ficar assim”, com a clássica “limpadinha”,com as costas das mãos, da baba e do filete de sangue que escorrem no canto dos lábios.
Então, exibindo minha hipotética máscara de coragem, avancei sobre meus inimigos.
Os piores círculos do inferno me habitavam.
Meus punhos de metal exigiam frágeis narizes. Minha selvageria reinvindicava ossos quebrados na face alheia.
Fui atraída para um portão comido pela ferrugem. No beco, uma armadilha era perversamente engendrada.
Eles haviam sumido e fiquei olhando para o vazio impresso numa parede coberta de lodo. O capim, molhado pela última chuva, provocava coceira em meus pés descalços.
Súbito, o bote sorrateiro da irmã mais velha: seus dedos, vindos da puta-que-a pariu, se enroscaram  nas raízes dos meus cabelos e se fecharam, como a boca de uma planta carnívora.
Com força, ela bateu minha cabeça na parede suja. Uma, duas, três vezes.
Caí.
A dor tinha cheiro de lodo ,de capim molhado,  de terra e  sangue.
__ Ela morreu__ Alguém disse.
A irmã mais velha riu, como uma moira satisfeita.

sábado, dezembro 18, 2010

Assassinato na Rede



Ilusões deslizam
em cabos.
Mentira Virtual,
um eu diverso
me aniquila
numa página

Injustiça

Não é a gente que mata o tempo.
Ele é que é suicida.

quinta-feira, setembro 16, 2010

Ano versado



Naquele tempo
desfaleci sobre os traços
do desenho de teu corpo
recém inventado
pelo mestre das cores...

O que era eu?

Te vi nascer entre
voluptuosas curvas de nanquim,
preenchidas, nas ausências do tempo,
por matizes sonoros de sonhos.

O que era eu?

Trechos de azul disputando
teus espaços vazios
e o vermelho vivo do teu coração.

terça-feira, julho 20, 2010

Deserto

A tarde se fratura.
E o outono tem sempre
esse gosto de fim, que te aniquila.

O vento escuro suga tua alma
(aberta confusamente)
para a solidão das pedras frias: a matéria triste das montanhas.

Melancolias alcoólicas te povoam.

Bolhas de sonhos explodem no ventre
infecundo das estrelas.

Em vão, estendes os braços trágicos
a procura da alavanca que possa
frear o irreversivel.

Estás só, estática esfinge
sem enigma.

                                   Simone .T

segunda-feira, abril 26, 2010

Brincando com satélites


Você sonha comigo
Você sonha que estou
Encantando estrelas
Brincando com satélites
aprendendo esgrima em terreno lunar...

Forças estranhas me levam para longe...
Dançando entre asteroides.
Você chora como uma velha abandonada.

Cometas me arrastam pelo azul noturno...

Você sonha comigo
Você sonha que estou
Flutuando e queimando
Estilhaçando a lua com um grito.
Cavalgando estrelas
Encantando satélites
Pintando planetas no caos.

domingo, abril 25, 2010

Safo


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Princesas sáficas de cabelos roxos

Dançam ao redor da madeira

De velhos navios em chamas

Se beijam, bêbadas
Em louvor à Baco

Rajadas de flores verdes
Umedecem o coração do caos.
Borboletas aborrecidas
Sugam a inconstância do céu

Tua voz violenta toda dor
Veloz, como vagões em Gotann City

Eros, distraído, não me sabe infeliz

Por tua ausência
Se soubesse,
Choraria
Como cabelos de tempestade
Choram tristes perfumes.

terça-feira, abril 20, 2010

Você é virgem?!

Fui ao ginecologista.Exame de rotina anual. Aquele chato, cujo procedimento principal é o médico colocar uma coisa pontuda dentro da gente e tirar um pedacinho de célula.Além  disso, como a esperança é imortal, fui também, pela milhonésima vez, em busca de alguma solução para a sempre companheira tensão pré- menstrual.
Fiquei duas horas esperando o doutor.Quando ele chegou, iniciou o atendimento mais rápido da história da medicina: não ficava nem dois minutos com cada paciente. E eu tinha coisas pra contar, coisas tristes, tais como os monstros em que se transformam os pequenos problemas, nesses períodos mensais difíceis. E queria falar dos pesadelos, que me acordam no meio da noite, aos gritos desesperados, e comigo, toda a vizinhança. Queria falar também do medo absurdo do trânsito, dos amassados no carro, devido as crises de nervo injustificadas e repentinas durante as manobras, nessas épocas de revertério hormonal.E da falta de cor de todas as coisas.E da vontade, também injustificada, de me atirar na frente dos ônibus em movimento. Queria falar do meu coração, que palpita mais do que pode, e do sufoco que sinto e das explosoes de choro, e da vontade de virar eremita, e das brigas de novela mexicana que provoco.E de como me sinto um verme. E de como eu perco todo o valor que tenho e me sinto a pessoa mais triste do mundo, a mais sozinha, a mais desafortunada...
Mas dois minutos não seriam suficientes.Então ele me mandou entrar, me mandou tirar a roupa, me mandou deitar na maca, me mandou abrir as pernas e me mostrou minha vagina, em zoom 300%, numa tela de computador.Lá estava ela, vermelha, obscena, e gigantesca.Então pensei " aí está  a culpada dos meus crimes"... Vermelha, quente e bela. Vagina é o máximo.
Depois do choque do zoom 300% ele começou a me encher de perguntas. Vou reproduzir o diálogo, para dar um tom mais realista e dinâmico:

_O que te traz aqui?
_Rotina.E quero um remedinho pra TPM.
_TPM ou cólicas?
_ Eu sei a diferença.TPM mesmo, doutor.
_Já abortou?
_ Não.
_ Já engravidou?
_ Não.
_ Utiliza algum método anticoncepcional?
_ Não.
_ Tem vida sexual ativa?
_ Sim.
_ E como você faz pra não engravidar?
_ Não faço nada.
_ Por quê?
_ Porque o meu tipo de relação sexual não engravida.
_ E que tipo de relação seria esse?
_ Eu sou lésbica.

Até então o doutor tinha feito todas essas perguntas idiotas sem olhar para mim. Ele estava apaixonado pelo prontuário. Diante da minha resposta natural à sua pergunta imbecil, ele me olhou. E foi com perplexidade que me perguntou:
_ Então você é virgem?!
Eu ri. Ou melhor, caí na gargalhada. Saí daquela posição humilhante e me sentei na maca.
_ Doutor, se o que você chama de virgindade é uma mulher nunca ter sido penetrada por um pênis,pode ficar traquilo, pois não me enquadro  nessa categoria.Pode colocar, numa boa, essa coisa pontuda em mim,porque não vai arrebentar o meu hímen.Mas acho que seu conceito de virgindade é bem pobrezinho, né não?
Ele não aprendeu a lição. Continou fazendo perguntas burras:
_ Peraí, não tô entendendo.. Você namora?
_ Namoro a mesma garota há 4 anos.
_ e quando você descobriu que não queria mais homens....
_ Aff,vai estudar psicanálise!
E, por fim, depois daquela coisa pontuda me machucando, e da overdose de machismo e burrice, ainda me receitou um medicamento para TPM que não existia mais no mercado.

quinta-feira, abril 01, 2010

40 graus

Sulfúrica, ela rasteja
por ruínas de escuros tons.
A acidez que evoca, pranto inconsolável de crianças mortas.
A fome
As bombas
As batalhas

Queimando...

Enquanto o mundo trepida
matando de náusea
tripulantes de estômagos sensíveis.

Rasuras de sonhos


Queria agora estar sonhando
com um retorno feliz para casa( a nossa)
onde eu te encontraria debruçada
sobre rasuras de sonhos
gentilmente lapidados.
E tu me imprimirias
mais uma vez o teu sorriso,
o qual eu cuidadosamente sorveria
enfeitiçada por trilha sonora de chuva
e perversidades úmidas de luas escuras e mortas.

sexta-feira, janeiro 23, 2009

Pessimismo e monstruosidades mentais


Cena I

Acordo tarde, quase meio dia, acho, sol da porra, da puta que pariu, quentura do inferno, calor de agosto, pesado e sinistro como só agosto, gosto de sangue na boca dormida, me deram um soco, num sonho, nem sei quem foi o filho da puta que me arrebentou os dentes, nem dá pra sonhar de novo e quebrar-lhe o nariz, caralho, é que mordi a língua enquanto gritava palavras sem nexo pra uma multidão suja e feia, noutro sonho encardido e, que bosta, cagaram e não deram descarga, e a merda fica boiando, me olhando com cara de bosta, me interrogando, o que custa apertar um botão pra merda ir pra puta que a pariu, pras profundas do esgoto, que é o lugar dela, mas não, não fizeram o favor, e tenho de olhar pra isso logo no começo, deve dar azar, começar o dia olhando pro cocô alheio, eu creio, o espelho, ah, o espelho sincero e exato, desgraçado, minha cara amarrotada e esses olhos tristes com detalhes “Mortiça Adams” ao redor dos cílios, cabelo indescritível e, ah. Porra, essa água azeda no estômago, porra, porra, porra.

Cena II

Os sons, o silêncio, os sons do silêncio, tudo me incomoda, hoje, estar viva me incomoda, atravesso a rua, carros, motocicletas do capeta, e essas coisas monstruosas chamadas ônibus, essa piranha gorda bem que podia andar mais rápido, fica empacando minha vida, agora está estacionada na calçada, olhando para três frangos assados nojentos e gordos que nem ela, da boca da putona escorre saliva, cadela, porca, dá licença dona, digo, mas queria era socar até matar aquela cara obesa de prostituta do lar e enfiar no rabo dela um frango assado inteiro, dá licença, dona, repito, ela sai da frente e me olha com cara de cu e passo, marcho para o inferno, resignada, o supermercado, cheio, é quase o fim, o fim de semana e o fim da linha, ah, briga na fila do caixa, sei lá por que, tomara que se matem, os infelizes, um filho da puta chuta minha cerveja,ah, tudo tão pesado, as compras , o dia, coloquei as latas no chão pra descansar os braços e um cuzão cego chuta minha cerveja, as latinhas deslizam, deslizam, como uma patinadora desengonçada e param perto dos sacos de arroz. Não falo nada, filho da puta, corno, vai tomar no cu, quase grito.

Cena III

Menor, insignificante, e essa porra de água azeda no estômago, ah, quero vomitar a vida , em golfadas fortes e obscenas, vomitar meu medo da morte, minha covardia, meus fracassos, minhas raras e rasas alegrias, meus amores intensos e doídos, quero vomitar a podridão que me espera, todos os desprazeres, os esforços em vão, os meus sonhos mais belos e ingênuos, essa luz toda, toda essa luz(dor de cabeça!), esse barulho insuportável de silêncio, a vida, essa coisa gordurosa.
Que náusea, tomar no cu, que náusea,
Poesia? Sempre vai ter a merda boiando na privada. Eu desisto.

quarta-feira, janeiro 21, 2009

Hormônios colidindo com estrelas


Ao passar uma temporada de extase no inferno, Rimbaud, o alquimista das palavras delirantes, proferiu: " Sei hoje saudar a beleza".O saber exige aprendizado, processo, ainda mais quando se trata de algo que diz respeito à sensibilização do olhar, à abertura dos poros,à educação dos ouvidos.Vemos o "Belo".O tocamos às vezes. O ouvimos.Uma sinfonia, uma tela expressonista, uma pétala orvalhada na moldura triste de uma manha fria de inverno...Imagens e sons. Tato. Olfato. Audição.
Saudar: tirar o chapéu, reverenciar, acenar com as mãos.Não quero mais o desespero dessa limitação.
Com ela, me acostumei a colocar a beleza em minha boca, mordê-la de leve, como quem espreme entre os lábios uma borboleta, numa atmosfera absurda. Prefiro que a beleza possua meu corpo,a começar pelo nariz, violentado por perfumes singulares, tais como adocicados cheiros de fios de cabelos cor- de ouro e de seios ardendo de desejo.Os seus perfumes singulares. Que provocam a fúria de minha delicada voracidade.Uma vez, numa mesa de bar, rabisquei para ela, num pedaço amassado de papel, umas palavras que diziam que eu tinha me tornado uma incompetente poeta, uma vez que ela tinha substituido a poesia em minha vida, por ser a minha fuga de todos os clichês e meu salto para fora de todas as convençôes.Todo poeta vive assim:Remexendo um caldeirão repleto de poções mágicas em busca de versos que cantem uma melodia diferente. Uma melodia digna de saudaçoes. O poeta quer fazer a palavra cantar. O poeta que tornar a beleza audível, visível, tocável.Mas chega o momento decisivo, de insustetável sofrimento: é quando o poeta deseja comer a beleza. Se cansa do velho caldeirão e começa a mastigar pétalas, beber as águas das chuvas, devora, literalmente, paginas inteiras de poesia. E o sofrimento reside justamente no fato de nem as flores, nem as águas, nem os livros de poemas poderem retribuir seu amor. O poeta deseja e ama sozinho. Eis a sua tragédia. Muitas vezes é tão imensurável seu desespero que a vida já não basta. E ele decide morrer.
Passei minha vida remexendo o tal caldeirão.Mas, como rabisquei naquele papel pardo, há alguns anos, isso não faz mais sentido.
Ela enche meus olhos de luzes mágicas, de cores impossíveis, de delicadezas de gestos, de sinuosidades deliciosas entre lencóis, de movimentos sutis de lábios molhados entreabertos, da lascívia magnífica de dedos deslizando em meio às pernas, seios, boca que me nutre.Ela transborda meus ouvidos de sons de hormônios colidindo com estrelas e astros e nuvens de tempestades e harmonias inquietantes em espaços oníricos onde escorre lava.Ela enche minhas mãos de curvas, onde me perco por instantes, para , em seguida, nos encontrarmos, exaustas de amor .Ela é a minha mais incrível "experiência" poética.
Aprendi a devorar a beleza.

terça-feira, janeiro 20, 2009

Era uma vez um pássaro delicado
cujo voo surpreendente
resultou
em queda triunfal
nas armadilhas dos meu lençóis.

sábado, julho 12, 2008

Telescópio (Alucinação simples II)


Meu sonho:
Era uma lua de...
O tempo.
O planeta do gigante azulado.
Anéis de cristais de gelo e poeira girando ao redor do equador...
As luas de cada um.
Uma foto batida
De belo tom azul esverdeado.

O companheiro temporão percorre o segredo agora.
O pequeno corpo gasoso e gigante...
Treze olhos, uma órbita.
Plutão, Saturno, Júpiter. Antes.
Depois: um banho de cigarros e
Você, meu pecado especial.
A terra jamais foi semelhante.