sábado, dezembro 18, 2010

Assassinato na Rede



Ilusões deslizam
em cabos.
Mentira Virtual,
um eu diverso
me aniquila
numa página

Injustiça

Não é a gente que mata o tempo.
Ele é que é suicida.

quinta-feira, setembro 16, 2010

Ano versado



Naquele tempo
desfaleci sobre os traços
do desenho de teu corpo
recém inventado
pelo mestre das cores...

O que era eu?

Te vi nascer entre
voluptuosas curvas de nanquim,
preenchidas, nas ausências do tempo,
por matizes sonoros de sonhos.

O que era eu?

Trechos de azul disputando
teus espaços vazios
e o vermelho vivo do teu coração.

terça-feira, julho 20, 2010

Deserto

A tarde se fratura.
E o outono tem sempre
esse gosto de fim, que te aniquila.

O vento escuro suga tua alma
(aberta confusamente)
para a solidão das pedras frias: a matéria triste das montanhas.

Melancolias alcoólicas te povoam.

Bolhas de sonhos explodem no ventre
infecundo das estrelas.

Em vão, estendes os braços trágicos
a procura da alavanca que possa
frear o irreversivel.

Estás só, estática esfinge
sem enigma.

                                   Simone .T

segunda-feira, abril 26, 2010

Brincando com satélites


Você sonha comigo
Você sonha que estou
Encantando estrelas
Brincando com satélites
aprendendo esgrima em terreno lunar...

Forças estranhas me levam para longe...
Dançando entre asteroides.
Você chora como uma velha abandonada.

Cometas me arrastam pelo azul noturno...

Você sonha comigo
Você sonha que estou
Flutuando e queimando
Estilhaçando a lua com um grito.
Cavalgando estrelas
Encantando satélites
Pintando planetas no caos.

domingo, abril 25, 2010

Safo


-->
Princesas sáficas de cabelos roxos

Dançam ao redor da madeira

De velhos navios em chamas

Se beijam, bêbadas
Em louvor à Baco

Rajadas de flores verdes
Umedecem o coração do caos.
Borboletas aborrecidas
Sugam a inconstância do céu

Tua voz violenta toda dor
Veloz, como vagões em Gotann City

Eros, distraído, não me sabe infeliz

Por tua ausência
Se soubesse,
Choraria
Como cabelos de tempestade
Choram tristes perfumes.

terça-feira, abril 20, 2010

Você é virgem?!

Fui ao ginecologista.Exame de rotina anual. Aquele chato, cujo procedimento principal é o médico colocar uma coisa pontuda dentro da gente e tirar um pedacinho de célula.Além  disso, como a esperança é imortal, fui também, pela milhonésima vez, em busca de alguma solução para a sempre companheira tensão pré- menstrual.
Fiquei duas horas esperando o doutor.Quando ele chegou, iniciou o atendimento mais rápido da história da medicina: não ficava nem dois minutos com cada paciente. E eu tinha coisas pra contar, coisas tristes, tais como os monstros em que se transformam os pequenos problemas, nesses períodos mensais difíceis. E queria falar dos pesadelos, que me acordam no meio da noite, aos gritos desesperados, e comigo, toda a vizinhança. Queria falar também do medo absurdo do trânsito, dos amassados no carro, devido as crises de nervo injustificadas e repentinas durante as manobras, nessas épocas de revertério hormonal.E da falta de cor de todas as coisas.E da vontade, também injustificada, de me atirar na frente dos ônibus em movimento. Queria falar do meu coração, que palpita mais do que pode, e do sufoco que sinto e das explosoes de choro, e da vontade de virar eremita, e das brigas de novela mexicana que provoco.E de como me sinto um verme. E de como eu perco todo o valor que tenho e me sinto a pessoa mais triste do mundo, a mais sozinha, a mais desafortunada...
Mas dois minutos não seriam suficientes.Então ele me mandou entrar, me mandou tirar a roupa, me mandou deitar na maca, me mandou abrir as pernas e me mostrou minha vagina, em zoom 300%, numa tela de computador.Lá estava ela, vermelha, obscena, e gigantesca.Então pensei " aí está  a culpada dos meus crimes"... Vermelha, quente e bela. Vagina é o máximo.
Depois do choque do zoom 300% ele começou a me encher de perguntas. Vou reproduzir o diálogo, para dar um tom mais realista e dinâmico:

_O que te traz aqui?
_Rotina.E quero um remedinho pra TPM.
_TPM ou cólicas?
_ Eu sei a diferença.TPM mesmo, doutor.
_Já abortou?
_ Não.
_ Já engravidou?
_ Não.
_ Utiliza algum método anticoncepcional?
_ Não.
_ Tem vida sexual ativa?
_ Sim.
_ E como você faz pra não engravidar?
_ Não faço nada.
_ Por quê?
_ Porque o meu tipo de relação sexual não engravida.
_ E que tipo de relação seria esse?
_ Eu sou lésbica.

Até então o doutor tinha feito todas essas perguntas idiotas sem olhar para mim. Ele estava apaixonado pelo prontuário. Diante da minha resposta natural à sua pergunta imbecil, ele me olhou. E foi com perplexidade que me perguntou:
_ Então você é virgem?!
Eu ri. Ou melhor, caí na gargalhada. Saí daquela posição humilhante e me sentei na maca.
_ Doutor, se o que você chama de virgindade é uma mulher nunca ter sido penetrada por um pênis,pode ficar traquilo, pois não me enquadro  nessa categoria.Pode colocar, numa boa, essa coisa pontuda em mim,porque não vai arrebentar o meu hímen.Mas acho que seu conceito de virgindade é bem pobrezinho, né não?
Ele não aprendeu a lição. Continou fazendo perguntas burras:
_ Peraí, não tô entendendo.. Você namora?
_ Namoro a mesma garota há 4 anos.
_ e quando você descobriu que não queria mais homens....
_ Aff,vai estudar psicanálise!
E, por fim, depois daquela coisa pontuda me machucando, e da overdose de machismo e burrice, ainda me receitou um medicamento para TPM que não existia mais no mercado.

quinta-feira, abril 01, 2010

40 graus

Sulfúrica, ela rasteja
por ruínas de escuros tons.
A acidez que evoca, pranto inconsolável de crianças mortas.
A fome
As bombas
As batalhas

Queimando...

Enquanto o mundo trepida
matando de náusea
tripulantes de estômagos sensíveis.

Rasuras de sonhos


Queria agora estar sonhando
com um retorno feliz para casa( a nossa)
onde eu te encontraria debruçada
sobre rasuras de sonhos
gentilmente lapidados.
E tu me imprimirias
mais uma vez o teu sorriso,
o qual eu cuidadosamente sorveria
enfeitiçada por trilha sonora de chuva
e perversidades úmidas de luas escuras e mortas.

sexta-feira, janeiro 23, 2009

Pessimismo e monstruosidades mentais


Cena I

Acordo tarde, quase meio dia, acho, sol da porra, da puta que pariu, quentura do inferno, calor de agosto, pesado e sinistro como só agosto, gosto de sangue na boca dormida, me deram um soco, num sonho, nem sei quem foi o filho da puta que me arrebentou os dentes, nem dá pra sonhar de novo e quebrar-lhe o nariz, caralho, é que mordi a língua enquanto gritava palavras sem nexo pra uma multidão suja e feia, noutro sonho encardido e, que bosta, cagaram e não deram descarga, e a merda fica boiando, me olhando com cara de bosta, me interrogando, o que custa apertar um botão pra merda ir pra puta que a pariu, pras profundas do esgoto, que é o lugar dela, mas não, não fizeram o favor, e tenho de olhar pra isso logo no começo, deve dar azar, começar o dia olhando pro cocô alheio, eu creio, o espelho, ah, o espelho sincero e exato, desgraçado, minha cara amarrotada e esses olhos tristes com detalhes “Mortiça Adams” ao redor dos cílios, cabelo indescritível e, ah. Porra, essa água azeda no estômago, porra, porra, porra.

Cena II

Os sons, o silêncio, os sons do silêncio, tudo me incomoda, hoje, estar viva me incomoda, atravesso a rua, carros, motocicletas do capeta, e essas coisas monstruosas chamadas ônibus, essa piranha gorda bem que podia andar mais rápido, fica empacando minha vida, agora está estacionada na calçada, olhando para três frangos assados nojentos e gordos que nem ela, da boca da putona escorre saliva, cadela, porca, dá licença dona, digo, mas queria era socar até matar aquela cara obesa de prostituta do lar e enfiar no rabo dela um frango assado inteiro, dá licença, dona, repito, ela sai da frente e me olha com cara de cu e passo, marcho para o inferno, resignada, o supermercado, cheio, é quase o fim, o fim de semana e o fim da linha, ah, briga na fila do caixa, sei lá por que, tomara que se matem, os infelizes, um filho da puta chuta minha cerveja,ah, tudo tão pesado, as compras , o dia, coloquei as latas no chão pra descansar os braços e um cuzão cego chuta minha cerveja, as latinhas deslizam, deslizam, como uma patinadora desengonçada e param perto dos sacos de arroz. Não falo nada, filho da puta, corno, vai tomar no cu, quase grito.

Cena III

Menor, insignificante, e essa porra de água azeda no estômago, ah, quero vomitar a vida , em golfadas fortes e obscenas, vomitar meu medo da morte, minha covardia, meus fracassos, minhas raras e rasas alegrias, meus amores intensos e doídos, quero vomitar a podridão que me espera, todos os desprazeres, os esforços em vão, os meus sonhos mais belos e ingênuos, essa luz toda, toda essa luz(dor de cabeça!), esse barulho insuportável de silêncio, a vida, essa coisa gordurosa.
Que náusea, tomar no cu, que náusea,
Poesia? Sempre vai ter a merda boiando na privada. Eu desisto.

quarta-feira, janeiro 21, 2009

Hormônios colidindo com estrelas


Ao passar uma temporada de extase no inferno, Rimbaud, o alquimista das palavras delirantes, proferiu: " Sei hoje saudar a beleza".O saber exige aprendizado, processo, ainda mais quando se trata de algo que diz respeito à sensibilização do olhar, à abertura dos poros,à educação dos ouvidos.Vemos o "Belo".O tocamos às vezes. O ouvimos.Uma sinfonia, uma tela expressonista, uma pétala orvalhada na moldura triste de uma manha fria de inverno...Imagens e sons. Tato. Olfato. Audição.
Saudar: tirar o chapéu, reverenciar, acenar com as mãos.Não quero mais o desespero dessa limitação.
Com ela, me acostumei a colocar a beleza em minha boca, mordê-la de leve, como quem espreme entre os lábios uma borboleta, numa atmosfera absurda. Prefiro que a beleza possua meu corpo,a começar pelo nariz, violentado por perfumes singulares, tais como adocicados cheiros de fios de cabelos cor- de ouro e de seios ardendo de desejo.Os seus perfumes singulares. Que provocam a fúria de minha delicada voracidade.Uma vez, numa mesa de bar, rabisquei para ela, num pedaço amassado de papel, umas palavras que diziam que eu tinha me tornado uma incompetente poeta, uma vez que ela tinha substituido a poesia em minha vida, por ser a minha fuga de todos os clichês e meu salto para fora de todas as convençôes.Todo poeta vive assim:Remexendo um caldeirão repleto de poções mágicas em busca de versos que cantem uma melodia diferente. Uma melodia digna de saudaçoes. O poeta quer fazer a palavra cantar. O poeta que tornar a beleza audível, visível, tocável.Mas chega o momento decisivo, de insustetável sofrimento: é quando o poeta deseja comer a beleza. Se cansa do velho caldeirão e começa a mastigar pétalas, beber as águas das chuvas, devora, literalmente, paginas inteiras de poesia. E o sofrimento reside justamente no fato de nem as flores, nem as águas, nem os livros de poemas poderem retribuir seu amor. O poeta deseja e ama sozinho. Eis a sua tragédia. Muitas vezes é tão imensurável seu desespero que a vida já não basta. E ele decide morrer.
Passei minha vida remexendo o tal caldeirão.Mas, como rabisquei naquele papel pardo, há alguns anos, isso não faz mais sentido.
Ela enche meus olhos de luzes mágicas, de cores impossíveis, de delicadezas de gestos, de sinuosidades deliciosas entre lencóis, de movimentos sutis de lábios molhados entreabertos, da lascívia magnífica de dedos deslizando em meio às pernas, seios, boca que me nutre.Ela transborda meus ouvidos de sons de hormônios colidindo com estrelas e astros e nuvens de tempestades e harmonias inquietantes em espaços oníricos onde escorre lava.Ela enche minhas mãos de curvas, onde me perco por instantes, para , em seguida, nos encontrarmos, exaustas de amor .Ela é a minha mais incrível "experiência" poética.
Aprendi a devorar a beleza.

terça-feira, janeiro 20, 2009

Era uma vez um pássaro delicado
cujo voo surpreendente
resultou
em queda triunfal
nas armadilhas dos meu lençóis.

sábado, julho 12, 2008

Telescópio (Alucinação simples II)


Meu sonho:
Era uma lua de...
O tempo.
O planeta do gigante azulado.
Anéis de cristais de gelo e poeira girando ao redor do equador...
As luas de cada um.
Uma foto batida
De belo tom azul esverdeado.

O companheiro temporão percorre o segredo agora.
O pequeno corpo gasoso e gigante...
Treze olhos, uma órbita.
Plutão, Saturno, Júpiter. Antes.
Depois: um banho de cigarros e
Você, meu pecado especial.
A terra jamais foi semelhante.

domingo, janeiro 27, 2008

Imagens sobrepostas




I


Campo imenso: meus pés massacram morangos maduros que explodem dramáticos espirrando vermelhos variados.


Uma perspectiva de infinito, associada a um céu doloroso de outono( "os verdes e os rubros do crepúsculo...") confere à cena uma tonalidade erótica: sou feita de labaredas audazes, que anseiam por devorar o infinito, a dor do azul, a alegria melancólica do outono, os morangos explosivos.


Perfumes de rosas gritam agudos e ferem meus sentidos já perturbados por tanto céu, tanta dor, tanto fogo...


" A vida verdadeira está ausente"

" O amor precisa ser reinventado"_ Ele disse.


Rimbaud me comove, você sabe, e choro maravilhosamente sobre essas frutas arrebentadas, meus pés assassinos tingidos de sangue... Iniciada na ausência( único estado ontológico onde a vida original é possível) sorvo o sal de cada lágrima, como sorvo gota a gota teu sexo que, neste instante, se dilui docemente sob a suavidade do meu toque.


II


Bebo-te lenta e aflita, faminta e extasiada...

Rosa umedecida que se abre, dócil para meus beijos pervertidos...

Borboleta insana dos meus sonhos mais antigos...

É claro que o amor está me consumindo...

Pétalas terríveis me arrebatam para o desejo de com você

ser flor

me diluindo...


Nos tornamos coração? Flor, céu, fogo, lenda, pecado,delírio, dilúvio, asas de mariposa?


De poros bem abertos posso acolher-te no lado inverso de minha pele. Fazer de ti habitante de mim. Beber teu sangue, mastigar tua carne, comer teus cabelos. Com a volúpia doce de quem devora uma pétala.


III


Meu Cálice Sagrado,


teus dedos e língua me vasculham e, ausente, triunfo.

"Um paraíso de tempestade despedaça"

"A lua queima e uiva"


Reinvento cores, sonhos, palavras, outras eras, países distantes, substâncias primordiais, epifanias lunares, orvalhos, manhãs frescas de outono, montanhas, ventanias, canções de ninar, delicadezas de pássaro...


Minha Poesia inquietante,

deliciosamente erótica

absurdamente lírica,

fluindo

cálida e intensa

como morangos arrebentados, sob pés delicados de menina, num campo profundo, azul de infinito, numa tarde outonal.


sábado, julho 28, 2007

Assovio no vento escuro

“A vocação da poesia não é nos deslumbrar com uma idéia surpreendente; mas sim fazer com que um instante do ser se torne inesquecível e digno de uma insustentável nostalgia.(Milan Kundera)



I

Hoje

Acho que choveu. Dessas chuvinhas finas que prenunciam as baixas temperaturas.
Não ouvi rumores de chuva de madrugada. Acho que choveu porque a terra está úmida, as plantas estão lavadas e o céu é triste, como um trem que desaparece numa curva.
Hoje está mais frio do que ontem. Três grossos cobertores me aquecem, tenho três meias nos pés, calço luvas azuis e olho para meus sapos ornamentais, que compartilham a velha mesinha empoeirada com os livros amarelados. Eles não olham para mim: estão petrificados, para sempre, na mesma posição; enfeitiçados por alguma fada malvada, eles olham, cada qual, para uma direção, ausentes de tudo.
O sapo maior, a quem chamo, carinhosamente, de Voltaire, tem longa pernas, amarelas e finas, calça botas marrons, meias brancas e usa óculos. Com a mão esquerda, segura um livro de capa vermelha, para o qual olhará para sempre (ou até que eu o derrube, por descuido, e o liberte dessa prisão eterna). Na mão direita, uma pena, que é, na verdade, uma caneta. Voltaire usa uma peruca, daquelas que os nobres franceses usavam nas vésperas da Revolução. Acho que sua boca semi- aberta, como a de um peixe, sorri, e fico assim, por muito tempo, imaginando qual seria o motivo desse sorriso verde e sem dentes, qual seria...
À esquerda de Voltaire está Morrissey, meu outro sapo verde de gesso. Está quase nu, quero dizer, veste uma cueca que lembra uma fralda, segura um microfone dourado com a mão esquerda e traz, no peito, uma medalha, também dourada, com uma estrela vermelha de cinco pontas, gravada em alto relevo no centro de um círculo.
Parece que Morrissey estava cantando quando a fada do mal o condenou para sempre, porque posso ver sua língua cor-de-rosa quase que solfejando uma canção triste, em ré maior...
Talvez não. Talvez Voltaire e Morrissey estejam boquiabertos, não pelo fato de, na hora fatal, terem sorrido ou cantado; mas sim porque ficaram assustados quando um feitiço os privou de seus movimentos. Susto. O mesmo que faz uma pessoa morrer de olhos abertos...
A morte, meu medo maior.
Meus sapos, fotografias de gesso coloridas de verde, estão mortos e débeis, contemplando o nada

I

Ficou tudo tão mais frio de repente... Culpa dos sapos estáticos. Desvio, então, meu olhar para a janela: o céu denso me lembra um fragmento de poema
Hoje o céu é pesado como a idéia de nunca chegar a um porto...
A chuva miúda é vazia...
A hora sabe a ter sido
Não haver qualquer coisa como leitos para as naus!
Absorto, em se alhear de si, teu olhar é uma praga sem sentido...
Estou, há horas, sob esses cobertores, olhando para sapos e janelas, não consigo me levantar, meu corpo é denso como o céu de chumbo, tenho sono, sinto frio, são três da tarde de uma segunda-feira de julho e uma música chatinha pressiona meus tímpanos, ah, esses vizinhos e suas canções gospel de rimas paupérrimas e previsíveis, me irritam, como me irritam...
Fico pensando se não fui vítima de uma fada-bruxa mal amada, dessas que povoam as estórias infantis... O mesmo encantamento dos sapos... Quer dizer, um pouco parecido: eles estão aprisionados em seu último movimento, e eu estou condenada a ficar eternamente me movendo, aflita, sobre este colchão, em busca de uma posição confortável, que não permita que minhas pernas fiquem dormentes ou que minha nuca doa. E, enquanto me debato, desarrumando lençóis, sou obrigada a olhar para sapos de gesso, para janelas, para um céu pesado e amargurado, para meu próprio peso, para portas trancadas.

III

Ontem

Ontem à tarde saí para fazer compras. Eu precisava de flores, de um disco de Debussy e de maçãs.
Eu tinha de decidir o que fazer primeiro: ir à floricultura antes de ir à feira e, depois, de metrô, ir até a loja de discos. Ou minha prioridade seriam as maçãs? Por que eu precisava de maçãs? E de flores? E de Debussy?
Era difícil. Tão difícil que desisti de decidir e saí sem rumo pela tarde vermelha.
Andei sem destino por horas... Vi rosas em jardins de casas amarelas, as nuvens pálidas se dispersavam lentamente...
Já era noite quando entrei no mercado das flores. Comprei gerânios e, em seguida, caminhei até a estação do metrô.
O vagão estava quase vazio. Um velho de calças puídas e de chapéu côco olhava, distraído, para a paisagem que se esfarelava do outro lado da janela.Então minha atenção se dividiu entre meus belos gerânios, a singular figura do velho de chapéu côco e uma lua quase erótica, que se insinuava para mim, desenhada na escuridão.
Os gerânios e a lua, fada do mal... Não sei por que motivo eu tive vontade de chorar... E não sei porque também, desejei o chapéu côco do velho desdentado e distraído, única coisa que me atraía naquele trapo de homem. Eu fulminava o senhor com meus olhos úmidos e me via, num devaneio, nua, apenas com o chapéu côco, cavalgando, impetuosa, sob o luar letal, como Godiva, rasgando a noite, avançando para o nunca. Meu cavalo, dourado, como meus cabelos... Godiva, nua e branca, repleta do veneno da lua.
E, por instantes, me esqueci dos gerânios, que tombaram de minhas mãos, trágicos, e se despedaçaram, com seu vasinho de argila, a meus pés, interrompendo o silêncio e fechando as cortinas de meu palco de sonhos.
Só então o velho percebeu que não estava sozinho. Me olhou azul- profundo, olhos de safira, e sorriu vermelho- rosado e chorei mais forte ainda, como só havia feito uma vez, quando criança, porque me queimaram acidentalmente com um cigarro e o que mais doeu não foi a queimadura, mas a falta de cuidado comigo.
O senhor sorria como se visse um anjo, ou uma imagem adorada e perdida há séculos. Depois ficou sério e pensativo outra vez. Sua pele, um maracujá enrugado. Sua boca vazia interrogava.
Mas os olhos... Olhos não murcham em vida como acontece com o resto. E os olhos azuis do velho eram os de um bebê que sonha com magos...
Ele se levantou com a ajuda de uma bengala. Desceria na próxima estação.
As portas se abriram e ele se foi.
Então mudei meu rumo mais uma vez: desci antes de minha estação, com o único e inútil objetivo de seguir aquele homem.
Mas ele desapareceu numa esquina escura, em meio a uma nuvem de poeira cinza, como se houvesse entrado em um portal.
E me deixou uma dádiva: o vento trouxe para mim o chapéu côco, num redemoinho, coberto de pó, rodopiante como uma bailarina.
Abracei meu presente e caminhei para a loja de discos

IV
Depois voltei pra casa
Entrei, tirei os sapatos apertados e as roupas suadas e as abandonei sobre os livros. Deixei o chapéu côco dentro de um baú de madeira. Senti frio. Me agasalhei, dormi e sonhei que sonhei.
V
Entre ontem e hoje
Primeiro sonho: A leveza e o peso
Estamos em um galpão escuro, meus amigos e eu. Todos os rostos estão encobertos pelas sombras, menos um, o de meu melhor amigo. Não posso dizer de quem são os rostos ocultos, mas sinto que são de pessoas queridas. Eles jogam cartas. Chove. Não jogo, apenas assisto. Adormeço e sonho.
No sonho de meu sonho estou na rua da minha infância. A tarde perfeita é um desenho frio da agonia do sol. O vento suave atrapalha meus cabelos, estou dançando sozinha e vejo as casas de antes, os muros que pulei, as árvores que amei. O vento me diz que a infância é leve e suave... Giro até ficar tonta de prazer, rodopio até meu corpo se misturar à essência de todas as coisas e desapareço, num grito orgástico de nirvana.
Acordo no sonho sombrio e o galpão onde estamos está desabando sobre nossas cabeças. Uma parte do teto pesado destrói a mesa do jogo. Meus amigos estão chorando e me perco entre os escombros. Meu melhor amigo me encontra, segura minha mão e me conduz por entre as ruínas.

Segundo sonho: A guardiã das flores

Ela se chama Luna, tem os olhos cinzentos, como os dos cães da Sibéria. Seus cabelos são vermelhos, como a fúria dos vulcões. Seu corpo esguio, pálido e nu, mora no jardim de violetas, pintado do outro lado da janela do meu quarto.
Todas as manhãs, eu a vejo. Ela se alimenta de flores e dança entre os perfumes.
Luna não me conhece e nem sabe que é observada.
Um dia, decido roubar uma violeta, só para apertá-la entre meus dedos, até vê-la sangrar...
Entro no jardim e arranco uma flor. Luna me vê e me deseja. Seus olhos lascivos me enfeitiçam; o cheiro de seus cabelos dói dentro do meu corpo.
Quero tocar sua pele, mas fujo, pisoteando pétalas. Alcanço minha janela, ofegante, e entro em meu quarto. Do jardim, Luna me olha triste e adoeço.
Absorto, em se alhear de si
Teu olhar é uma praga sem sentido...
Outra imagem, no mesmo sonho: meu braço está esticado sobre uma mesa. Na palma de minha mão aberta, uma rosa. Cerro o punho lentamente e massacro suas pétalas roxas.O abro novamente e a rosa não está mais lá: resta apenas uma poça de líquido escuro, cujo perfume sufocante provoca meu desejo de amar. Ergo a mão, em câmera lenta, apoiando meu cotovelo sobre a mesa, como se me preparasse para uma queda de braço. O líquido escuro escorre pelo meu antebraço, se dividindo em finos fios, como se meu pulso estivesse aberto e sangrando.

VI

Hoje
E se eu beijasse os sapos? Eles se tornariam príncipes? E quem me libertará do feitiço de Luna? É nela que penso agora, ela que é meu susto.
Salto da cama e decido viver: contra essa semi-imobilidade na qual me encontro, só mesmo um bom passeio de bicicleta.
Roupas pretas para um dia de inverno: um casaco, calças e luvas. Me arrumo diante do espelho, beijo os sapos e, em seguida, fujo sobre duas rodas

VI

Estou circulando a lagoa, o vento me diz pra eu fechar o casaco e uiva em meus ouvidos, como um filhote de lobo ferido. “Sou suave nocivo” ele me diz. Me pede pra eu não morrer jovem para não sufocá-lo de saudades.
As arvores, cinzentas como o céu, perdem folhas para o acaso...
Um sol raquítico emerge das sombras e luta com a escuridão.
A tarde se divide em duas: de um lado, a luz do sol perfurando as nuvens espessas e, do outro, o céu metálico por trás de uma árvore banhada de luz.
Estou entre duas curvas, me sento e choro olhando a paisagem.O céu se parece com os olhos de Luna, melancólicos e enigmáticos... Ouro e prata fundidos no verde desbotado. Daqui a pouco farei parte da do desenho dourado da curva triste. Alguém, chorando, me observará?
Prossigo. Mordo o coração da vida: ele palpita e soluça entre meus dentes. Mariposa negra, me lanço contra tristeza fria da tarde de chumbo, na solidão de todas as curvas...
Do meu pulso aberto escorre a alma das flores.
Simone Teodoro, em 13-07- 05

sexta-feira, julho 27, 2007

Inverno



Hoje evoquei esse céu de chumbo.
Numa tarde aveludada assim, fui esculpida....

quinta-feira, julho 26, 2007

Sobre olhos e feitiços


Ela tinha um olho verde e o outro azul. E eu que havia pensado que certas coisas jamais acontecem... E eu, que acreditava que algumas fantasias de minha mente sonhadora fossem como os unicórnios ou como os sacis-pererês...
Naquela tarde chuvosa entrei no ônibus como fazia sempre. O caminho é longo até os assentos do fundo e ter de olhar para os rostos dos que estão sentados e ser observada por eles é torturante. Por isso olho para o chão. E caminho até alcançar meu lugar, de onde tenho a impressão de tudo controlar: observo a todos e não sou observada.
Gosto de olhar para as nucas das pessoas. Dessa forma, invento para cada passageiro um rosto imaginário, e , em meus devaneios(apenas em meus devaneios...) estes rostos sorriem...
As vezes saúdo rapidamente algumas pessoas que encontro com freqüência no ônibus: "olá, tudo bem?", nada pessoal, nada de longas conversas. Na sacudida do ônibus eu desenho; imersa em meu mundo fantástico tento refazer-me também sorrindo, como reinvento os demais .
Naquela tarde chuvosa eu queria ver a paisagem molhada. Me esqueci das nucas e de meus esboços imaginários de felicidade e voltei minha atenção para a janela.
Chovia como se fosse o fim. As pessoas pareciam tristes e tudo, as ruas molhadas, as sombrinhas com suas estampas floridas, os guarda-chuvas negros... tudo era a soma de toda a tristeza que parece camuflar-se quando faz sol e todos suam e gargalham excitados.
Quando chove alguma coisa acontece. Algum mistério se aproxima das fronteiras da revelação. Quando chove eu quase descubro.
Ela estava entre a janela e eu. Sentada à minha direita, parecia desenhar rostos imaginários para as nucas que via. E eu, que a via de perfil, pensei com meus botões que aquele era o rosto que eu sempre quis inventar. E tinha aquele olho azul.... tão azul, azul que fiquei falando para meus botões: turquesa, turquesa.... e quando percebi eu já havia mergulhado. Obra do amor, pensei. Só o amor faz coisas tão perfeitas e belas. E a palavrinha martelava em minha cabeça: turquesa, turquesa.... ela devia ter trinta anos e tinha olhos de miosótis.... miosótis, miosótis... turquesa, safira.... e isso virou poema e canção misturada à chuva que caia....
Eu nunca havia visto um olho assim. Era um azul tão vivo! Eu a observava sem que ela soubesse. Eu amava o amor que havia criado tanta beleza e adorava a vida por colocá-la diante de mim....
E assim, absorta, entregue, permaneci durante todo o percurso até a universidade. Era hora de emergir. Eu havia de seguir meu rumo. Saí de dentro daquele olho profundo, respirei e dei o sinal.
Foi então que vi o rosto completo.
Ela tinha um olho verde e o outro azul. Meu Deus!!! O outro olho, o direito, era verde!!! E era tão suave, tão parecido com a chuva, que contrastava com a intensidade do outro adorado por mim há minutos.
Não pude conter o meu espanto. A olhei fixamente , como se olha para um fantasma ou como quem vê um vulcão vomitando lava.
Erupção vulcânica!!! Pareciam dois rostos contidos num só. Pareciam duas pessoas dividindo a mesma cabeça e o mesmo corpo. Uma alma se revelava em cada olho: a alma verde era terna, angelical e me seduziu. A alma azul possuía o cinismo dos felinos. Ah.... e me seduziu também....
Me lembrei de um filme mediano sobre bruxas que eu havia assistido em uma noite qualquer.(gosto muito das histórias de bruxas).
A atriz Sandra Bulock era uma bruxa boa que tinha medo de amar. Um dia prometeu para si mesma que só se apaixonaria de verdade se em sua vida surgisse um homem com uma característica especial: ele deveria ter um olho verde e o outro azul. A intenção era não se entregar nunca ao amor, pois as possibilidades de existir no mundo uma pessoa com um traço fisionômico tão peculiar eram remotas. Tudo bem!! Talvez até existisse, mas "cair de pára-quedas" em sua vida.... Ah, isso não aconteceria... mas o amor!!! É mestre em fazer a diferença!!! O ser humano idealizado pela bruxa acaba aparecendo. E ela não pode conter o espanto: ele tem um olho verde e o outro azul e ela está apaixonada....
O ônibus parou. O felino e o anjo me encararam. E eu que não havia desviado o olhar até então, percebi que a porta já estava se abrindo. Eu tinha de descer... o felino e o anjo me olhavam através daquele rosto ambíguo de trinta anos.
Eu desci. Desorientada, dei o primeiro passo no mundo real, que com gritos roucos me chamava.
Ela tinha um olho verde e o outro azul. Anjo, felino, turquesa, safira, miosótis...
E eu, que tinha modos de feiticeira, deixara-me enfeitiçar
Simone Teodoro

quarta-feira, julho 25, 2007

La valse d'Amélie I


Depois da manhã fria
Triste e musical
Depois da tarde impossível em que
Entorpecida fui o mundo:
A noite onde flui a Rosa Sangüínea.
O jardim incandescente e inventado
Fluorescente e inacabado
A Rosa Sangüínea flui que flui para
O nunca
E me espreita pela fenda de mim:
Figura central no fluorescente jardim.
Escorro pela fenda
Escorro fria e fleumática
Fluvial e fantasmática
E no fluir nos encontramos, a Rosa e eu,
Para no hipotético fim
Nos perdermos de nós
Três bailarinas de pernas
Amarelas e compridas
Dançam sob o sinistro luar

terça-feira, julho 24, 2007

Momento triunfante ou A dança da cor certa ( breve narrativa de amor)

Gosto úmido de um gozo singular.
Cheiros, sons e tato...
Estamos juntas e uma luz azul de teto envolve sua nudez, nesse momento toda feita para mim...
"Um delírio  de luz",penso , gozando.
Que me atravessa com esse azul rápido, faiscante.
O azul dela dentro da escuridão do meu corpo.
O corpo dela, todo dentro do meu.
Estar em transe: ter um deus dentro de si.
_Deusa azul que me penetra.

Raquel

Raquel,
durmo ao abrigo do teu nome
esculpido mais de duzentas vezes
entre meu sono
e o céu