domingo, junho 26, 2011
quarta-feira, junho 22, 2011
O monstro do armário
Ainda não me acostumei a sangramentos. Me lembro do susto de minha primeira menstruação: acredito que não fui a única menina do mundo que achou que ia morrer em segundos, ou que, incoerentemente, pensou ao mesmo tempo que a morte poderia ser lenta e dolorosa, com todo o sangue de meu corpo saindo em jatos pequenos, porém significantes, de minha boceta perplexa. Se falava tanto em menstruação na escola, mas eu sempre imaginava que aquilo era para as outras mulheres, não para mim. Como quando a gente pensa que só os outros morrem de câncer, eu jamais. Meio isso.
Hoje cortei meu pulso com o espelho do armário. Foi bem cedinho, antes de sair pra Faculdade. O espelho estava meio embaçado, minha imagem parecia a de um fantasma, ou a de uma estranha de olheiras, aprisionada na neblina. Resolvi passar um paninho nele, pra ver se melhorava o aspecto da coisa e, consequentemente, meu aspecto também. Enquanto eu fazia isso, não percebi que um parafusinho se soltou, o espelho ficou bambo, e na hora que me abaixei para amarrar meu tênis, ele veio todo sobre minha cabeça. Só não rachei o côco, porque o protegi heroicamente com minha mão direita. Uma das pontas do espelho penetrou meu pulso. Saiu sangue. Muito.
È claro eu fiquei a manhã inteira me sentido ofendida. Como se tivesse levado uma surra injustamente.
Papai não estava em casa, viajou ontem à noite com a orquestra sinfônica. Só fiquei sabendo disso porque, na hora do acidente, corri pro quarto dele e constatei decepcionada, que o violino não estava lá. Depois de ter cuidado, eu mesma, de meu ferimento, soube formalmente, através de um bilhete de geladeira, que ele iria passar o fim de semana todo fora, fazendo apresentações em cidadezinhas interioranas.
Às vezes sinto falta de uma mãe. Mas a minha parecia meio louca, então talvez seja melhor não ter uma mesmo. No meu quarto tem uma foto dela e de papai juntos: foi tirada na noite em que me fizeram. Eles nem se conheciam e nem se conheceram depois. Explico-me: minha mãe era uma ativista do movimento feminista. Detestava homens. Só queria um filho, ou melhor, uma filha, no entanto era pobre para ter acesso a essas modernidades da medicina, tipo inseminação artificial e tal, então precisava de um homem bonito para executar seus planos. Ficou sabendo, através de amigas intelectuais como ela, que na orquestra sinfônica tinha um tal de Robson, rapaz de 19 anos, corpo atlético, excelente músico e com cara de bobo inteligente. Minha mãe se interessou. No dia da grande apresentação da orquestra, seduziu meu pai e engravidou de mim. Quando eu nasci, meu pai até tentou aproximação, mas minha mãe era muito arredia e não queria mesmo saber dos homens. Só que morreu meses depois e minha avó, mãe da minha mãe, que era também muito pobre e já tinha mais de 70 anos, procurou meu pai e me deixou com ele.
Na foto tirada no dia em que fui feita, minha mãe aparece com uma camiseta surrada, calças jeans também surradas, cabelo muito curto e vermelho e os olhos que herdei, cinzentos como os dos cães do gelo. Meu pai, de violino na mão, sorri para a câmera, seu sorriso de bobo inteligente. Os olhos dele sempre me pareceram trechos curtos de uma floresta antiga, tão verdes, como são, em meus pensamentos, as sinfonias que ele tocava para me fazer dormir, quando eu era apenas uma coisa careca e sem dentes, cheia de medo do mundo.
Vinte anos depois, aqui estou com bastante cabelo vermelho na cabeça. Cabeleira que corto periodicamente, porque detesto ficar parecendo crente, com cabelão na cintura me incomodando no calor. Além dos olhos cinzentos e do gosto por cabelos curtos, ainda herdei de minha mãe louca uma pele muito branca, quase transparente. Não me pareço nada com meu pai. Talvez eu tenha também uma cara de boba inteligente, mas pode ser a convivência. Há entre nós uma semelhança, mas não física: assim, como ele, adoro música. Ele queria que eu tocasse piano, mas há uns bons anos atrás, me apaixonei pelo sax. Então essa semelhança acabou se tornando um contraponto entre nós: meu pai clássico, eu totalmente pop.
Mas convivemos bem com essa semelhança / diferença. Às vezes ele toca no quarto dele, solitário, suas notas melancólicas, em seu violino impecavelmente afinado; e eu, também toco no meu quarto, meu saxofone apaixonado, soprando as notas para seu interior, como se a musica nascesse de dentro de mim e provocasse tamanha inquietude e assombro, que eu precisasse expeli-la, para dentro de outro ser, de preferência inanimado, que não estivesse em constante perigo de explosão, como eu.
Meu pai anda estranho ultimamente. Me disse que tem algo para me contar, mas está cheio de rodeios. Disse que me ama muito e que está com medo do efeito que o que ele vai falar poderá provocar. Mas tudo bem. Ele sempre foi meio excêntrico mesmo. Não acredito que seja nada demais. Só me resta esperar.
Gosto muito de andar de metrô nesse horário. È vazio, dá pra ir sentada, dá pra olhar pela janela e pensar na vida, enquanto as imagens se despedaçam lá fora. Gosto muito também desses dias nublados e frios. Nem parece que estou nos trópicos. Devo ter a alma européia.
As pessoas devem estar achando que sou uma suicida. Não é agradável ficar circulando por aí com esse curativo no pulso. Na faculdade me encheram o saco, ficaram me perguntando o que houve comigo, e mesmo eu tendo de repetir a historia um milhão de vezes, parecia que eu estava inventando. Os colegas não pareciam convencidos. Alguns idiotas me disseram que ando lendo Cioran demais e que isso pode não estar me fazendo bem. Acho Cioran pesado, o máximo de pessimismo que consigo suportar é Schopenhauer. Na verdade, aqueles babacas só falaram de Cioran pra dizer que são cultos e que são os nerds da Filosofia. Ai que preguiça.
Aquele espelho desabando na minha cabeça hoje de manhã acabou azedando bastante o meu humor. E a Faculdade também. E as pessoas de lá. E as paredes da biblioteca, entre as quais fui obrigada a devorar páginas e páginas sobre Platão, nos dois primeiros horários, para dar conta de uma prova indigesta nos dois últimos.
Ainda bem que estou aqui, no metrô, longe de lá. O ferimento dói ainda. Fisgadas.
E meu grande problema hoje não é apenas essa dor. O meu grande problema hoje é que essa dor me fez lembrar de outra, que tenho tentado anestesiar em vão, há anos...
Hoje acordei pensado em Cláudia. Febrilmente. E posso garantir que isso dói mais que um pulso cortado. Não cicatriza, nessa ferida não nasce casca. Ela foi embora há quatro anos e me engano, sei que me engano, quando acho que a esqueci, depois de uma noite com algum cara idiota, depois de algum porre universitário, depois de me enclausurar por horas em bibliotecas ou no meu quarto, escrevendo artigos e mais artigos acadêmicos. Como uma mulher pôde espalhar tantos rastros de pólvora assim em minha vida tão pacata de colegial? Por que sucumbi diante de seu olhar letal e de seu corpo moreno que massacrava o meu em nossas mais úmidas tardes, quando nos pedíamos sem trégua, e nos dávamos, tremendo de medo e de tesão, nos labirintos dos meus lençóis amarrotados? Não houve garotas depois dela. Alguns garotos esporádicos, nas festas de faculdade. Eles me fazem, momentaneamente, me livrar de mim. Como alguém, que, em horas alcoólicas, acha que é feliz, mas depois, no dia seguinte, é obrigado a enfrentar a ressaca, ácida, como o vômito que se despeja na privada.
Que espécie de encantamento havia naquela saliva morna que me untava o corpo, que se misturava aos calores lascivos de minha boceta molhada?
Dói. Mais do que um pulso ferido por um espelho embaçado que faz com que eu me sinta, ao me ver refletida, como alguém que já morreu, cujo fantasma acena tristemente através da cerração.
Eu tinha 15 anos. Era uma palestra, na escola, sobre a poesia lírica. Eu olhava, fascinada para a palestrante, que lia efusivos versos líricos de poetas renomados. Foi quando Cláudia entrou no auditório. Era a primeira vez que eu a via.
Mas, por Deus...
Ainda não me acostumei aos sangramentos...
( continua...)
( continua...)
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O monstro do armário
sexta-feira, junho 17, 2011
domingo, maio 22, 2011
Macumba on-line
Faltam dez minutos para as 8 horas da manhã. Como acontece todos os dias, reduzo a marcha na Bahia com Contorno: paro o carro lentamente diante da imposição vermelha do semáforo à frente. Nunca passo direto por esse cruzamento.
Aqui, todas as manhãs, coleciono desgraças. Desgraças dos outros, o que não é bom, mas, em todo caso, seria pior se fossem minhas.
Explico-me: é que o trecho é local de trabalho de pelo menos três vendedores de jornais sensacionalistas, desses que todo mundo lê nos ônibus e no metrô, a caminho do trabalho, a fim de se inteirar sobre as desgraças do dia. Então é sempre assim: levanto os olhos e leio: “ESFOLADA VIVA”, ou, “ESTUPRADA, ESFAQUEADA E ABANDONADA EM MATAGAL” e ainda: “MATOU NAMORADA E PULOU DO PRÉDIO”, tudo isso grafado na mais sanguinea caixa alta, certamente para despertar nosso animal interior, ou talvez para aguçar nossa fome predatória, o nosso tão paradoxal fascínio pela violência.
Já cheguei ao ponto de fechar os olhos, nesse momento de parada obrigatória, e imaginar qual seria o infortúnio ou a catástrofe do dia. Então fico inventando os mais grotescos crimes e resumindo-os em manchetes; desço ao mais torpe instinto violento de que o ser humano é capaz e redijo sórdidas notícias mentais. Enfim, abro os olhos e, antes de arrancar, constato alarmada, que a vida real é muito mais terrível. Sim, a vida real é muito, muito mais terrível.
Depois de 20 minutos tentando estacionar, chego ao trabalho. E, de novo, o jornalzinho mais lido pelos belo horizontinos me persegue. Dessa vez acontece assim: surpreendo o vigia às gargalhadas, com um exemplar nas mãos. Ele ri e alterna seus quase soluços com a palavra “estúpida”. É lógico que fico praticamente morta de curiosidade, e quero rir também, porque, como é de conhecimento de todos, rir faz bem, assim como cantar, para espantar nossos males. (Risadas, cantoria e quem sabe, de quando em vez, uma fumacinha cheirosa de incenso, nos ambientes mais pesados).
Ele estende uma das mãos para mim (a outra se ocupa em desfazer as lágrimas resultantes do momento feliz). Na mão estendida está o tal jornalzinho e lá, num pedacinho de umas das páginas, a notícia que provocara a crise de riso.
Não chegava a ser uma desgraça. Na verdade, era uma quase desgraça. Eis a manchete: “NOIVA TENTA SE MATAR, MAS VESTIDO NÃO DEIXA”.
Foi assim que as coisas aconteceram, segundo o jornal: uma moça chinesa, de 22 anos, tinha um noivo, ao qual devia amar muito. Mas, como tudo nessa vida é fugaz, o romance entre os dois acabou. A pobre coitada já tinha até comprado a indumentária para o casamento, um belíssimo vestido de noiva, com o qual, numa atitude de desespero e revolta, se fantasiou e saltou para a morte, partindo do sétimo andar de um prédio. Só que o vestido dela ficou pendurado nas grades da janela e a chinesinha ficou pendurada junto. Após isso foi resgatada com sucesso, não sem chamar a atenção dos transeuntes, que estavam lá embaixo rindo muito, filmando e fotografando tudo.
Minha primeira reação foi rir descaradamente. “Que corpo leve!”, pensei. “Que tecido resistente!”, repensei. “Que estúpida”. Concluí.
E, de repente, parei de rir. É que olhando bem para a fotografia que acompanhava a notícia, quase descobri um mistério; alguma coisa obtusa estava ali, tentando me seduzir. Então me dei conta de que aquela mulher de vestido esvoaçante pendurada numa janela transubstanciara-se em rosa recém brotada milagrosamente do concreto, sob um sol oriental. Flor selvagem, suicida, pendendo para o vazio. Ela resplandecia, flutuando , trágica, no fracasso de sua quase queda.
Eu juro que não queria pensar sobre o futuro da rosa. Já seria demasiado triste refletir sobre sua solidão passada. Pior ainda pensar na dor que virá.
Mas,no fim do dia,tal pensamento se impôs. Ao ligar o computador me deparei com o seguinte anúncio: “Macumba on-line, experimente!” Adeus, ó aventura- da galinha- preta- com cachaça- e vela vermelha- na encruzilhada- meia-noite! O lado bom da coisa foi pensar nas repercussões positivas dessa “revolução tecnológica” no futuro da moça chinesa que, depois de muito sangrar, provavelmente metamorfosear-se-á em pétala vingativa.Se tal momento triunfante chegar, suas delicadas mãos de porcelana não precisarão nem costurar a gosmenta boca do sapo.
Bastará um clic no mouse.
Aqui, todas as manhãs, coleciono desgraças. Desgraças dos outros, o que não é bom, mas, em todo caso, seria pior se fossem minhas.
Explico-me: é que o trecho é local de trabalho de pelo menos três vendedores de jornais sensacionalistas, desses que todo mundo lê nos ônibus e no metrô, a caminho do trabalho, a fim de se inteirar sobre as desgraças do dia. Então é sempre assim: levanto os olhos e leio: “ESFOLADA VIVA”, ou, “ESTUPRADA, ESFAQUEADA E ABANDONADA EM MATAGAL” e ainda: “MATOU NAMORADA E PULOU DO PRÉDIO”, tudo isso grafado na mais sanguinea caixa alta, certamente para despertar nosso animal interior, ou talvez para aguçar nossa fome predatória, o nosso tão paradoxal fascínio pela violência.
Já cheguei ao ponto de fechar os olhos, nesse momento de parada obrigatória, e imaginar qual seria o infortúnio ou a catástrofe do dia. Então fico inventando os mais grotescos crimes e resumindo-os em manchetes; desço ao mais torpe instinto violento de que o ser humano é capaz e redijo sórdidas notícias mentais. Enfim, abro os olhos e, antes de arrancar, constato alarmada, que a vida real é muito mais terrível. Sim, a vida real é muito, muito mais terrível.
Depois de 20 minutos tentando estacionar, chego ao trabalho. E, de novo, o jornalzinho mais lido pelos belo horizontinos me persegue. Dessa vez acontece assim: surpreendo o vigia às gargalhadas, com um exemplar nas mãos. Ele ri e alterna seus quase soluços com a palavra “estúpida”. É lógico que fico praticamente morta de curiosidade, e quero rir também, porque, como é de conhecimento de todos, rir faz bem, assim como cantar, para espantar nossos males. (Risadas, cantoria e quem sabe, de quando em vez, uma fumacinha cheirosa de incenso, nos ambientes mais pesados).
Ele estende uma das mãos para mim (a outra se ocupa em desfazer as lágrimas resultantes do momento feliz). Na mão estendida está o tal jornalzinho e lá, num pedacinho de umas das páginas, a notícia que provocara a crise de riso.
Não chegava a ser uma desgraça. Na verdade, era uma quase desgraça. Eis a manchete: “NOIVA TENTA SE MATAR, MAS VESTIDO NÃO DEIXA”.
Foi assim que as coisas aconteceram, segundo o jornal: uma moça chinesa, de 22 anos, tinha um noivo, ao qual devia amar muito. Mas, como tudo nessa vida é fugaz, o romance entre os dois acabou. A pobre coitada já tinha até comprado a indumentária para o casamento, um belíssimo vestido de noiva, com o qual, numa atitude de desespero e revolta, se fantasiou e saltou para a morte, partindo do sétimo andar de um prédio. Só que o vestido dela ficou pendurado nas grades da janela e a chinesinha ficou pendurada junto. Após isso foi resgatada com sucesso, não sem chamar a atenção dos transeuntes, que estavam lá embaixo rindo muito, filmando e fotografando tudo.
Minha primeira reação foi rir descaradamente. “Que corpo leve!”, pensei. “Que tecido resistente!”, repensei. “Que estúpida”. Concluí.
E, de repente, parei de rir. É que olhando bem para a fotografia que acompanhava a notícia, quase descobri um mistério; alguma coisa obtusa estava ali, tentando me seduzir. Então me dei conta de que aquela mulher de vestido esvoaçante pendurada numa janela transubstanciara-se em rosa recém brotada milagrosamente do concreto, sob um sol oriental. Flor selvagem, suicida, pendendo para o vazio. Ela resplandecia, flutuando , trágica, no fracasso de sua quase queda.
Eu juro que não queria pensar sobre o futuro da rosa. Já seria demasiado triste refletir sobre sua solidão passada. Pior ainda pensar na dor que virá.
Mas,no fim do dia,tal pensamento se impôs. Ao ligar o computador me deparei com o seguinte anúncio: “Macumba on-line, experimente!” Adeus, ó aventura- da galinha- preta- com cachaça- e vela vermelha- na encruzilhada- meia-noite! O lado bom da coisa foi pensar nas repercussões positivas dessa “revolução tecnológica” no futuro da moça chinesa que, depois de muito sangrar, provavelmente metamorfosear-se-á em pétala vingativa.Se tal momento triunfante chegar, suas delicadas mãos de porcelana não precisarão nem costurar a gosmenta boca do sapo.
Bastará um clic no mouse.
quarta-feira, maio 04, 2011
Camila e outros bichos
O meu amor pelos animais começou muito cedo, quando eu ainda era bem criança. Onde morávamos havia um milharal onde os gatos se multiplicavam. A cada dia surgiam novos bebês gato, que atraiam a atenção de nossos olhos espantados.
Quando eu tinha quatro anos nos mudamos para o bairro onde passei o resto de minha infância e lá não foi diferente: rapidamente meu irmão transformou nossa área de serviço em um verdadeiro zoológico.
Tudo começou com a Lassie. Era uma fofura quando nos foi apresentada. Pequena, gorducha e dona dos pelos negros mais brilhantes que já vi... enfim, uma beleza de vira-latas. Foi difícil convencer a mamãe de deixar a linda cadelinha ficar, mas depois que me irmão e eu ameaçamos incendiar a casa, ela acabou cedendo. Lassie cresceu e se tornou uma grande companheira.
Depois de sua vinda, chegamos à conclusão de que ela precisava de uma amiga. A partir de então muitos outros cães foram trazidos por meu irmão. Ele se comovia ao ver os pobres animais abandonados nas ruas e os adotava. Dessa forma, chegamos à surpreendente marca de doze cães. Doze cães, muito vivos e comilões! Ainda bem que todos viviam na mais perfeita harmonia com Lassie, nossa querida primogênita. Muitos adoeciam e morriam e outros eram trazidos. Perdi a conta de quantas Xuxas e paquitas tivemos...
Havia também uma coleção de pombos. Eram muitos os viveiros espalhados pela área de serviço. Havia lindos pombos-correio e meu irmão, como talentoso comerciante mirim, sempre os vendia por um preço mais elevado. E os passarinhos? Eram muitos... canários, periquitos, pardais... armávamos alçapões sobre o telhado para apanharmos pardais! Depois, ao vê-los presos, eu me entristecia. Pobres passarinhos impossibiitados de voar! Mas eu nada podia fazer, apenas colaborar para que permanecessem encarcerados. Deveria viagiá-los, se não o fizesse, meu irmão me enchia de tabefes. Deveria também arrancar as penas das asas dos pombos para que pudessem andar pela área sem fugir.
Mas não acaba aqui. Havia os macacos. Isso mesmo, os macacos. Eram micos,destes que povoam as árvores de nosso parques municipais. Tivemos muitos deles. Acredito que não há bichos tão estressados quanto os micos. Eles faziam muito barulho, pulavam demasiadamente e balançavam tanto as gaiolas que elas chegavam a oscilar. E coitado de quem se atrevesse a colocar os dedos entre as grades do viveiro... Meus dedinhos eram repletos de furos: os dentes dos macacos eram muito afiados e eu não tinha mesmo vergonha. Não aprendia nunca.
Eu gostava muito das tartarugas. Tínhamos de todos os tamanhos:algumas cabiam na palma da mão, outras eram tão gigantescas, que até assustavam. As menores gostavam de subir pelas paredes e ficavam lá por muito tempo. As grandes nem se moviam. Ficavam em um cantinho, com cara de quem está carregando o peso do mundo nas costas. Eu adora fazer festinha para uma delas, a Maior de Todas. Quase todos os dias, uma de minhas amiguinhas da escola ia lá pra casa me ajudar. Preparávamos o refresco, os biscoitos e até coroávamos Maior de Todas. Depois cantávamos e devorávamos o lanche. No fim da tarde minha amiga voltava para casa e eu ficava como lanche dela todo pra mim.
Tivemos poucos coelhos.Os pequenos foram assassinados pelos cães. O grande,chamado Juba, numa triste época de privações, foi assassinado por mamãe. Tornou-se um delicioso ensopado e parte do de dentro de cada um de nós.
Ah.... Eu não poderia me esquecer dos filhotes de rato que meu irmão encontrou não sei onde! Imaginem que ele os estava criando dentro do forno! Até que mamãe os descobriu e esmagou todos com o salto do sapato.
Cães, pombos, pássaros, tartarugas, coelhos.... eram mesmo muitos bichos para uma área de serviço tão pequena...
E havia os gatos. Foram muitos,mas lembro-me, com nitidez, de apenas três: Chaninho, Robozinho, e a Belíssima Camila.
Chaninho foi o primeiro. Viveu conosco durante muito tempo, e então desapareceu. Ficamos deprimidíssimos. Depois de um ano, para a nossa surpresa, ele retornou. Estava muito magro e mancava. Eu me aproximei, cheia de alegria e de saudades e o resultado foi a marca de três afiadíssimas unhas em meu braço direito. Parece que não fui reconhecida. Ele estava diferente, era outro. Gatos também perdem memória? Aquele havia perdido, e fico pensando em seu sofrimento, tentando se lembrar de sua casa, do caminho que o conduziria até lá. Pobre Chaninho! Em sua confusão mental, deve ter me confundido com os seres que o espancaram, pelo prazer da mais gratuita covardia. Depois ele foi embora de novo, e um dia o vimos grudado no asfalto da rua dos Eucalíptos. Trágico fim.
Robozinho era um filhote. Era um dos quinze gatos que habitavam o nosso zoológico. Eu não me interessava muito por ele até que,em uma das minhas tardes de solidão, o vi cair da escada da sala. Abandonei meus livros, meus brinquedos e meus amigos invisíveis e corri em sua direção. Estava morrendo. E eu , que nada podia fazer,assiti a sua morte. Foi durante a agonia que lhe dei nome. Morreu na boca da noite e chorei como uma idiota.
Eu gostaria de saber por que os gatos são tão enigmáticos.Eles têm algo de místico, seus olhos parecem portadores de grandes mistérios. São tão sensuais... e às vezes nos fitam como se conhecessem os nossos segredos. Minha infância não teria sido a mesma se eles não estivessem sempre por perto, como entes mágicos, ou simplesmente como bons ouvintes de meus monólogos infantis.
A Camila foi especial. Assim como a Lassie, ela chegou em nossa casa ainda pequenina, era linda e quando cresceu, ficou mais bela. Seus pelos esverdeados tinham listras pretas. Nunca vi gata mais elegante. Ela me acompanhava sempre por todos os lugares. As pessoas gostavam dela, principalmente, as crianças. Eu costumava passar tardes inteiras explorando um terreno baldio que existia em frente à minha casa. Os vizinhos depositavam lá livros velhos e brinquedos estragados. Mas o que não era mais útil para eles para mim era motivo para festejar: encontrar um livro ou brinquedo me deixava muito feliz. Camila estava sempre comigo. O lote vago também dava acesso aos muros das casas dos meus melhores amigos: Bruno e Sandrinha. Eu sempre encontrava um ou outro e conversávamos por horas.... O assunto? Nem me lembro mais. Só me lembro que morríamos de medo do fim do mundo.
Foi numa tarde de inverno que Camila morreu. Foi o dia mais frio do ano, e o céu estava cincento. Eu estava feliz,afinal, tinha encontrado uma moeda de cinquenta cruzeiros no caminho da escola. Eu brincava com um velotrol e atirava pedras em calangos, enquanto meu irmão e os outros meninos jogavam bola perto da calçada onde Camila dormia. Uma moto enlouquecida surgiu no início da rua, passou velozmente por todos e a atingiu. A gata correu para o lote vago. Todos interromperam a brincadeira e a seguiram. Lá estava ela, olhos arregalados de medo, sob uma árvore seca.
Cena triste aquela, do ser amado se debatendo de morte.
A levamos para casa e tentamos, inutilmente, reanimá-la, aspergindo-lhe água sobre a cabeça.
Fizemos uma espécie de cortejo fúnebre para enterrá-la. Voltamos para o terreno baldio, perfuramos o chão com uma faca de pão, e no buraco raso depositamos o corpo morto do adorado felino.
Dias depois, fui visitar seu túmulo: a terra não havia suportado seu inchaço. O corpo, desprovido de todo veludo, estava exposto, se desfazendo. Voltei ali todos os dias, como num ritual, e assiti , com gravidade, a todo o processo. Havia em meus lábios, um áspero gosto de fim.
Durante muito tempo sonhei com Camila. Em meus devaneios noturnos ela aparecia e me olhava de um jeito estranho. E o esquisito é que nos sonhos a aparição se dava justamente no lugar onde eu havia encontrado os cinquenta cruzeiros. Seria meu coração me avisando que dali para frente minha vida sempre oscilaria nesse terrível contraponto do ganhar e do perder?
Até hoje me lembro do cheiro do sabonte que estava em nosso banheiro no dia em que Camila morreu.
Visitei um zoológico pela primeira vez quando tinha dezenove anos. Meus amigos estranharam quando eu disse que nunca havia estado ali antes, afinal, toda criança já fez semelhante visita pelo menos uma vez na vida.
Eu sorri e me lembrei de Camila e dos outros bichos. Para quê ir ao zoológico, se ele está em casa, em nossa área de serviço?
Não tive muitos amigos quando criança, mas tive gatos, cachorros, tartarugas... e para mim foi o suficiente.
Fui feliz.
terça-feira, janeiro 04, 2011
Briga de rua
A pedra veio voando em direção a minha cara e acertou em cheio minha boca, cuja rosada delicadeza destoava da robusta variedade de palavrões que ,constantemente ,dela nascia.
Cuspi: sangue e uma lasca de um dos dentes da frente. Justamente um dos dentes da frente, caralho.
Mato esses ordinários ,pensei. Filhos da puta.
Eram quatro irmãos: duas meninas e dois meninos.
Ficaram parados vendo a pedra voar até minha boca e arrebentá-la, com o peso de um muro todo inteiro.
Após o cuspe devo ter feito cara de “lutador do bem com intenções de virar o jogo depois ter sido espancado”, aquela expressão de ”isso não vai ficar assim”, com a clássica “limpadinha”,com as costas das mãos, da baba e do filete de sangue que escorrem no canto dos lábios.
Então, exibindo minha hipotética máscara de coragem, avancei sobre meus inimigos.
Os piores círculos do inferno me habitavam.
Meus punhos de metal exigiam frágeis narizes. Minha selvageria reinvindicava ossos quebrados na face alheia.
Fui atraída para um portão comido pela ferrugem. No beco, uma armadilha era perversamente engendrada.
Eles haviam sumido e fiquei olhando para o vazio impresso numa parede coberta de lodo. O capim, molhado pela última chuva, provocava coceira em meus pés descalços.
Súbito, o bote sorrateiro da irmã mais velha: seus dedos, vindos da puta-que-a pariu, se enroscaram nas raízes dos meus cabelos e se fecharam, como a boca de uma planta carnívora.
Com força, ela bateu minha cabeça na parede suja. Uma, duas, três vezes.
Caí.
A dor tinha cheiro de lodo ,de capim molhado, de terra e sangue.
__ Ela morreu__ Alguém disse.
A irmã mais velha riu, como uma moira satisfeita.
Cuspi: sangue e uma lasca de um dos dentes da frente. Justamente um dos dentes da frente, caralho.
Mato esses ordinários ,pensei. Filhos da puta.
Eram quatro irmãos: duas meninas e dois meninos.
Ficaram parados vendo a pedra voar até minha boca e arrebentá-la, com o peso de um muro todo inteiro.
Após o cuspe devo ter feito cara de “lutador do bem com intenções de virar o jogo depois ter sido espancado”, aquela expressão de ”isso não vai ficar assim”, com a clássica “limpadinha”,com as costas das mãos, da baba e do filete de sangue que escorrem no canto dos lábios.
Então, exibindo minha hipotética máscara de coragem, avancei sobre meus inimigos.
Os piores círculos do inferno me habitavam.
Meus punhos de metal exigiam frágeis narizes. Minha selvageria reinvindicava ossos quebrados na face alheia.
Fui atraída para um portão comido pela ferrugem. No beco, uma armadilha era perversamente engendrada.
Eles haviam sumido e fiquei olhando para o vazio impresso numa parede coberta de lodo. O capim, molhado pela última chuva, provocava coceira em meus pés descalços.
Súbito, o bote sorrateiro da irmã mais velha: seus dedos, vindos da puta-que-a pariu, se enroscaram nas raízes dos meus cabelos e se fecharam, como a boca de uma planta carnívora.
Com força, ela bateu minha cabeça na parede suja. Uma, duas, três vezes.
Caí.
A dor tinha cheiro de lodo ,de capim molhado, de terra e sangue.
__ Ela morreu__ Alguém disse.
A irmã mais velha riu, como uma moira satisfeita.
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Teu grito acordaria a vizinhança inteira
sábado, dezembro 18, 2010
quinta-feira, setembro 16, 2010
Ano versado
Naquele tempo
desfaleci sobre os traços
do desenho de teu corpo
recém inventado
pelo mestre das cores...
O que era eu?
voluptuosas curvas de nanquim,
preenchidas, nas ausências do tempo,
por matizes sonoros de sonhos.
O que era eu?
Trechos de azul disputando
teus espaços vazios
e o vermelho vivo do teu coração.
terça-feira, julho 20, 2010
Deserto
A tarde se fratura.
E o outono tem sempre
esse gosto de fim, que te aniquila.
O vento escuro suga tua alma
(aberta confusamente)
para a solidão das pedras frias: a matéria triste das montanhas.
Melancolias alcoólicas te povoam.
Bolhas de sonhos explodem no ventre
infecundo das estrelas.
Em vão, estendes os braços trágicos
a procura da alavanca que possa
frear o irreversivel.
Estás só, estática esfinge
sem enigma.
Simone .T
E o outono tem sempre
esse gosto de fim, que te aniquila.
O vento escuro suga tua alma
(aberta confusamente)
para a solidão das pedras frias: a matéria triste das montanhas.
Melancolias alcoólicas te povoam.
Bolhas de sonhos explodem no ventre
infecundo das estrelas.
Em vão, estendes os braços trágicos
a procura da alavanca que possa
frear o irreversivel.
Estás só, estática esfinge
sem enigma.
Simone .T
segunda-feira, abril 26, 2010
Brincando com satélites
Você sonha comigo
Você sonha que estou
Encantando estrelas
Brincando com satélites
aprendendo esgrima em terreno lunar...
Forças estranhas me levam para longe...
Dançando entre asteroides.
Você chora como uma velha abandonada.
Cometas me arrastam pelo azul noturno...
Você sonha comigo
Você sonha que estou
Flutuando e queimando
Estilhaçando a lua com um grito.
Cavalgando estrelas
Encantando satélites
Pintando planetas no caos.
domingo, abril 25, 2010
Safo
-->
Princesas sáficas de cabelos roxos
Dançam ao redor da madeira
De velhos navios em chamas
Se beijam, bêbadas
Em louvor à Baco
Rajadas de flores verdes
Umedecem o coração do caos.
Borboletas aborrecidas
Sugam a inconstância do céu
Tua voz violenta toda dor
Veloz, como vagões em Gotann City
Eros, distraído, não me sabe infeliz
Por tua ausência
Se soubesse,
Choraria
Como cabelos de tempestade
Choram tristes perfumes.
terça-feira, abril 20, 2010
Você é virgem?!
Fui ao ginecologista.Exame de rotina anual. Aquele chato, cujo procedimento principal é o médico colocar uma coisa pontuda dentro da gente e tirar um pedacinho de célula.Além disso, como a esperança é imortal, fui também, pela milhonésima vez, em busca de alguma solução para a sempre companheira tensão pré- menstrual.
Fiquei duas horas esperando o doutor.Quando ele chegou, iniciou o atendimento mais rápido da história da medicina: não ficava nem dois minutos com cada paciente. E eu tinha coisas pra contar, coisas tristes, tais como os monstros em que se transformam os pequenos problemas, nesses períodos mensais difíceis. E queria falar dos pesadelos, que me acordam no meio da noite, aos gritos desesperados, e comigo, toda a vizinhança. Queria falar também do medo absurdo do trânsito, dos amassados no carro, devido as crises de nervo injustificadas e repentinas durante as manobras, nessas épocas de revertério hormonal.E da falta de cor de todas as coisas.E da vontade, também injustificada, de me atirar na frente dos ônibus em movimento. Queria falar do meu coração, que palpita mais do que pode, e do sufoco que sinto e das explosoes de choro, e da vontade de virar eremita, e das brigas de novela mexicana que provoco.E de como me sinto um verme. E de como eu perco todo o valor que tenho e me sinto a pessoa mais triste do mundo, a mais sozinha, a mais desafortunada...
Mas dois minutos não seriam suficientes.Então ele me mandou entrar, me mandou tirar a roupa, me mandou deitar na maca, me mandou abrir as pernas e me mostrou minha vagina, em zoom 300%, numa tela de computador.Lá estava ela, vermelha, obscena, e gigantesca.Então pensei " aí está a culpada dos meus crimes"... Vermelha, quente e bela. Vagina é o máximo.
Depois do choque do zoom 300% ele começou a me encher de perguntas. Vou reproduzir o diálogo, para dar um tom mais realista e dinâmico:
_O que te traz aqui?
_Rotina.E quero um remedinho pra TPM.
_TPM ou cólicas?
_ Eu sei a diferença.TPM mesmo, doutor.
_Já abortou?
_ Não.
_ Já engravidou?
_ Não.
_ Utiliza algum método anticoncepcional?
_ Não.
_ Tem vida sexual ativa?
_ Sim.
_ E como você faz pra não engravidar?
_ Não faço nada.
_ Por quê?
_ Porque o meu tipo de relação sexual não engravida.
_ E que tipo de relação seria esse?
_ Eu sou lésbica.
Até então o doutor tinha feito todas essas perguntas idiotas sem olhar para mim. Ele estava apaixonado pelo prontuário. Diante da minha resposta natural à sua pergunta imbecil, ele me olhou. E foi com perplexidade que me perguntou:
_ Então você é virgem?!
Eu ri. Ou melhor, caí na gargalhada. Saí daquela posição humilhante e me sentei na maca.
_ Doutor, se o que você chama de virgindade é uma mulher nunca ter sido penetrada por um pênis,pode ficar traquilo, pois não me enquadro nessa categoria.Pode colocar, numa boa, essa coisa pontuda em mim,porque não vai arrebentar o meu hímen.Mas acho que seu conceito de virgindade é bem pobrezinho, né não?
Ele não aprendeu a lição. Continou fazendo perguntas burras:
_ Peraí, não tô entendendo.. Você namora?
_ Namoro a mesma garota há 4 anos.
_ e quando você descobriu que não queria mais homens....
_ Aff,vai estudar psicanálise!
E, por fim, depois daquela coisa pontuda me machucando, e da overdose de machismo e burrice, ainda me receitou um medicamento para TPM que não existia mais no mercado.
Fiquei duas horas esperando o doutor.Quando ele chegou, iniciou o atendimento mais rápido da história da medicina: não ficava nem dois minutos com cada paciente. E eu tinha coisas pra contar, coisas tristes, tais como os monstros em que se transformam os pequenos problemas, nesses períodos mensais difíceis. E queria falar dos pesadelos, que me acordam no meio da noite, aos gritos desesperados, e comigo, toda a vizinhança. Queria falar também do medo absurdo do trânsito, dos amassados no carro, devido as crises de nervo injustificadas e repentinas durante as manobras, nessas épocas de revertério hormonal.E da falta de cor de todas as coisas.E da vontade, também injustificada, de me atirar na frente dos ônibus em movimento. Queria falar do meu coração, que palpita mais do que pode, e do sufoco que sinto e das explosoes de choro, e da vontade de virar eremita, e das brigas de novela mexicana que provoco.E de como me sinto um verme. E de como eu perco todo o valor que tenho e me sinto a pessoa mais triste do mundo, a mais sozinha, a mais desafortunada...
Mas dois minutos não seriam suficientes.Então ele me mandou entrar, me mandou tirar a roupa, me mandou deitar na maca, me mandou abrir as pernas e me mostrou minha vagina, em zoom 300%, numa tela de computador.Lá estava ela, vermelha, obscena, e gigantesca.Então pensei " aí está a culpada dos meus crimes"... Vermelha, quente e bela. Vagina é o máximo.
Depois do choque do zoom 300% ele começou a me encher de perguntas. Vou reproduzir o diálogo, para dar um tom mais realista e dinâmico:
_O que te traz aqui?
_Rotina.E quero um remedinho pra TPM.
_TPM ou cólicas?
_ Eu sei a diferença.TPM mesmo, doutor.
_Já abortou?
_ Não.
_ Já engravidou?
_ Não.
_ Utiliza algum método anticoncepcional?
_ Não.
_ Tem vida sexual ativa?
_ Sim.
_ E como você faz pra não engravidar?
_ Não faço nada.
_ Por quê?
_ Porque o meu tipo de relação sexual não engravida.
_ E que tipo de relação seria esse?
_ Eu sou lésbica.
Até então o doutor tinha feito todas essas perguntas idiotas sem olhar para mim. Ele estava apaixonado pelo prontuário. Diante da minha resposta natural à sua pergunta imbecil, ele me olhou. E foi com perplexidade que me perguntou:
_ Então você é virgem?!
Eu ri. Ou melhor, caí na gargalhada. Saí daquela posição humilhante e me sentei na maca.
_ Doutor, se o que você chama de virgindade é uma mulher nunca ter sido penetrada por um pênis,pode ficar traquilo, pois não me enquadro nessa categoria.Pode colocar, numa boa, essa coisa pontuda em mim,porque não vai arrebentar o meu hímen.Mas acho que seu conceito de virgindade é bem pobrezinho, né não?
Ele não aprendeu a lição. Continou fazendo perguntas burras:
_ Peraí, não tô entendendo.. Você namora?
_ Namoro a mesma garota há 4 anos.
_ e quando você descobriu que não queria mais homens....
_ Aff,vai estudar psicanálise!
E, por fim, depois daquela coisa pontuda me machucando, e da overdose de machismo e burrice, ainda me receitou um medicamento para TPM que não existia mais no mercado.
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Mulheres em trânsito
quinta-feira, abril 01, 2010
40 graus
Sulfúrica, ela rasteja
por ruínas de escuros tons.
A acidez que evoca, pranto inconsolável de crianças mortas.
A fome
As bombas
As batalhas
Queimando...
Enquanto o mundo trepida
matando de náusea
tripulantes de estômagos sensíveis.
por ruínas de escuros tons.
A acidez que evoca, pranto inconsolável de crianças mortas.
A fome
As bombas
As batalhas
Queimando...
Enquanto o mundo trepida
matando de náusea
tripulantes de estômagos sensíveis.
Rasuras de sonhos

Queria agora estar sonhando
com um retorno feliz para casa( a nossa)
onde eu te encontraria debruçada
sobre rasuras de sonhos
gentilmente lapidados.
E tu me imprimirias
mais uma vez o teu sorriso,
o qual eu cuidadosamente sorveria
enfeitiçada por trilha sonora de chuva
e perversidades úmidas de luas escuras e mortas.
sexta-feira, janeiro 23, 2009
Pessimismo e monstruosidades mentais

Cena I
Acordo tarde, quase meio dia, acho, sol da porra, da puta que pariu, quentura do inferno, calor de agosto, pesado e sinistro como só agosto, gosto de sangue na boca dormida, me deram um soco, num sonho, nem sei quem foi o filho da puta que me arrebentou os dentes, nem dá pra sonhar de novo e quebrar-lhe o nariz, caralho, é que mordi a língua enquanto gritava palavras sem nexo pra uma multidão suja e feia, noutro sonho encardido e, que bosta, cagaram e não deram descarga, e a merda fica boiando, me olhando com cara de bosta, me interrogando, o que custa apertar um botão pra merda ir pra puta que a pariu, pras profundas do esgoto, que é o lugar dela, mas não, não fizeram o favor, e tenho de olhar pra isso logo no começo, deve dar azar, começar o dia olhando pro cocô alheio, eu creio, o espelho, ah, o espelho sincero e exato, desgraçado, minha cara amarrotada e esses olhos tristes com detalhes “Mortiça Adams” ao redor dos cílios, cabelo indescritível e, ah. Porra, essa água azeda no estômago, porra, porra, porra.
Cena II
Os sons, o silêncio, os sons do silêncio, tudo me incomoda, hoje, estar viva me incomoda, atravesso a rua, carros, motocicletas do capeta, e essas coisas monstruosas chamadas ônibus, essa piranha gorda bem que podia andar mais rápido, fica empacando minha vida, agora está estacionada na calçada, olhando para três frangos assados nojentos e gordos que nem ela, da boca da putona escorre saliva, cadela, porca, dá licença dona, digo, mas queria era socar até matar aquela cara obesa de prostituta do lar e enfiar no rabo dela um frango assado inteiro, dá licença, dona, repito, ela sai da frente e me olha com cara de cu e passo, marcho para o inferno, resignada, o supermercado, cheio, é quase o fim, o fim de semana e o fim da linha, ah, briga na fila do caixa, sei lá por que, tomara que se matem, os infelizes, um filho da puta chuta minha cerveja,ah, tudo tão pesado, as compras , o dia, coloquei as latas no chão pra descansar os braços e um cuzão cego chuta minha cerveja, as latinhas deslizam, deslizam, como uma patinadora desengonçada e param perto dos sacos de arroz. Não falo nada, filho da puta, corno, vai tomar no cu, quase grito.
Cena III
Menor, insignificante, e essa porra de água azeda no estômago, ah, quero vomitar a vida , em golfadas fortes e obscenas, vomitar meu medo da morte, minha covardia, meus fracassos, minhas raras e rasas alegrias, meus amores intensos e doídos, quero vomitar a podridão que me espera, todos os desprazeres, os esforços em vão, os meus sonhos mais belos e ingênuos, essa luz toda, toda essa luz(dor de cabeça!), esse barulho insuportável de silêncio, a vida, essa coisa gordurosa.
Que náusea, tomar no cu, que náusea,
Poesia? Sempre vai ter a merda boiando na privada. Eu desisto.
Acordo tarde, quase meio dia, acho, sol da porra, da puta que pariu, quentura do inferno, calor de agosto, pesado e sinistro como só agosto, gosto de sangue na boca dormida, me deram um soco, num sonho, nem sei quem foi o filho da puta que me arrebentou os dentes, nem dá pra sonhar de novo e quebrar-lhe o nariz, caralho, é que mordi a língua enquanto gritava palavras sem nexo pra uma multidão suja e feia, noutro sonho encardido e, que bosta, cagaram e não deram descarga, e a merda fica boiando, me olhando com cara de bosta, me interrogando, o que custa apertar um botão pra merda ir pra puta que a pariu, pras profundas do esgoto, que é o lugar dela, mas não, não fizeram o favor, e tenho de olhar pra isso logo no começo, deve dar azar, começar o dia olhando pro cocô alheio, eu creio, o espelho, ah, o espelho sincero e exato, desgraçado, minha cara amarrotada e esses olhos tristes com detalhes “Mortiça Adams” ao redor dos cílios, cabelo indescritível e, ah. Porra, essa água azeda no estômago, porra, porra, porra.
Cena II
Os sons, o silêncio, os sons do silêncio, tudo me incomoda, hoje, estar viva me incomoda, atravesso a rua, carros, motocicletas do capeta, e essas coisas monstruosas chamadas ônibus, essa piranha gorda bem que podia andar mais rápido, fica empacando minha vida, agora está estacionada na calçada, olhando para três frangos assados nojentos e gordos que nem ela, da boca da putona escorre saliva, cadela, porca, dá licença dona, digo, mas queria era socar até matar aquela cara obesa de prostituta do lar e enfiar no rabo dela um frango assado inteiro, dá licença, dona, repito, ela sai da frente e me olha com cara de cu e passo, marcho para o inferno, resignada, o supermercado, cheio, é quase o fim, o fim de semana e o fim da linha, ah, briga na fila do caixa, sei lá por que, tomara que se matem, os infelizes, um filho da puta chuta minha cerveja,ah, tudo tão pesado, as compras , o dia, coloquei as latas no chão pra descansar os braços e um cuzão cego chuta minha cerveja, as latinhas deslizam, deslizam, como uma patinadora desengonçada e param perto dos sacos de arroz. Não falo nada, filho da puta, corno, vai tomar no cu, quase grito.
Cena III
Menor, insignificante, e essa porra de água azeda no estômago, ah, quero vomitar a vida , em golfadas fortes e obscenas, vomitar meu medo da morte, minha covardia, meus fracassos, minhas raras e rasas alegrias, meus amores intensos e doídos, quero vomitar a podridão que me espera, todos os desprazeres, os esforços em vão, os meus sonhos mais belos e ingênuos, essa luz toda, toda essa luz(dor de cabeça!), esse barulho insuportável de silêncio, a vida, essa coisa gordurosa.
Que náusea, tomar no cu, que náusea,
Poesia? Sempre vai ter a merda boiando na privada. Eu desisto.
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Teu grito acordaria a vizinhança inteira
quarta-feira, janeiro 21, 2009
Hormônios colidindo com estrelas

Ao passar uma temporada de extase no inferno, Rimbaud, o alquimista das palavras delirantes, proferiu: " Sei hoje saudar a beleza".O saber exige aprendizado, processo, ainda mais quando se trata de algo que diz respeito à sensibilização do olhar, à abertura dos poros,à educação dos ouvidos.Vemos o "Belo".O tocamos às vezes. O ouvimos.Uma sinfonia, uma tela expressonista, uma pétala orvalhada na moldura triste de uma manha fria de inverno...Imagens e sons. Tato. Olfato. Audição.
Saudar: tirar o chapéu, reverenciar, acenar com as mãos.Não quero mais o desespero dessa limitação.
Com ela, me acostumei a colocar a beleza em minha boca, mordê-la de leve, como quem espreme entre os lábios uma borboleta, numa atmosfera absurda. Prefiro que a beleza possua meu corpo,a começar pelo nariz, violentado por perfumes singulares, tais como adocicados cheiros de fios de cabelos cor- de ouro e de seios ardendo de desejo.Os seus perfumes singulares. Que provocam a fúria de minha delicada voracidade.Uma vez, numa mesa de bar, rabisquei para ela, num pedaço amassado de papel, umas palavras que diziam que eu tinha me tornado uma incompetente poeta, uma vez que ela tinha substituido a poesia em minha vida, por ser a minha fuga de todos os clichês e meu salto para fora de todas as convençôes.Todo poeta vive assim:Remexendo um caldeirão repleto de poções mágicas em busca de versos que cantem uma melodia diferente. Uma melodia digna de saudaçoes. O poeta quer fazer a palavra cantar. O poeta que tornar a beleza audível, visível, tocável.Mas chega o momento decisivo, de insustetável sofrimento: é quando o poeta deseja comer a beleza. Se cansa do velho caldeirão e começa a mastigar pétalas, beber as águas das chuvas, devora, literalmente, paginas inteiras de poesia. E o sofrimento reside justamente no fato de nem as flores, nem as águas, nem os livros de poemas poderem retribuir seu amor. O poeta deseja e ama sozinho. Eis a sua tragédia. Muitas vezes é tão imensurável seu desespero que a vida já não basta. E ele decide morrer.
Passei minha vida remexendo o tal caldeirão.Mas, como rabisquei naquele papel pardo, há alguns anos, isso não faz mais sentido.
Ela enche meus olhos de luzes mágicas, de cores impossíveis, de delicadezas de gestos, de sinuosidades deliciosas entre lencóis, de movimentos sutis de lábios molhados entreabertos, da lascívia magnífica de dedos deslizando em meio às pernas, seios, boca que me nutre.Ela transborda meus ouvidos de sons de hormônios colidindo com estrelas e astros e nuvens de tempestades e harmonias inquietantes em espaços oníricos onde escorre lava.Ela enche minhas mãos de curvas, onde me perco por instantes, para , em seguida, nos encontrarmos, exaustas de amor .Ela é a minha mais incrível "experiência" poética.
Aprendi a devorar a beleza.
Saudar: tirar o chapéu, reverenciar, acenar com as mãos.Não quero mais o desespero dessa limitação.
Com ela, me acostumei a colocar a beleza em minha boca, mordê-la de leve, como quem espreme entre os lábios uma borboleta, numa atmosfera absurda. Prefiro que a beleza possua meu corpo,a começar pelo nariz, violentado por perfumes singulares, tais como adocicados cheiros de fios de cabelos cor- de ouro e de seios ardendo de desejo.Os seus perfumes singulares. Que provocam a fúria de minha delicada voracidade.Uma vez, numa mesa de bar, rabisquei para ela, num pedaço amassado de papel, umas palavras que diziam que eu tinha me tornado uma incompetente poeta, uma vez que ela tinha substituido a poesia em minha vida, por ser a minha fuga de todos os clichês e meu salto para fora de todas as convençôes.Todo poeta vive assim:Remexendo um caldeirão repleto de poções mágicas em busca de versos que cantem uma melodia diferente. Uma melodia digna de saudaçoes. O poeta quer fazer a palavra cantar. O poeta que tornar a beleza audível, visível, tocável.Mas chega o momento decisivo, de insustetável sofrimento: é quando o poeta deseja comer a beleza. Se cansa do velho caldeirão e começa a mastigar pétalas, beber as águas das chuvas, devora, literalmente, paginas inteiras de poesia. E o sofrimento reside justamente no fato de nem as flores, nem as águas, nem os livros de poemas poderem retribuir seu amor. O poeta deseja e ama sozinho. Eis a sua tragédia. Muitas vezes é tão imensurável seu desespero que a vida já não basta. E ele decide morrer.
Passei minha vida remexendo o tal caldeirão.Mas, como rabisquei naquele papel pardo, há alguns anos, isso não faz mais sentido.
Ela enche meus olhos de luzes mágicas, de cores impossíveis, de delicadezas de gestos, de sinuosidades deliciosas entre lencóis, de movimentos sutis de lábios molhados entreabertos, da lascívia magnífica de dedos deslizando em meio às pernas, seios, boca que me nutre.Ela transborda meus ouvidos de sons de hormônios colidindo com estrelas e astros e nuvens de tempestades e harmonias inquietantes em espaços oníricos onde escorre lava.Ela enche minhas mãos de curvas, onde me perco por instantes, para , em seguida, nos encontrarmos, exaustas de amor .Ela é a minha mais incrível "experiência" poética.
Aprendi a devorar a beleza.
terça-feira, janeiro 20, 2009
sábado, julho 12, 2008
Telescópio (Alucinação simples II)

Meu sonho:
Era uma lua de...
O tempo.
O planeta do gigante azulado.
Anéis de cristais de gelo e poeira girando ao redor do equador...
As luas de cada um.
Uma foto batida
De belo tom azul esverdeado.
O companheiro temporão percorre o segredo agora.
O pequeno corpo gasoso e gigante...
Treze olhos, uma órbita.
Plutão, Saturno, Júpiter. Antes.
Depois: um banho de cigarros e
Você, meu pecado especial.
A terra jamais foi semelhante.
Era uma lua de...
O tempo.
O planeta do gigante azulado.
Anéis de cristais de gelo e poeira girando ao redor do equador...
As luas de cada um.
Uma foto batida
De belo tom azul esverdeado.
O companheiro temporão percorre o segredo agora.
O pequeno corpo gasoso e gigante...
Treze olhos, uma órbita.
Plutão, Saturno, Júpiter. Antes.
Depois: um banho de cigarros e
Você, meu pecado especial.
A terra jamais foi semelhante.
domingo, janeiro 27, 2008
Imagens sobrepostas

I
Campo imenso: meus pés massacram morangos maduros que explodem dramáticos espirrando vermelhos variados.
Uma perspectiva de infinito, associada a um céu doloroso de outono( "os verdes e os rubros do crepúsculo...") confere à cena uma tonalidade erótica: sou feita de labaredas audazes, que anseiam por devorar o infinito, a dor do azul, a alegria melancólica do outono, os morangos explosivos.
Perfumes de rosas gritam agudos e ferem meus sentidos já perturbados por tanto céu, tanta dor, tanto fogo...
" A vida verdadeira está ausente"
" O amor precisa ser reinventado"_ Ele disse.
Rimbaud me comove, você sabe, e choro maravilhosamente sobre essas frutas arrebentadas, meus pés assassinos tingidos de sangue... Iniciada na ausência( único estado ontológico onde a vida original é possível) sorvo o sal de cada lágrima, como sorvo gota a gota teu sexo que, neste instante, se dilui docemente sob a suavidade do meu toque.
II
Bebo-te lenta e aflita, faminta e extasiada...
Rosa umedecida que se abre, dócil para meus beijos pervertidos...
Borboleta insana dos meus sonhos mais antigos...
É claro que o amor está me consumindo...
Pétalas terríveis me arrebatam para o desejo de com você
ser flor
me diluindo...
Nos tornamos coração? Flor, céu, fogo, lenda, pecado,delírio, dilúvio, asas de mariposa?
De poros bem abertos posso acolher-te no lado inverso de minha pele. Fazer de ti habitante de mim. Beber teu sangue, mastigar tua carne, comer teus cabelos. Com a volúpia doce de quem devora uma pétala.
III
Meu Cálice Sagrado,
teus dedos e língua me vasculham e, ausente, triunfo.
"Um paraíso de tempestade despedaça"
"A lua queima e uiva"
Reinvento cores, sonhos, palavras, outras eras, países distantes, substâncias primordiais, epifanias lunares, orvalhos, manhãs frescas de outono, montanhas, ventanias, canções de ninar, delicadezas de pássaro...
Minha Poesia inquietante,
deliciosamente erótica
absurdamente lírica,
fluindo
cálida e intensa
como morangos arrebentados, sob pés delicados de menina, num campo profundo, azul de infinito, numa tarde outonal.
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