sábado, julho 28, 2007

Assovio no vento escuro

“A vocação da poesia não é nos deslumbrar com uma idéia surpreendente; mas sim fazer com que um instante do ser se torne inesquecível e digno de uma insustentável nostalgia.(Milan Kundera)



I

Hoje

Acho que choveu. Dessas chuvinhas finas que prenunciam as baixas temperaturas.
Não ouvi rumores de chuva de madrugada. Acho que choveu porque a terra está úmida, as plantas estão lavadas e o céu é triste, como um trem que desaparece numa curva.
Hoje está mais frio do que ontem. Três grossos cobertores me aquecem, tenho três meias nos pés, calço luvas azuis e olho para meus sapos ornamentais, que compartilham a velha mesinha empoeirada com os livros amarelados. Eles não olham para mim: estão petrificados, para sempre, na mesma posição; enfeitiçados por alguma fada malvada, eles olham, cada qual, para uma direção, ausentes de tudo.
O sapo maior, a quem chamo, carinhosamente, de Voltaire, tem longa pernas, amarelas e finas, calça botas marrons, meias brancas e usa óculos. Com a mão esquerda, segura um livro de capa vermelha, para o qual olhará para sempre (ou até que eu o derrube, por descuido, e o liberte dessa prisão eterna). Na mão direita, uma pena, que é, na verdade, uma caneta. Voltaire usa uma peruca, daquelas que os nobres franceses usavam nas vésperas da Revolução. Acho que sua boca semi- aberta, como a de um peixe, sorri, e fico assim, por muito tempo, imaginando qual seria o motivo desse sorriso verde e sem dentes, qual seria...
À esquerda de Voltaire está Morrissey, meu outro sapo verde de gesso. Está quase nu, quero dizer, veste uma cueca que lembra uma fralda, segura um microfone dourado com a mão esquerda e traz, no peito, uma medalha, também dourada, com uma estrela vermelha de cinco pontas, gravada em alto relevo no centro de um círculo.
Parece que Morrissey estava cantando quando a fada do mal o condenou para sempre, porque posso ver sua língua cor-de-rosa quase que solfejando uma canção triste, em ré maior...
Talvez não. Talvez Voltaire e Morrissey estejam boquiabertos, não pelo fato de, na hora fatal, terem sorrido ou cantado; mas sim porque ficaram assustados quando um feitiço os privou de seus movimentos. Susto. O mesmo que faz uma pessoa morrer de olhos abertos...
A morte, meu medo maior.
Meus sapos, fotografias de gesso coloridas de verde, estão mortos e débeis, contemplando o nada

I

Ficou tudo tão mais frio de repente... Culpa dos sapos estáticos. Desvio, então, meu olhar para a janela: o céu denso me lembra um fragmento de poema
Hoje o céu é pesado como a idéia de nunca chegar a um porto...
A chuva miúda é vazia...
A hora sabe a ter sido
Não haver qualquer coisa como leitos para as naus!
Absorto, em se alhear de si, teu olhar é uma praga sem sentido...
Estou, há horas, sob esses cobertores, olhando para sapos e janelas, não consigo me levantar, meu corpo é denso como o céu de chumbo, tenho sono, sinto frio, são três da tarde de uma segunda-feira de julho e uma música chatinha pressiona meus tímpanos, ah, esses vizinhos e suas canções gospel de rimas paupérrimas e previsíveis, me irritam, como me irritam...
Fico pensando se não fui vítima de uma fada-bruxa mal amada, dessas que povoam as estórias infantis... O mesmo encantamento dos sapos... Quer dizer, um pouco parecido: eles estão aprisionados em seu último movimento, e eu estou condenada a ficar eternamente me movendo, aflita, sobre este colchão, em busca de uma posição confortável, que não permita que minhas pernas fiquem dormentes ou que minha nuca doa. E, enquanto me debato, desarrumando lençóis, sou obrigada a olhar para sapos de gesso, para janelas, para um céu pesado e amargurado, para meu próprio peso, para portas trancadas.

III

Ontem

Ontem à tarde saí para fazer compras. Eu precisava de flores, de um disco de Debussy e de maçãs.
Eu tinha de decidir o que fazer primeiro: ir à floricultura antes de ir à feira e, depois, de metrô, ir até a loja de discos. Ou minha prioridade seriam as maçãs? Por que eu precisava de maçãs? E de flores? E de Debussy?
Era difícil. Tão difícil que desisti de decidir e saí sem rumo pela tarde vermelha.
Andei sem destino por horas... Vi rosas em jardins de casas amarelas, as nuvens pálidas se dispersavam lentamente...
Já era noite quando entrei no mercado das flores. Comprei gerânios e, em seguida, caminhei até a estação do metrô.
O vagão estava quase vazio. Um velho de calças puídas e de chapéu côco olhava, distraído, para a paisagem que se esfarelava do outro lado da janela.Então minha atenção se dividiu entre meus belos gerânios, a singular figura do velho de chapéu côco e uma lua quase erótica, que se insinuava para mim, desenhada na escuridão.
Os gerânios e a lua, fada do mal... Não sei por que motivo eu tive vontade de chorar... E não sei porque também, desejei o chapéu côco do velho desdentado e distraído, única coisa que me atraía naquele trapo de homem. Eu fulminava o senhor com meus olhos úmidos e me via, num devaneio, nua, apenas com o chapéu côco, cavalgando, impetuosa, sob o luar letal, como Godiva, rasgando a noite, avançando para o nunca. Meu cavalo, dourado, como meus cabelos... Godiva, nua e branca, repleta do veneno da lua.
E, por instantes, me esqueci dos gerânios, que tombaram de minhas mãos, trágicos, e se despedaçaram, com seu vasinho de argila, a meus pés, interrompendo o silêncio e fechando as cortinas de meu palco de sonhos.
Só então o velho percebeu que não estava sozinho. Me olhou azul- profundo, olhos de safira, e sorriu vermelho- rosado e chorei mais forte ainda, como só havia feito uma vez, quando criança, porque me queimaram acidentalmente com um cigarro e o que mais doeu não foi a queimadura, mas a falta de cuidado comigo.
O senhor sorria como se visse um anjo, ou uma imagem adorada e perdida há séculos. Depois ficou sério e pensativo outra vez. Sua pele, um maracujá enrugado. Sua boca vazia interrogava.
Mas os olhos... Olhos não murcham em vida como acontece com o resto. E os olhos azuis do velho eram os de um bebê que sonha com magos...
Ele se levantou com a ajuda de uma bengala. Desceria na próxima estação.
As portas se abriram e ele se foi.
Então mudei meu rumo mais uma vez: desci antes de minha estação, com o único e inútil objetivo de seguir aquele homem.
Mas ele desapareceu numa esquina escura, em meio a uma nuvem de poeira cinza, como se houvesse entrado em um portal.
E me deixou uma dádiva: o vento trouxe para mim o chapéu côco, num redemoinho, coberto de pó, rodopiante como uma bailarina.
Abracei meu presente e caminhei para a loja de discos

IV
Depois voltei pra casa
Entrei, tirei os sapatos apertados e as roupas suadas e as abandonei sobre os livros. Deixei o chapéu côco dentro de um baú de madeira. Senti frio. Me agasalhei, dormi e sonhei que sonhei.
V
Entre ontem e hoje
Primeiro sonho: A leveza e o peso
Estamos em um galpão escuro, meus amigos e eu. Todos os rostos estão encobertos pelas sombras, menos um, o de meu melhor amigo. Não posso dizer de quem são os rostos ocultos, mas sinto que são de pessoas queridas. Eles jogam cartas. Chove. Não jogo, apenas assisto. Adormeço e sonho.
No sonho de meu sonho estou na rua da minha infância. A tarde perfeita é um desenho frio da agonia do sol. O vento suave atrapalha meus cabelos, estou dançando sozinha e vejo as casas de antes, os muros que pulei, as árvores que amei. O vento me diz que a infância é leve e suave... Giro até ficar tonta de prazer, rodopio até meu corpo se misturar à essência de todas as coisas e desapareço, num grito orgástico de nirvana.
Acordo no sonho sombrio e o galpão onde estamos está desabando sobre nossas cabeças. Uma parte do teto pesado destrói a mesa do jogo. Meus amigos estão chorando e me perco entre os escombros. Meu melhor amigo me encontra, segura minha mão e me conduz por entre as ruínas.

Segundo sonho: A guardiã das flores

Ela se chama Luna, tem os olhos cinzentos, como os dos cães da Sibéria. Seus cabelos são vermelhos, como a fúria dos vulcões. Seu corpo esguio, pálido e nu, mora no jardim de violetas, pintado do outro lado da janela do meu quarto.
Todas as manhãs, eu a vejo. Ela se alimenta de flores e dança entre os perfumes.
Luna não me conhece e nem sabe que é observada.
Um dia, decido roubar uma violeta, só para apertá-la entre meus dedos, até vê-la sangrar...
Entro no jardim e arranco uma flor. Luna me vê e me deseja. Seus olhos lascivos me enfeitiçam; o cheiro de seus cabelos dói dentro do meu corpo.
Quero tocar sua pele, mas fujo, pisoteando pétalas. Alcanço minha janela, ofegante, e entro em meu quarto. Do jardim, Luna me olha triste e adoeço.
Absorto, em se alhear de si
Teu olhar é uma praga sem sentido...
Outra imagem, no mesmo sonho: meu braço está esticado sobre uma mesa. Na palma de minha mão aberta, uma rosa. Cerro o punho lentamente e massacro suas pétalas roxas.O abro novamente e a rosa não está mais lá: resta apenas uma poça de líquido escuro, cujo perfume sufocante provoca meu desejo de amar. Ergo a mão, em câmera lenta, apoiando meu cotovelo sobre a mesa, como se me preparasse para uma queda de braço. O líquido escuro escorre pelo meu antebraço, se dividindo em finos fios, como se meu pulso estivesse aberto e sangrando.

VI

Hoje
E se eu beijasse os sapos? Eles se tornariam príncipes? E quem me libertará do feitiço de Luna? É nela que penso agora, ela que é meu susto.
Salto da cama e decido viver: contra essa semi-imobilidade na qual me encontro, só mesmo um bom passeio de bicicleta.
Roupas pretas para um dia de inverno: um casaco, calças e luvas. Me arrumo diante do espelho, beijo os sapos e, em seguida, fujo sobre duas rodas

VI

Estou circulando a lagoa, o vento me diz pra eu fechar o casaco e uiva em meus ouvidos, como um filhote de lobo ferido. “Sou suave nocivo” ele me diz. Me pede pra eu não morrer jovem para não sufocá-lo de saudades.
As arvores, cinzentas como o céu, perdem folhas para o acaso...
Um sol raquítico emerge das sombras e luta com a escuridão.
A tarde se divide em duas: de um lado, a luz do sol perfurando as nuvens espessas e, do outro, o céu metálico por trás de uma árvore banhada de luz.
Estou entre duas curvas, me sento e choro olhando a paisagem.O céu se parece com os olhos de Luna, melancólicos e enigmáticos... Ouro e prata fundidos no verde desbotado. Daqui a pouco farei parte da do desenho dourado da curva triste. Alguém, chorando, me observará?
Prossigo. Mordo o coração da vida: ele palpita e soluça entre meus dentes. Mariposa negra, me lanço contra tristeza fria da tarde de chumbo, na solidão de todas as curvas...
Do meu pulso aberto escorre a alma das flores.
Simone Teodoro, em 13-07- 05

Um comentário:

Franz Znarf disse...

estes dias me parece imensidoes vazias, onde geralmente uma pessoa se encontra.