quinta-feira, julho 26, 2007

Sobre olhos e feitiços


Ela tinha um olho verde e o outro azul. E eu que havia pensado que certas coisas jamais acontecem... E eu, que acreditava que algumas fantasias de minha mente sonhadora fossem como os unicórnios ou como os sacis-pererês...
Naquela tarde chuvosa entrei no ônibus como fazia sempre. O caminho é longo até os assentos do fundo e ter de olhar para os rostos dos que estão sentados e ser observada por eles é torturante. Por isso olho para o chão. E caminho até alcançar meu lugar, de onde tenho a impressão de tudo controlar: observo a todos e não sou observada.
Gosto de olhar para as nucas das pessoas. Dessa forma, invento para cada passageiro um rosto imaginário, e , em meus devaneios(apenas em meus devaneios...) estes rostos sorriem...
As vezes saúdo rapidamente algumas pessoas que encontro com freqüência no ônibus: "olá, tudo bem?", nada pessoal, nada de longas conversas. Na sacudida do ônibus eu desenho; imersa em meu mundo fantástico tento refazer-me também sorrindo, como reinvento os demais .
Naquela tarde chuvosa eu queria ver a paisagem molhada. Me esqueci das nucas e de meus esboços imaginários de felicidade e voltei minha atenção para a janela.
Chovia como se fosse o fim. As pessoas pareciam tristes e tudo, as ruas molhadas, as sombrinhas com suas estampas floridas, os guarda-chuvas negros... tudo era a soma de toda a tristeza que parece camuflar-se quando faz sol e todos suam e gargalham excitados.
Quando chove alguma coisa acontece. Algum mistério se aproxima das fronteiras da revelação. Quando chove eu quase descubro.
Ela estava entre a janela e eu. Sentada à minha direita, parecia desenhar rostos imaginários para as nucas que via. E eu, que a via de perfil, pensei com meus botões que aquele era o rosto que eu sempre quis inventar. E tinha aquele olho azul.... tão azul, azul que fiquei falando para meus botões: turquesa, turquesa.... e quando percebi eu já havia mergulhado. Obra do amor, pensei. Só o amor faz coisas tão perfeitas e belas. E a palavrinha martelava em minha cabeça: turquesa, turquesa.... ela devia ter trinta anos e tinha olhos de miosótis.... miosótis, miosótis... turquesa, safira.... e isso virou poema e canção misturada à chuva que caia....
Eu nunca havia visto um olho assim. Era um azul tão vivo! Eu a observava sem que ela soubesse. Eu amava o amor que havia criado tanta beleza e adorava a vida por colocá-la diante de mim....
E assim, absorta, entregue, permaneci durante todo o percurso até a universidade. Era hora de emergir. Eu havia de seguir meu rumo. Saí de dentro daquele olho profundo, respirei e dei o sinal.
Foi então que vi o rosto completo.
Ela tinha um olho verde e o outro azul. Meu Deus!!! O outro olho, o direito, era verde!!! E era tão suave, tão parecido com a chuva, que contrastava com a intensidade do outro adorado por mim há minutos.
Não pude conter o meu espanto. A olhei fixamente , como se olha para um fantasma ou como quem vê um vulcão vomitando lava.
Erupção vulcânica!!! Pareciam dois rostos contidos num só. Pareciam duas pessoas dividindo a mesma cabeça e o mesmo corpo. Uma alma se revelava em cada olho: a alma verde era terna, angelical e me seduziu. A alma azul possuía o cinismo dos felinos. Ah.... e me seduziu também....
Me lembrei de um filme mediano sobre bruxas que eu havia assistido em uma noite qualquer.(gosto muito das histórias de bruxas).
A atriz Sandra Bulock era uma bruxa boa que tinha medo de amar. Um dia prometeu para si mesma que só se apaixonaria de verdade se em sua vida surgisse um homem com uma característica especial: ele deveria ter um olho verde e o outro azul. A intenção era não se entregar nunca ao amor, pois as possibilidades de existir no mundo uma pessoa com um traço fisionômico tão peculiar eram remotas. Tudo bem!! Talvez até existisse, mas "cair de pára-quedas" em sua vida.... Ah, isso não aconteceria... mas o amor!!! É mestre em fazer a diferença!!! O ser humano idealizado pela bruxa acaba aparecendo. E ela não pode conter o espanto: ele tem um olho verde e o outro azul e ela está apaixonada....
O ônibus parou. O felino e o anjo me encararam. E eu que não havia desviado o olhar até então, percebi que a porta já estava se abrindo. Eu tinha de descer... o felino e o anjo me olhavam através daquele rosto ambíguo de trinta anos.
Eu desci. Desorientada, dei o primeiro passo no mundo real, que com gritos roucos me chamava.
Ela tinha um olho verde e o outro azul. Anjo, felino, turquesa, safira, miosótis...
E eu, que tinha modos de feiticeira, deixara-me enfeitiçar
Simone Teodoro

Um comentário:

Franz Znarf disse...

nao sei mas faz referencia a um filme ou um livro, me desculpe se estiver falando besteira. mas senti o toque pessoal ai , achei uma das mais belas aqui postadas