sexta-feira, maio 29, 2015

Domingo

Ela me diz
que estou tão triste
porque viu
em cada olho meu
uma antiga umidade.

Revisito velhos discos.
Há canções que ecoam
sempre que a morte atravessa o jardim.

Minha tristeza
é de quem acaba
de voltar de um funeral.

Com a mão direita
seguro uma estrela partida.
Seus estilhaços se afundam
em minha carne.

( de que vale um punho fechado quando está sangrando?)
Na mão esquerda
trago uma rosa morta.
A escuridão de seu corpo
avança para o meu coração.

Inércia

Inércia 
é também
movimento infinito
Voar para sempre
retilínea
uniforme
ou até que
um corpo me ampare
ou até
que me arrebente a parede.
Ação, reação
e uma sinfonia
para o amor mais destrutivo.
Um lamento
e um blue
para o potencial
explosivo de todo amor
que começa com metáforas.

Poeminha safadinho

Para 
saciar
saudade
siririca
sem-vergonha.
Fabulosa felina
arranha o caos
engole a lua
e sonha.

Alparazolam

Meu coração
é uma cripta.
Aqui não chegarão
vozes de aquém.
Silêncio é luxo
só gente morta tem.

Meu coração
é um bunker.
As bombas
ficaram do lado
de fora,

Para dor no peito
nitroglicerina.
Para dilacerar-se
em espetacular explosão
idem.

Ambiguidade sulfúrica
Disfarçada
com a cor
e a textura
do mel.

Mas meu coração é uma cripta.
O amor ficou
do lado
de fora.
Pronunciei
meu nome
para o grande espelho
da sala de espera.
O Som
retornou em eco
Como se eu estivesse
à beira do vazio

Esperar Saturno

Enquanto esperava Saturno
Colei mil vezes meu coração
A Solidão hospedada em meu útero

Enquanto esperava Saturno
Colhia amoras
nos intervalos da dores

Enquanto esperava Saturno
Decorei a Primeira Elegia
A Solidão alargando os espaços
por dentro
A Lua sangrava através do meu corpo

Esperei Saturno
com livros nas mãos:
"Tulipas são perigosas", eles sussurravam
"Flores que falam não dizem nada
além de mentiras"

Enquanto esperava Saturno
me masturbava
Colhendo Luas nos intervalos das dores
Amoras sangravam através do meu corpo

E quando Saturno voltou
Explodi, sem pesar,
meu triste museu de sarcófagos.

sexta-feira, setembro 12, 2014

Lugar

Aqui
onde foi abolido
o hímen
úmido hífen
que nos separava.

Aqui
onde a língua é dinâmica
e dedos são talheres.

Aqui
onde o grelo
destrona o falo:
É rijo
É  lindo
É talo.

Anoitecer

Tecer o amor.
Depois tecer
a dor
de o amor ter sido.

Amortecer a queda.

Amor só é suave
na subida: canção de harpa.

O inverso
é farpa.

quarta-feira, setembro 03, 2014

Fear of the dark

Aqui tão escuro. E veio um vento ventilhando pedrinhas e gravetos, arremessando-os contra a janela de madeira. Ainda é madrugada, falta muito pra amanhecer?
Agarrada à saia do vento veio a chuva, chufininha, umedecendo. Se eu fosse raiz fincada em solo fértil brotaria como brotou aquele pé-de-mamão num túmulo do cemitério de Justinópolis. Os frutos nasciam aos pares, sempre. Pendiam como os tristes testículos de um deus. Pendiam, como os peitos caídos da terceira idade.
Testículos e peitos que os coveiros comiam.

Uma anedota

Dizem que um morto enterrado no cemitério de Justinópolis foi condenado por algum ser inefável a continuar enxergando para sempre. Por isso de seu túmulo feioso nasceu uma robusta jabuticabeira. Cada Jabuticaba, pasmem, era um olho.
Ai que medo.
A rotina do cemitério era aquela pasmaceira, nem um pouco interessante de  ver: abre buraco, fecha buraco; entra cortejo, padre rezando, dentadura escapando.
Assim, assim.
Ai meu deus.

Numa manhã esquizofônica em que bem-te-vis cantavam nos intervalos dos ruídos de uma britadeira, um casal depositava flores no túmulo vizinho do condenado, enquanto tentavam, a seu modo, se comunicar com a morta recente e querida.
O defunto dos mil olhos de jabuticaba morria ( ha!) de inveja de situações desse tipo. Ninguém o visitava, coitado. Não era digno de rosas. Teve vontade de gritar: “Também quero uma flor!”.
Mas fora condenado a ter olhos e não bocas.
O casal se sentiu observado.
Ai que medo.
Ai meu deus.

Vez em quando um coveiro ia até a frondosa árvore carregada de frutinhas brilhantes, arrancava um punhado delas e chupava, com gosto.
O defunto morria (ops!) de ódio.
“Vá chupar o olho do  cu da vó”
Queria gritar.
Mas fora condenado a ter olhos e não bocas.

Um pô, Emma! em homenagem a anedota que inventei:

Aqui jaz.
Aqui, jamais.
Aqui
apenas
jabuticarás.

Bruce Dickinson e Emily Dickinson não eram casados, oh meu sonho. Eles nasceram em séculos diferentes oh, meu cérebro. Além do que ela era tão branca voz da solidão e ele tão fear of the dark.

Fear of the dark!

Fear of the dark!

Dá certo não.

       Já vai amanhecer?
            Sei não.
O vento continua arremessando na janela os destroços das coisas.
E eu aqui.

Louquinha, louquinha de pedra lascada.

segunda-feira, agosto 18, 2014

O que o lixo me deu


Eu era Criança-Menina
Um Pássaro Sujo 
e com fome

E o lixo me deu
certa vez
um saco repleto de livros;
uns bonecos tristes e mutilados
e um caderno velho de poemas

que eu lia pros gatos;
que eu lia pra lua
que eu lia na rua
quando lá não havia ninguém.

E o lixo me deu outras coisas:
porque lá atiravam
pneus em chamas
então o lixo me deu minha primeira queimadura;

porque lá atiravam cacos de vidro
então o lixo me deu meus primeiros ferimentos;

porque lá atiravam animais que morriam
então o lixo me deu o cheiro podre
do corpo sem alma.

O lixo me deu
certa vez
uma caixa com muitas memórias dos outros:
cartões com figuras em alto-relevo
que guardavam mensagens de desejos de felicidades eternas;
cartas para um amor distante;
pequenas anotações ordinárias;
fotografias em sépia.

O lixo meu deu
misturada a cor amarela daqueles papéis
uma miséria que era maior que a miséria
que eu tinha,
e eu senti com força
a força de toda saudade do que não existia
e um gosto
de tempo
de resto
e ruína.

Eu era uma Criança-Menina.
Eu era a Menina Encardida
que ninguém queria amar.

Eu lia poemas pros gatos;
eu lia poemas pra lua;
eu lia poemas na rua
quando lá não havia
ninguém.

quinta-feira, agosto 14, 2014

Refrão para um blue



Sonhei que tinha perdido uma caixinha vermelha, com algo valioso dentro.
A pessoa que eu mais amava no mundo brigou comigo e, em seguida, me deixou.
A caixinha vermelha com algo valioso dentro não era aquela que guarda minha gaita.
A caixinha vermelha era meu coração.

Refrão para uma manhã chuvosa

Amor que grita
e ninguém escuta

Amor que abre
a ferida oculta

Amor que morre
e ninguém sepulta

quarta-feira, julho 30, 2014

Balada para uma estrela partida


Se uma estrela se partisse
em minhas mãos,

cortariam os meus dedos
seus pedaços?

Estilhaços são estilhaços...

E se a lua arrebentar
há dor também

Como toda dor
fincada em cacos:

1- do copo
que continha o leite derramado;

2-do anel que tu me deste
( o que era vidro)

3- do amor que tu mentias.

sexta-feira, junho 27, 2014

Sem título

Hoje acordei me contorcendo de cólicas, chamando por Raquel.Mas ela já tinha ido embora e eu já sabia disso, porque ela sempre sai antes de mim. Mesmo assim, eu fingi que não e percorri todo o apartamento repetindo o nome dela.
Aí foi a hora da madeleine mergulhada no chá: o cheiro e o frio de uma outra manhã entraram pelas janelas. Era 1986, acho. Eu tinha 5 anos. Me lembro de ter acordado e de ter notado a ausência de minha mãe. Percorri todo o barraco ( que para mim era enorme, por causa do meu tamanho e tinha ficado maior porque ela não estava lá)
Acordei meu irmão. Contei pra ele sobre meu desespero. Não sei qual de nós dois teve a ideia de sair a procura da mãe pelas ruas do bairro.
Saímos. De mãos dadas ( acho que foi a única vez em nossas vidas que andamos assim: depois disso nossos punhos sempre estiveram fechados: ele para bater e eu para redobrar a força da defesa)
Meu irmão era também cabeludo. Tinha cabelos lisos, como os de minha mãe. Os meus eram Black Power, como os de meu pai.
Não andamos nem um quarteirão assim, descabelados, cheios de meleca no nariz e desamparados: na primeira esquina nos encontramos com ela, que tinha saído pra comprar pão.
Brigou com a gente, não entendeu a nossa solidão.
Tirou as melecas dos nossos narizes, fez uma trança nos meus cabelos.
Retornamos, os três, de mãos dadas, para casa.

terça-feira, junho 24, 2014

Desordem

Porque ela passou 
por aqui
dentro de mim tudo é
desordem.

Porque ela passou
por aqui
-Estação de loucura-

não há temperatura
em que eu não seja febre

não há voz
em que eu não seja
grito

Porque ela passou
por aqui

há apenas
a dor
da pele
cortada à volúpia.

sexta-feira, junho 06, 2014

Blue para a lâmina das horas


A mãe dormia
de boca aberta
quase toda vestida de tempo.

A pele do corpo inteiro 
cortada: a lâmina das horas.

Bem de perto
as linhas do rosto formam um mapa.
De dentro dele
o desenho de uma palavra,
pedra não lapidada,
escapa:

-Órfã!

A palavra-pedra pulsa.


Escorro pelas fendas da noite
comendo a cor amarela
das lâmpadas dos postes
das ruas em outono,

ruminando
a memória entranhada
num viaduto
numa árvore
numa esquina
num muro

Essa infância triste
misturada a ladrilhos.

Mas a pedra ainda pulsa
A ineficácia das fugas.

Ao redor
a música dos ponteiros
imita
a ameaça da bomba.

quarta-feira, junho 04, 2014

O pé, a cruz, o prego

O pé, a cruz, o prego

Era eu 
e uma grande ferida.
Estávamos em posição de combate.
Ela funda e vermelha
obstinada inflamação
no pé esquerdo
da mãe envelhecida

A ferida tinha a força
de tudo o que continua

Eu tinha
uma garrafa de soro
um pacote de esparadrapos
um rolo de ataduras

e um amor feroz
mais fundo do
que tudo  o que  parece
nunca mais
ter
fim.

Cio

Ela é toda
tão felina
quando a pele inflama
alisa, alisa
o corpo inteiro
depois
arranha

segunda-feira, maio 05, 2014

Pequena crônica sobre a impotência



Era um cachorro preto, vira-latas, de porte médio.
Alguém, num infeliz rito de crueldade, tinha lhe arrancado quase todos os pelos do corpo e todas as camadas de pele que existiam entre pelo e carne.
O encontrei numa esquina escura, em certa madrugada em que eu também sofria pequenas mutilações. Simbólicas, é preciso dizer.
Ele estava de pé, como quem resiste. Mas olhos de cão não foram treinados para esconder tristeza e dor.
Olhou para mim pedindo socorro.
Me aproximei e, com delicadeza e revolta, toquei sua carne exposta e maltratada.
Eu nunca saberia lidar com uma ferida tão grande como aquela.

terça-feira, abril 01, 2014

Flores que já secaram

Hoje, antes de sair para o trabalho, passei nos cabelos uma loção anti-frizz que tinha cheiro de flores mortas.
Me lembrei, enquanto me olhava no espelho e registrava o nascimento de mais uma marca de expressão, de meus diários juvenis, cujas páginas exalavam o mesmo perfume: eu costumava depositar entre elas flores inteiras, as quais eram esmagadas quando meus segredos se fechavam, sufocando-as. Dias depois a flor despetalada e seca impregnava de um odor triste de saudade meus rabiscos quase ilegíveis.
Anos antes, tinha sido a época das tardes no cemitério. Brincávamos, nos escondendo atrás de túmulos, conversávamos com o coveiro, enquanto ele abria a boca vermelha da terra e ficávamos silenciosos e graves nas horas de enterro. Eram tardes de sol forte. Pisávamos em cima da morte, ríamos de sua pretensão de sempre nos roubar alegria.
Em todo aquele grande terreno, sobre cada demarcação, no ar que por ali circulava, predominava o cheiro das flores fenecidas. ( Desconfio de que minha melancolia atual tenha nascido ali. Tenho quase certeza de que ela tem a ver com o cheiro das flores mortas).
Eu tinha quase 30 anos quando o pai morreu.
Foi uma madrugada estranha aquela, em que me afastei demasiado da sala de velório e fiquei caminhando em círculos sobre lápides, como se quisesse rir da morte outra vez.
Mas eu não podia.
Ao amanhecer o pai continuava morto e as flores que enfeitavam seu peito gelado já haviam secado.
E o cheiro estava lá, devorando todas as coisas.