quarta-feira, junho 27, 2012

Mendigos



Não falo das criaturas encardidas que perambulam como mortos-vivos pelos caminhos urbanos, muitas das quais, em suas vestes quase bíblicas (que bem poderiam ser restos de túnicas de profetas do velho testamento, corroídas pela ação inexorável dos milênios), possuem o aspecto mineral das rochas escuras e impenetráveis. Não falo também de outra categoria de mendigos, a que é vegetal, cujas pernas se assemelham a grossos troncos tomados por lodo e líquens; cujas unhas compridas têm a aparência de raízes de árvores ancestrais e cuja cabeleira, enroscada de galhos, folhas e ninhos de pássaros,se comporta como se estivesse na cabeça de um antigo fauno.

Falo de mim e de um cão de raça indefinida que, certa noite, quis tornar-se minha sombra, enquanto eu protegia meus olhos das travessuras de uma nuvem de poeira excitada pela impetuosidade do vento, que anunciava tempestades.

Naquela noite, na rua por onde eu passava, só havia a movimentação dos carros, o meu caminhar apressado e amedrontado e os passos do cachorro atrás de mim.

 Até que tentei fugir, mas de nada adiantou andar mais depressa: sua velocidade se adequava à minha; ele tinha pernas compridas, patas grandes. Parecia estar faminto, mas tinha ainda muita energia para tal perseguição.

E assim continuamos: eu caminhando, protegendo os olhos com as mãos,e o cão no meu encalço, rápido como eu, mas de cabeça baixa, como se estivesse com vergonha. Isso durou até a chegada ao portão de grades de minha casa.

Quando parei para pegar as chaves, o cão parou ao meu lado. Olhei para ele. Ele me olhava também, com parte considerável da língua para fora daquela enorme boca que babava.

“Oi, Au-Au, nessa humilde casinha só cabem eu e eu. Você infelizmente vai ter que voltar para seu canil, ou para seu dono malvado que te deixou sozinho nessa noite esquisita, ou sei lá, para país dos cachorros abandonados”, eu disse.

O desgraçado balançou o rabo, e como todo mundo sabe, cachorro balançando o rabo quando ouve a voz da gente  significa cachorro sorrindo pra gente.

“Esse castelo de pulgas riu pra mim. Estou fodida”. Pensei, enquanto terminava de destrancar o portão. Os olhos sorridentes do cão sem dono pediam.

Antes de subir as escadas, ainda pude ver, através das grades, aquela cara que implorava. Solenemente fingi indiferença. Um banho quente me esperava.

No aconchego do lar, após  um dia cansativo, tudo estaria a salvo se não fosse o espinho no dedo em formato de olhar de cachorro, me atravessando a carne.

Então, algumas horas depois (eu já estava de pijama e de luzes apagadas) uma coisa forte como o vento me impeliu para fora da cama, me fez caminhar até a porta da sala, me fez descer as escadas e olhar através das grades do portão.

Ele ainda estava lá, me esperando na ventania.

Deixei-o entrar. Subimos até à cozinha. Na geladeira encontrei pedaços de carne congelada há muito tempo, que eu jamais comeria.

Enquanto acionava os comandos do microondas e esperava o tempo necessário, olhei de novo para o cachorro, cujo sorriso nos olhos havia se transformado em agradecimento. Ficamos nos confrontando, silenciosos. A noite cantava, lá fora, as desarmonias inquietas de ventos de tempestade.

Lembrei-me de cenas muito antigas: numa delas eu esperava que meu pai viesse me salvar de uma melancólica noite de Natal. Naquela triste época de privações sempre havia a esperança de que o retorno do pai a casa fosse coroado com o alimento conquistado com o suor de seu trabalho.

Ele não apareceu. Esperei, sentada sozinha numa calçada, de onde era possível ver o fim da rua,onde ele apontava sempre, virando uma esquina. Como implorei ao sol frio do fim do dia  por aquela presença adorada! Enfim, escureceu e eu ainda esperava, acreditando. Sei que eu tinha olhos de cão abandonado na noite. Eu sei.

Outra lembrança deixou-me triste como a chuva que já cuspia seu caos no silêncio da madrugada: minha mãe, num domingo remoto, me prometeu o paraíso.  Prometeu que ficaríamos ricas; bastava que fizéssemos as malas e viajássemos para a cidade onde ela havia nascido. Uma caravana viria nos buscar e nunca mais teríamos fome.

Fiquei abraçada à mala durante todo o domingo, no início, com a euforia de toda espera feliz, depois, no fim da tarde, com o aspecto de uma rosa morta.

Esse foi meu rito de passagem. Cresci. Só mais tarde, quando soube que doenças mentais existiam, pude perdoar minha mãe.

E quantas vezes  se repetiu em minha vida adulta esse triste processo que transforma perfumes de sonhos em enterros de flores?

Havia um cachorro na minha cozinha, me fitando com olhos marejados de amor. Eu Atirava-lhe pedaços de carne, pelos quais ele agradecia, com seu sorriso de balançar de rabo. Eu era sua deusa.

 Hoje fico pensando sobre sua raça. Seria um fila? Talvez. Mas, é estranho, certa vez li que filas são extremamente amáveis com os donos, e proporcionalmente agressivos com estranhos. Aquele era dócil como um vira-latas.

A solidão e a falta podem  transformar até mesmo os mais aristocráticos pedigrees.

Mas o que eu queria de verdade é que, mesmo escaldada e faminta, eu fosse capaz de manter a nobre e orgulhosa arrogância dos felinos.


terça-feira, junho 12, 2012

Potes de vidro

    Dia desses vi Samuel Medina ficar perplexo diante de minha resposta negativa a uma pergunta sua. A pergunta era: " Si, você queria viver de literatura?"
    Bem, de certa forma eu já vivo pois , até onde eu saiba, não é todo graduado em letras que pode afirmar ser um TNS-Literatura, ou traduzindo em miúdos, um Técnico de Nível Superior cuja especificidade é trabalhar com a leitura literária.
    Tudo bem, ao dizer "viver de literatura", não era disso que ele falava. Estava, é claro, se referindo ao ato de escrever e toda a paixão relacionada a ele; se referia ao sonho de ficar o dia inteiro na frente do computador inventando histórias, pensando atravessado, evocando belezas. E recebendo por isso.  Se tornar conhecido, entrar para as listas do cânone, ser reverenciado, amado pelos estudantes de letras,etc,etc,etc.
    Eu disse que não queria. Eu disse que não podia. Eu disse que nunca esperei por isso.
    Se trata de simples apego ao chão onde piso: pelo pouco que pude sentir, o mercado é demasiado castrador: exigências e mais exigências e a poda de parte de nossos sonhos, censurados pela patrulha do politicamente correto. E há também a arrogância dos que já escrevem para ganhar dinheiro: muitos parecem crer que são a autêntica reencarnação de uma entidade  (uma verdadeira trindade) denominada MachadodeAssisGuimarãesRosaClariceLispector.
     Preciso deixar claro que nada tenho contra o mercado: sem ele os livros não teriam chegado às bibliotecas onde me nutri a vida inteira. Mas escritores metidos são uma merda muito fedida. Eu os detesto.

    Embora eu tenha alguns pré-requisitos, como ser sapatão (e não tenha outros- é bom lembrar!- como  ser feia,) eu seria uma péssima escritora, enfim, há muita concorrência, falta de mecenato e, o mais importante:  muita incompetência para as histórias. Sim: não sou boa de histórias, além do mais. Quando as invento, elas são bem fuleiras, não têm força. Sou boa mesmo é em remoer a minha história, cutucando as grandes chagas vermelhas das minhas pequenas tragédias pessoais. E sei também extrair sonhos de canções encharcadas de melancolia. Mas minhas tragédias e meus sonhos interessam a poucos e, por isso, se eu fosse tentar competir no mercado, certamente morreria de fome.
     Escrevo para que alguns leiam e amem as belezas que moram em mim.  E além disso, escrever vez ou outra é como guardar a beleza num pote de vidro, até que ela vire perfume: a juventude, o amor, delicadezas sensuais sob lençois, os excessos da paixão,  banhos quentes em  noites de outono...
    Então, alguémque a gente conhece, ou não, um dia abre o pote e nossa solidão toda invade suas narinas...
    Então há comunicação. Mesmo se a gente já tiver morrido.

    Queria ganhar muito dinheiro mesmo  escrevendo roteiros para as novelas da Rede Globo, porque seria só mais uma trabalho e nada teria a ver com a poesia.
    Mas não sei escrever histórias. Só remoer as minhas...

       Há um tempo abri um pote de vidro desses bem perfumados.Lá dentro encontrei poemas que venho traduzindo e postando aqui neste blog. No post anterior há três deles: Melodia, O vendo das ruas e Ovelha perdida. Todos de Anne-Marie-de-Backer, poeta Belga ( não é francesa, descobri recentemente), nascida em 1908 e falecida em 1987. Os poemas já postados e os que ainda serão fazem parte da obra Le vent des rues, primeiro livro de Backer, o qual é composto por 15 poemas.      
    Todos serão traduzidos e disponibilizados aos poucos.

Vamos a eles.. Depois divago mais sobre a sensação de traduzi-los nestes belos dias de ventos outonais...

Migrações
 Existe tão belo país, existe,
 De tão doces florestas e hálito de anêmonas;
 E olhares felizes que evocam suas tristezas,
E, por vezes, palavras ternas, esmolas.
 Há navios que singram para ilhas
Onde os mais negros pássaros têm ouro sobre as asas.
Guardiã cega de tesouros inúteis,
Há caminhos onde a vida é real.
 A Rainha do Oriente dorme sob as próprias ataduras,
O Amor dorme com ela na outra extremidade da terra.
 Quem vai te perdoar por ser quem você é,
 e por errar ao vento das praias solitárias?
Quem vai te perdoar por ser quem você é,
Meus olhos, que você fechou às claridades excruciantes,
E você Sonho ruim, que assusta e que inquieta
A razão, sem piedade para com o segredo dos amantes?
 Quem vai me perdoar quando eu estiver cansada,
Desta jornada febril, onde costumo abandonar tudo o que amo,
Sem nunca encontrar o sol ou as distâncias;
Desta jornada febril, onde eu giro em tono de mim mesma?
Recomeço
Cabelos- de-vênus cor de malva em meio ao trigo,
Nosso luto docemente se prolonga.
Todas as flores que já conversaram comigo
Não me disseram nada além de mentiras
 Permaneci fria e serena
Submersa em uma vida onde nada é seguro
Nem a água que se bebe, nem a memória
Daqueles que amamos, nem o azul ultramarino.
 Preparei meu último adeus,
Pois é preciso que se lembre de nós
Neste salão de cortinas azuis
Embaladas por valsas antigas
 Como um réquiem para aqueles que morreram
 E que nunca mais serão vistos novamente
 O vento atirava contra a minha porta
 Neve e folhas negras
 Mas em um casto caminho aberto entre o trigo,
A luz encontrou meus sonhos
Todas as flores que já conversaram comigo
Não me disseram nada além de mentiras
 A canção silenciosa das flores vivas
 Ressuscita em mim a vontade
De experimentar a mudança das estações
E o traiçoeiro resplendor dos meses
 E tudo começa outra vez, eu sempre soube.
Que meu universo se recolha
 E a virgem negra recebeu
 Minha fronte abatida contra seu vestido
 Sabedoria, quando eu a agradeço
 Pela movimentação de meus dedos gelados
Essa cândida hipocrisia
Que me liberta do passado
 Ela vê o meu amor, maior
Que o silêncio e a música
 E espreita, com seus olhos enigmáticos
Meu coração, que se protege.

                         
Resignação
 Eu não sei onde eu vou te encontrar. Sem dúvida
 Dentro do quarto, selado com cortinas rendadas.
E você verá chegar do fundo das estradas
Peregrinos sem rumo, e suas vestes escuras.
 Eu não sei onde eu vou te encontrar. Respigador
À beira do trigo cortado onde eu estaria sentada,
 Ou talvez parecido com a Esperança feliz,
Apanhadora de lírios, apanhadora de cerejas.
 Você mantém meu rosto imóvel e minha alma também,
 Longe destes oceanos onde nossos desejos estão escondidos,
Com sua voz sagaz você me faria ter medo
Das florestas, das ondas pesadas e das flores ​​sem estrelas.
Eu teria medo das canções que dançam nas estradas,
E revelam segredos, como fazem os Ciganos
 Canções que imploram para que as escutemos
Ao bater delicadamente nas portas dos aldeões
  Mas há canções pelas quais eu poderia morrer:
Elas vêm dentro da noite deslizar sobre minha face,
Ou como os pássaros voam para fora da janela
Atravessando os perfumes que as tílias agitam
E que nada trazem, mas parecem tudo prometer.

                                                                     Anne-Marie-de-Backer


                                                                                       





terça-feira, maio 29, 2012

Poemas de Anne-Marie- de Backer

     No post anterior escrevi sobre uma busca: a paixão virulenta provocada em mim por dois versos isolados de uma poeta francesa desconhecida, que me fez sofrer tanto por não encontrar, em lugar nenhum, suas obras de poesia. Nem em Paris. Nem na Internet.
Mas é preciso dizer que a saudade apertou de novo, depois que escrevi sobre ela. E e reiniciei minha busca.
Dessa vez não foi difícil. Encontrei por um preço razoável num site, uma espécie de Estante Virtual americana, que só agora faz entregas também para o Brasil. Comprei de um livreiro do interior da França.
Meu coração tremeu estranhamente quando encontrei meu exemplar de Le vent des rues na caixinha de correio.
 Foi como reencontrar, na existência atual, alguém por quem eu houvesse morrido de amor em outra vida.
Traduzir Anne-Marie-de Backer tem sido algo sobrenatural. Desfaleço a cada verso.
Fazer com que sua poesia encontre minha língua materna é conversar com os sonhos dela, tão parecidos com os meus...
Compartilho com meus escassos leitores três  de seus poemas, os quais traduzi recentemente.
Espero que gostem.


O vento das ruas
O vento de inverno, que já me conhecia,
Antes mesmo que você me conhecesse,
Nesta noite tocou minhas mãos nuas
Com um beijo triste e sem promessas.
Sob o plátano de folhas mortas,
Neste impasse em que me encontro,
Ele fechou todas as portas,
Batendo sobre o azul das viagens

E arremessando em suas casas frias
Bancos e cadeiras de avós
Ele me obrigou a ficar sozinho
Entre um velho poço e um muro inflexível

Meu bem, a cidade é grande,
Os lugares são mornos e avermelhados,
Sem este vento forte que me observa
Pode ser que eu me renda

Ele dança na beira dos telhados e brinca
Com a sombra das chaminés
Enquanto acaricia a melancolia de meu rosto
E dos lábios que outrora você havia dado para mim.

E apodera-se, sem que alguém venha em meu socorro,
Da sombra do meu corpo, por ele arrebatado.
Que eu resista a ele ou me curve sob seu peso
Quando ele me espreitar através das portas

Assim, meus belos desejos de espaço,
_pássaros sobre neves glaciais
Não persistirão neste impasse
Em que o vento de inverno me atirou

Os rostos e seus mistérios,
Os longos prados, os caminhos em linha reta,
Eu os contemplei sobre a terra,
Das poças d’água que brilham

E minha juventude desapareceu
Sob as margaridas floridas.
Como a rua estava escura
Quando o vento de inverno me traiu!
                                                                                         Anne- Marie de Backer



Melodia
Toda a felicidade que seu rosto havia dado para mim
Eu a cantei, eu a chorei, como um mártir.
Nosso futuro não passa de um parque deserto,
Mas a sombra é azul e, dentro da noite, flores respiram.
Há dias e estações em que é preciso sonhar.
Tu, que vais embora deslizando nas torrenciais cabeleiras das águas, sobreviverás?
Pássaros negros giram ao redor de teu castelo
E a Sereia fechou os olhos sobre tuas margens arenosas
Há dias e estações em que é preciso viver.
Alguém me atou e eu segui as fendas desenhadas no mar.
Tu, que vais embora, pálido e cativo, sobreviverás
Quando o vento te agarrar em seus turbilhões?
Toda a felicidade que seu rosto havia dado para mim
Eu a expiei como uma culpa sem perdão
Há dias e estações que nos conduzem
Em direção a nossos remorsos, a nossos jardins abandonados.
                                                                               Anne-Marie- de- Backerá HHHHHH







Ovelha perdida

Depois que se tinha recolhido os frutos da terra ao celeiro;
E trazido de volta todos os rebanhos antes da tempestade;
Eu caminhei só e perdida através da aldeia;
Entre os abetos azuis anjos maus cantarolavam.
Dedos cautelosos apagam as claridades das janelas
Dedos ternos desprendem cabeleiras escuras;
Crianças terríveis rezam na sombra:
Tudo foi preservado do que devia ser.

Mas eu não conhecia o Refúgio ou o estábulo,
Nem o ombro tranquilo onde a face respousa,
E seus beijos tremem ainda sobre minhas mãos fechadas.
Eu aceitei os perigos da noite medonha,
Que germinou das florestas sem astros e sem rosas.

 
Depois que se tinha recolhido os frutos da terra e as bestas,
A novilha e a ovelha perdida ainda eram procuradas,
A aldeia dormia, calma, na vastidão,
E eu abri lentamente os braços para a tempestade.
                                                                                     Anne- Marie- de -Backer







sábado, maio 05, 2012

Chorando diante de uma mala desfeita



I


Ela me telefonou e disse: “Querida, vamos à Paris em abril”. Hesitei: não tinha dinheiro, nunca tive. Sabe-se lá se algum dia terei.

A vida é curta e o mundo é vasto, eu sei. Viajar é preciso. Mas há as despesas domésticas, vastas como o mundo, e um salário ainda mais curto que a vida. Além disso, sempre houve as narrativas maternas que, durante muito tempo, castraram meus desejos cosmopolitas: acidentes nas estradas, pessoas perdidas, que nunca mais voltaram para casa, a preocupação excessiva com meu delicado estômago, quando sujeito ao movimento curvilíneo dos veículos.

Nem às excursões da escola eu ia. Sempre ouvia a mãe dizer: “Soube de um caso, certa vez, de um grupo de mocinhas que foi fazer uma viagem para uma gruta, o ônibus caiu numa ribanceira e não sobrou ninguém”. Às vezes a história sofria algumas corruptelas: “Soube de um caso, certa vez, de umas mocinhas que foram viajar, o ônibus estragou no meio da estrada, de madrugada, perto de um matagal, o povo teve de dormir ali mesmo, enquanto esperava o socorro mecânico; e as mocinhas foram todas estupradas e mortas”...

“Ih, mãe, para!” Eu respondia já desanimada. Ela prosseguia: “Você enjoa, minha filha. Vai ficar passando mal fora de casa. Isso é muito ruim. Passar mal e não poder voltar pra casa quando a gente quer é uma tristeza”.

Depois de me libertar da tutela da minha querida velhinha, com a chegada da idade adulta, viajei um pouco. E fui, paulatinamente, perdendo o medo incutido na infância. Não por completo, é claro. Porque as histórias de mãe grudam na pele, como cheiro de cebola. Para o bem, ou para o mal.

Mas minha namorada, certa noite, me ligou e disse: “Vamos, querida, à Paris em abril”. E eu tive que concordar, equilibrando-me entre a estranheza, a euforia e o medo de não conseguir pagar as contas no final do mês.

Era hora então de fazer os preparativos para a viagem. E, entre eles, é claro, havia a necessidade de selecionar algumas imagens, as imagens certas do que eu queria ver, para evitar possíveis decepções. Na época eu estava lendo Proust, justamente aquele episódio de Em Busca do tempo perdido em que o protagonista chega ao balneário de Balbec, e sofre uma das grandes decepções de sua vida. O fato é que Marcel tinha passado bons momentos de sua infância lendo livros sobre a Normandia medieval e  pensou que ao chegar a Balbec encontraria as imagens adoradas vistas nos livros. Rochedos. Pássaros estranhos e escuros sobrevoando o mar gélido. O canto melancólico dessas aves. Mas não.  Seu sonho havia perdido o trem da modernidade. Balbec, a da vida real, tinha um hotel à beira mar, repleto de turistas em férias. Sim, Alain de Botton estava certo ao dizer que quando o adolescente Marcel foi a Balbec pela primeira vez, saiu de casa com as imagens erradas na cabeça.

O que eu queria ver? Torre? Não.  Até queria ver sim, mas não apaixonadamente. Arco? Também não tinha nada a ver com meus afetos. Trocadéro? Ah, eu nem sabia o que era isso. Notre Dame? Talvez. Combinava mais com um certo misticismo que desconfio existir em mim.

Depois de muito ruminar cheguei a algumas conclusões. Quando Raquel me perguntou a respeito do que eu queria ver em Paris, eu disse: “Quero ir ao Pèrre Lachaise, ver o túmulo do Proust; quero encontrar os livros de Anne- Marie de Backer e, se possível, quero entrar na Saint- Chapelle.”.

É claro que a ordem aqui não importava: uma vez que eu faria tal viagem, ver o túmulo de Proust ou encontrar a poesia de Anne-Marie de Backer tinha a mesma urgência para mim. Nossa viagem se estenderia também à Londres , e meu único desejo ali, era conhecer a Galeria dos sussurros, que fica na Igreja de Saint Paul e é famosa por sua acústica “impressionante”.

II
Anne- Marie de Backer.

Conheci Anne Marie de Backer um ano antes da viagem, lendo um livro do Bachelard, chamado A Poética do devaneio. Lindo, lindo livro. Num capítulo intitulado “O cogito do sonhador”, fui ferida de morte por esses versos dela:

Deixou-me tudo o que preciso para viver:
Seus cravos negros e o seu mel no meu sangue

 E ainda:
A begônia de prata se desfolha no fundo das fábulas

Desfaleci.  E é claro que saí a procura de poemas inteiros dela, pelas tão bem sinalizadas avenidas da internet.

Nada. Apenas algumas informações biográficas, entre as quais estavam incluídos os nomes de suas obras de poesia. Nomes que me deixaram ainda mais inquieta, imersa em uma espécie de angústia que a gente só tem quando há a promessa de uma beleza desconhecida, e o desejo que tal beleza venha conversar com nossas feridas, com nossa orfandade, com nossa incurável solidão. A dança do cisne negro; As estrelas de novembro; O vento das ruas; A  erva e o fogo; A dama de Elche; Estrela Lúcifer; Urtigas com chamas azuis; O Sol da ventania...

Sonhei, sonhei muito com esses títulos, publicados entre os anos de 1952 e 1975.

Depois da decepção com o Google (o oráculo de Delfos da pós-modernidade) por causa de seu quase silêncio diante do desespero de minha busca, decidi procurar as obras para compra on-line.  Visitei sites de livrarias francesas, visitei o site da editora que publicou os livros de Backer, tentei a loja virtual da FNAC francesa e até apelei para a Amazon. Nada. Ou melhor, pouco, muito pouco: apenas um livro de crítica sobre sua poesia, o qual não me interessava.

Esqueci por um tempo Anne- Marie de Backer, como se esquece do olhar de alguém que desceu do metrô numa estação antes da gente, fazendo a gente pensar seriamente sobre universos paralelos, enquanto uma chuva fina cai sobre os trilhos, e faz doer com mais força em algum lugar, dentro, a saudade do que nunca existiu.

Quando a possibilidade da viagem surgiu, o desejo retornou impaciente. Eu sabia que o túmulo do Proust estaria lá onde havia sido colocado; sabia que a Saint-Chapelle não tinha migrado para a Ucrânia e sabia que em Londres, a cúpula da Saint Paul estaria a minha disposição, desde que eu estivesse disposta a pagar 6 libras por um ingresso. Mas, e minha poeta? Eu a encontraria?

Em Paris os dias não foram os mais felizes da minha vida. Fui acompanhada, durante todo o período  de estada na cidade, por uma velha dor de coluna, que não me importunava já há algum tempo. Minhas caminhadas eram sofridas, caminhadas de dia inteiro, uma via- sacra de museus e monumentos, sentindo algo deslocar-se na região dos meus quadris.

Foi bonito ver o túmulo do Proust; fiquei em silêncio, emocionada. Quase desmaiei na Saint Chapelle quando entrei na nave, cujas paredes são constituídas somente por belíssimos vitrais, por onde a luz passa, virando puro sonho, lá dentro. E quando fui à Londres, me decepcionei muito com a galeria de acústica “incrível”. Mas isso é outra história.

O fato é que, em Paris, outra dor veio andar de mãos dadas com os lastimáveis sofrimentos de meu corpo: não encontrei os livros de poesia de Anne-Marie de Backer.

Era dramática a forma como eu percorria a Rive Gauche, passando por cada barraca verde, onde livros carcomidos estavam expostos.  “ Bon jour! Je cherche des livres de Anne-Marie de Backer”; “ Vous avez des livres de Anne-Marie de Backer?”,perguntei, ínumeras vezes, num tímido, mas bem pronunciado francês. As respostas negativas pareciam fazer minha dor lombar ficar mais forte. Um dos vendedores, simpático senhor de boina e colete, me disse que era difícil mesmo, encontrá-la. “Talvez no Quartier Latin”, ele disse.

No dia seguinte fomos ao lugar indicado . Eu e Raquel entramos em grandes e pequenas livrarias. E o mais incrível é que os vendedores nem sabiam quem era a poeta. Uma moça até me perguntou: “Cette poétesse que vous recherche... Elle est française?”. “Oui, oui”. Eu respondia, com o coração cada vez mais vazio.

Enfim, voltamos para casa, com a mala cheia de discos, de livros de arte, de perfumes e de lembrancinhas para os queridos. Anne- Marie de Backer deve ter ficado no fundo de alguma caixa de livros amontoados, que eu não tive tempo de revirar...

No Brasil, ainda procurei por ela. E encontrei. Num site de uma “agência- detetive”, cuja missão é encontrar livros raros espalhados pelo mundo afora e vender para desesperados, como eu, pelos olhos de nossas caras. O mais barato era a Dança do Cisne negro, numa publicação em formato de periódico, com míseras 28 páginas. Preço: 200 reais.

Confesso quase ter caído em tentação. No entanto, a experiência de algumas pequenas tragédias afetivas foi o suficiente para que, após longos processos de cicatrização, eu começasse a olhar com mais desconfiança para os excessos do amor.


Hoje, Anne-Marie de Backer é, para mim, apenas mais um vitral estilhaçado na minha catedral de saudades.

sexta-feira, abril 20, 2012



Eu tietando Elvira Vigna, no VII Beagalê, na Biblioteca Infantil e Juvenil

domingo, abril 01, 2012

Ditado popular

Se "dar bom-dia a cavalo" fosse a única consequência de falar demais, estaria tudo ótimo.O problema é o coice que vem como resposta.

quinta-feira, janeiro 26, 2012

Uma mulher que amamenta


I

          Ela era mesmo uma mulher. A primeira constatação sobre sua natureza humilhada viera muito cedo, quando, sob a tirania da mãe, era forçada a fazer todo o serviço doméstico, enquanto os irmãos, miniaturas de homens, ensaiavam felizes para a vida adulta, se deleitando com divertidas e inteligentes brincadeiras.
         Mais tarde, quando se tornara uma “mocinha”, lhe ensinaram que bons modos eram necessários: não se sentar de pernas abertas, não dizer palavras feias, conter impulsos, principalmente os sexuais. Assim ela cresceu reprimindo revoltas, sufocando sonhos, suportando mensalmente, como uma religiosa, os desconfortos hormonais e, todos os dias, desde a adolescência, o peso dos seios, grandes demais para sua estatura.
        Casou-se aos 23. Engordou.
        foi com pavor que viu seu corpo tornar-se diariamente monstruoso quando, aos 26, engravidou.
       Depois do nascimento da criança Paula até conseguiu perder algum peso, mas seus seios estavam ainda mais pesados, devido à fartura de leite.
       Paula, que nunca havia sido uma pessoa alegre foi, aos poucos, ficando mais triste. Sua vida era uma grande cela. Uma natureza aprisionada sujeita a costumes sociais absurdos. Um casamento infeliz e um bebê de quase um ano, que sugava toda a sua existência, com sua dependência ameaçadora. Paula, que nunca havia permitido que o desejo explodisse em pétalas em sua pele estriada tornou-se uma mulher ainda mais fria e rígida, na cama escurecida pela exigência diária de luzes apagadas.
        Quando deixou de dar-se sem prazer, o marido, dez anos mais velho que ela, reclamou:
       - Paula, o que está acontecendo? Dor de cabeça não é... O neurologista já disse!
       - Ora! Me deixe! Não tenho vontade! Nunca tive!
        Ele, egoísta, comentava:
        -Mas, e eu? Como ficam as minhas vontades? Depois não vá reclamar quando eu arrumar outra!
E, ao dizer essas palavras ressentidas, fazia um gesto brusco de insatisfação, cobrindo-se com o edredom, dos pés à cabeça, virando-se para o lado da parede.
        Embora agisse dessa maneira em resposta às cada vez mais constantes recusas da mulher, o marido de Paula não era um homem ruim. Agia assim porque era apenas uma pobre criança, grande e desamparada, tão dependente do corpo da mulher quanto seu filho pequeno.
        O fato é que a falta de sexo acabou por sensibilizá-lo.
        Então, em certa noite chuvosa, quando retornou do trabalho, sentou-se ao lado de Paula, que assistia à novela, e disse:
        -Amor, você precisa sair um pouquinho. Anda triste demais. Só fica enfurnada aqui dentro, isso faz mal.
       - Ah não. Quero ficar aqui, não quero ver ninguém.
       - Liga pra suas amigas. Já tem muito tempo que você não sai com elas. Marca um cineminha. Joga conversa fora. Pode deixar que eu cuido do João Paulo.
           Depois de muita insistência do marido, Paula foi persuadida de que precisava mesmo sair para respirar um pouco. Seguiram-se telefonemas, um banho demorado, uma arrumação indecisa diante do espelho, o estalar leve de lábios que se encontram e um barulho de porta batendo.
O marido ficou sozinho na sala. O filho, no quarto, chorou, reclamando atenção.

II
           Toda arrumada assim era até bonito ser mulher. Mesmo com peitos tão grandes e pesados de leite. E o decote escolhido ajudava, e como.
           No caminho do Shopping, enquanto dirigia, percebeu os olhares dos outros homens. Eles, sem dúvida a desejavam. O desejo se estampava na cara safada que faziam quando estavam parados ao lado dela, no sinal. Mal sabiam eles que seus seios já tinham dois proprietários. Mal sabiam eles que escondida na sensualidade do decote estava a imagem sagrada de uma mãe que amamenta.“Eu sou uma mulher que amamenta”, ela pensava, asfixiando as vontades provocadas pelos olhares lascivos dos homens.
         Às 9h encontrou, no cinema, duas amigas, as quais não via há mais de um ano. Assistiram Onde vivem os monstros e depois fugiram para um bar, com o intuito de conversar, tomar algumas cervejas e experimentar tira-gostos.
         O ano vivido na distância foi preenchido com narrativas, muitas. A noite estava bela e repleta de luzes. A chuva havia cessado, deixando a atmosfera úmida e poças lamacentas nas ruas desertas.
A reunião das amigas prolongou-se até a meia-noite quando, estupefatas, levaram sincronicamente as mãos às testas, se dando conta do avançar das horas.
       -Meu Deus! É tarde! – Disse Paula, como um coelho de Alice.
      Levantaram-se as três ao mesmo tempo. E foi ao mesmo tempo também que sentiram o reaproximar-se das escuras nuvens de suas vidas infelizes.
     Beijaram-se. Disseram adeus, não sem antes selarem a promessa de um breve reencontro.
Separaram-se.

III
       Paula caminhou sozinha até o lugar onde o carro estava estacionado.
      Subitamente, um vulto aproximou-se, rápido como as viagens da luz e, antes que ela pudesse pensar em qualquer tipo de reação, acertou-lhe a cabeça com um pesado objeto de metal.
       Meia hora depois ela acordou. Tudo era escuridão. Teria sido golpeada pela foice da morte que, arrependida, a fizera despertar dentro de um caixão, já lacrado?
       A caixa preta onde Paula fora depositada se movia. E foi em meio a enjoos e dores atrozes nas articulações que ela percebeu que estava aprisionada em um porta-malas.O carro ainda chacoalhou por algum tempo. Depois parou e a tampa do porta-malas ergueu-se. Junto com o cheiro de mato molhado, apareceu, diante de Paula, a silhueta de um homem alto e forte.
      Ele a arrancou de dentro do carro a tapas e puxões de cabelo. Ele batia apenas com umas das mãos, pois a outra estava ocupada, segurando um revólver de cano longo, pelo qual parecia nutrir amor conjugal. Paula chorava e sangrava.
      Atirada com violência ao chão lamacento, ela recebeu ordens para abrir as pernas.
  

terça-feira, outubro 18, 2011

O monstro do armário IX

Que porra de sonho esquisito foi aquele? Puta- que-o pariu. Imagina, eu, excitada, abrindo um caixão matusalém, procurando uma sacana que maltratou o coração de uma poeta! E quem encontro? Outra sacana. Não sei quem foi mais filha da puta, Átis ou Cláudia. Posso fazer um julgamento assumidamente pessoal e passional, à la Dom Casmurro? Pois então lá vai: a mulher mais vagabunda do mundo é Claúdia! Eu a odeio! Átis? Pobre coitada, deve ter sido seduzida pela safada da Safo, caiu de amores, envenenada por aquela poesia mulherificada.Safo pode ter até sofrido mas,na minha opinião, ela sabia que sofreria. Se arriscou. Foi ela quem atacou. E, para mim, a culpa é de quem seduz, de quem conquista. Principalmente se a sujeita vai embora depois, dizendo: "Ow, foi legal ter te conhecido".
Acho que preciso de um banho para espantar esses exus. Hoje é sexta feira 13. Puta que na merda. Vou tomar banho, vou para a faculdade, faço prova, volto e hiberno por uns 15 anos, até meus hormônios estarem mais calmos. Até chegar o momento em que será possível respirar.

Que tanto de panela suja, Jesus de Deus! Às vezes penso que em alguma fenda invisível de alguma dessas paredes existe um monstro muito do mal, especialista em fazer proliferar a sujeira da cozinha.
Tento garimpar pelo menos um copo que seja, no meio desse melecão todo. Nada. Xingo o monstro nomeando-o com os mais deploráveis palavrões.O infeliz nem se dá ao trabalho de me responder e fico pensando que ele está rindo de mim, porque acordei de mau humor e me ver assim o diverte. Ele, este habitante dos micro-túneis sombrios dos tijolos é, sem dúvida,parente daquele outro, que mora no armário do quarto há eras geológicas. São primos. Ou serão gêmeos siameses?Não sei. Só sei que eles são os responsáveis pela existência de todas as baratas.
Pensar em baratas me fez desitir do café da manhã. Espalho Baygon pela cozinha inteira, com a esperança de que o monstro morra e saio correndo para o banheiro.

É sempre assim : toda vez que fico pelada penso em sacanagem. E embora eu tenha acordado hoje amaldiçoando minha namoradinha da adolescência, é nela que penso agora.

Meus pensamentos lascivos começam meio penumbráticos, tipo, um barulho de interfone, era de tarde, eu a esperava, meu coração trepidava como um operador de furadeira, eu suava, eu morria de febre.. No meu entre-pernas coisas estranhas aconteciam também. Eu estava derretendo? Uma doçura incrível circulava por meus peitos e fazia um tour, descendo até meu útero e ficava assim, irrigando meu corpo todo de desejo.
Eu abrindo a porta.. Ela entrando... estava linda. Putz, isso é redundância. Nós duas indo direto para o quarto...

Nosso diálogo:
Eu: Desculpa, Cláudia, pela merda que falei.
Ela: Nossa, quantos livros!
Eu: Cláudia, não sou preconceituosa. É que fiquei muito assustada com essas coisas desconhecidas todas desestabilizando meu corpo e...

Ela: Caralho, quantos discos!


( acho que essa foi a hora exata em que me apaixonei mesmo por ela, quando ela chamou meus CDs de discos)

Ela estava fascinada, olhando para minha estante. Eu estava fascinada olhando para as costas dela. Eu me aproximei. Olhei para a loba e fiquei meio hipnotizada, acariciando-a com as pontas dos meus dedos. Houve um silêncio pré-histórico( aquele de antes do macaco, quando tudo era feito de caos e sem ruido algum). A seiva mágica que circulava no meu sangue se agitou ainda mais. Então Cláudia se virou para mim, cheirou meus cabelos como se eles fossem lírios e me beijou.

Foi estranho e bonito.

Ficamos na sacanagem a tarde toda, misturando corpos e líquidos e toda nossa furiosa ternura juvenil.
Hamlet, coitado, infeliz e sozinho, chorava do lado de fora.

















O monstro do armário VIII


__ Cadê a tatuagem?__ Marina perguntou, à queima roupa.__ Ontem fiquei doida pra ver.
__ Ah... A minha lobinha...__ Disse Cláudia, abrindo um esplendoroso sorriso sacana no entre- parênteses da face morena.
Afastou os cabelos das costas e se virou, de modo que Marina pudesse ver o desenho colorido.
Marina estremeceu. Chegou muito perto de Cláudia. A amiga tinha uma nuca linda e o cheiro que vinha de lá a adoeceu. E a loba era o máximo. Dava vontade de sentir com os dedos. Dava vontade de sentir com os lábios. Marina tocou o trecho tatuado e, num impulso inconsciente aproximou a boca das costas de Cláudia, mas antes de beijá-la, foi interrompida por um grupo histérico de alunas do segundo ano que entrava eufórico no banheiro, quebrando o encanto daquele momento de encontro.
As duas ficaram um pouco constrangidas, mas fingiram que uma estava abotoando o sutiã da outra. Lá fora continuaram a conversa:

__ Cláudia, to tão feliz por ter te conhecido! É uma felicidade estranha. Parece que to em estado de graça.
As duas trocaram olhares comovidos e se abraçaram. Marina pensou que fosse explodir, mas era alarme falso.
__ Você tem muitos amigos? Perguntou Marina.
Cláudia respondeu:
__ No México eu tinha. Minha mãe não gostava muito deles. Por isso me mandou pra cá. Dizia que as amizades negativas não estavam me fazendo bem. Muito tradicional, ela.
__Mas por que ela não gostava dos seus amigos? Aposto que eram maconheiros. Que careta ela... Que pessoa da nossa idade nunca fumou um?
__ Eles eram todos gays. Homens gays, mulheres gays. Foi por isso. E ninguém gostava de maconha.__ Disse Cláudia, sorrindo.
__ Como assim?
__ Todo mundo era bicha e sapatão. Fui clara?
__ Eu entendi. Mas por que você andava com gente desse tipo? Se eu fosse sua mãe também ficaria brava.

Cláudia se enfureceu:
__ Não acredito que to ouvindo isso de você!

Marina se assustou e disse:
__ Calma, Claudia, você está gritando! Por que ficou assim tão nervosa de repente? O que eu fiz?
Cláudia a interrompeu, mais transtornada ainda:

__ Preste atenção, pirralha: como você queria que eu me sentisse? Primeiro você fica morrendo de vontade de ver minha tatuagem. Depois, me dá uma alisada daquela lá dentro do banheiro, e, por pouco, não me dá uma lambida também! Depois diz que está em estado de graça por ter me conhecido... E olha que a gente se conheceu ontem! E eu aqui, sentindo as mesmas coisas e acreditando que estivesse acontecendo algo entre a gente. Então você me dá um banho de água fria com esse papo preconceituoso... Que decepção.

__ Claudia, eu quero uma amiga. Pensei que...
__ Amigas não ficam se desejando, Marina.
Ao dizer isso, se afastou magoada, sem se despedir.

Marina era uma efígie muda no coração do I.E.

As últimas aulas foram um suplício. Marina estava confusa. Não queria ser mal- interpretada, estava também assustada com aquela felicidade mágica e estranha que sentia e o com o transe que quase a levou a beijar as costas da amiga. O que estaria acontecendo?Seu coração estava atormentado.
Quando a aula terminou, Marina foi até o armário de Cláudia e deixou um bilhete que dizia o seguinte:

Claúdia,
Desculpa!
Tô confusa...
Se ainda quiser conversar comigo, vai lá em casa: A gente toma uns vinhos e eu te mostro uns discos.
Um beijo, na loba.

segunda-feira, outubro 17, 2011

O monstro armário VII


A noite de sono de Marina não tinha sido nada tranquila: como havia dormido a tarde inteira  depois de ter chegado da escola, teve muita dificuldade para dormir a noite. Quando conseguiu, sonhos eróticos se misturaram a exóticas cenas de canibalismo e de rituais sagrados desconhecidos.
Ela acordou antes do horário programado no despertador. Ainda não havia amanhecido.
Para Marina, acordar era uma coisa muito difícil. A coisa mais difícil do dia, por mais que este tivesse complicações que se parecessem, muitas vezes, com monstros apocalípticos cabeludos.
Um dos motivos que a deixava tão deprimida ao amanhecer era o fato de que sempre dormia muito tarde. Quando acordava tinha a sensação de que havia apenas cochilado e, junto com essa sensação, vinha uma preguiça profunda da vida, das pessoas, do sistema, da rotina, etc. e tudo o que ela mais queria era dormir para sempre. Mas não era a morte que desejava. Queria dormir para sempre estando viva, para ter consciência de que estava dormindo e do quanto dormir é bom. A preguiça profunda acompanhada de lancinante tristeza aparecia num momento específico: quando começava o barulho do tráfego. Antes, às 5h da manhã, era o silêncio absoluto na ainda escuridão do quarto; depois, à medida que os móveis iam tomando forma, graças à luz que timidamente penetrava as persianas, começavam os roncos dos motores de veículos diversos e isso deprimia fortemente nossa protagonista.
O motivo nos escapa e cremos que a ela também. Coisas de espíritos inquietos e melancólicos.
Ela acordou ainda com o gosto da carne de uma mulher, a qual devorava em sonhos, em meio à fogueiras ancestrais. Sentiu o silêncio, ouviu a escuridão, foi tomada pelas dores provocadas pelo barulho da vida germinando das ruas que já haviam despertado. Deu um pulo da cama quente, banhou-se, fez o desjejum. Tomou coragem e partiu para o I.E.
Precisava ver Cláudia.
Na escola, o mesmo movimento de sempre, as mesmas cores de sempre, o mesmo relógio acusador de sempre. Mas havia algo que tornava, naquela manha, a atmosfera daquele lugar diferente: esse algo tinha uma tatuagem de loba nas costas. Marina não compreendia bem esse desejo aflito de ver a nova amiga, mas preferiu não pensar muito sobre o assunto. Desejava ver Cláudia e era isso que importava.
Sua vida, até então, tinha sido solitária. Nunca tivera amigos íntimos, nem tinha um namorado. Tinha um cão, que se chamava Hamlet, que já contava cinco anos. Passava suas tardes devorando histórias de ficção, passeando pelas vidas de suas personagens, fazendo reflexões sobre essas vidas de papel e sobre sua própria existência. Lia e relia poemas, sorvia cada palavra, como se fosse doce de leite na época da menstruação. Seu universo lírico era repleto de poesia, de cenas de filmes, as quais via infinitamente, de belas canções que provocavam nela o sonho e o desejo de sonhar cada vez mais.
Se considerava uma garota feliz, no entanto sentia que faltava algo: alguém com quem pudesse compartilhar de seu universo. E esse alguém_ ela sentia_ era Claudia. Sua futura melhor amiga.
Na sala 14, a aula estava entediante. Os pensamentos de Marina se perdiam no dia anterior, quando, durante a palestra de Virgínia. L ela havia conhecido Cláudia. Ela estava tão perto! Apenas uma parede as separava.
O garoto gordo, das bolinhas de meleca, estava inerte: não desenhava pintos e nem enfiava o dedo no nariz. As formigas, quando se aproximavam dele, faziam uma cara assustada e davam meia volta. A garota loira, por sua vez, não largava o espelho, para o qual olhava obsessivamente.
O sinal soou estridente por todos os corredores de portas vermelhas, anunciando a hora do intervalo.
Claudia, com cara de sono, estava prestes a sair do banheiro, quando deu de cara com Marina, que sorriu um voluptuoso sorriso solar.

quarta-feira, outubro 05, 2011

O duplo do voo

I
Bandeira triste

O aeroporto em frente,
lições de partir.

II
Garimpar a beleza da partida

Urubu é bicho forte
é  voo
obscuro
que se nutre
de morte.

sexta-feira, setembro 23, 2011

O monstro do armário VI



“Que cara inchada é essa, Marina?” Me pergunta o idiota do Lu. Indivíduo mais babaca. Se acha o rei do contrabaixo, e o homem mais lindo de toda Belo Horizonte. È um dos integrantes de plástico da minha banda de plástico. E me disse essa gracinha sem graça, só porque estava perto de uma garota de peitos grandes, que provavelmente daria pra ele no fim do expediente. Os outros nem me cumprimentaram. Reclamaram do meu pequeno atraso de 30 minutos, dizendo que eu estava comprometendo o trabalho deles, e que se não quisesse continuar tocando, iriam contratar outra saxofonista. Como não queria me aborrecer mais uma vez, fiquei calada.
Fizemos nosso showzinho medíocre de quinta-feira, na mesmice de sempre: Luzes de boate, fumaça de cigarro, casais no cio, bandejas de garçons flutuando sobre cabeças chacoalhantes que ficavam escuras e coloridas alternadamente. E eu ficando enjoada de tudo, de vez em quando, e me refugiando atrás da escuridão de meus olhos fechados. E soprando meu sax, com toda a paixão de meu espírito inquieto.
Às vezes, algum cara babão ficava me olhando com uma cara esquisita, achando que estava fazendo uma expressão sedutora. Uma cara ridícula de demente. Então eu fechava os olhos mais forte ainda, e tentava me concentrar na minha música. Quando eu abria os olhos, o cara babão já estava lá, enfiando a língua dele na boca de alguma garota de saia curta.
       A música sempre foi minha salvação.
Depois do expediente, o pessoal sempre fica numa mesa tomando cerveja. Ficam lá, se embebedando e tentando seduzir as tietes. E isso eles fazem com facilidade, porque, é incrível como as garotas ficam impressionadas e se sentem atraídas por gente que sobe em palcos.(Mais especificamente,por garotos que sobem em palcos para tocar, porque nunca vi elas rasgarem calcinhas por causa do rapaz que monta o som,ou por causa do menino que varre a sujeira que nós deixamos lá em cima)).Eu vou-me embora para Parságada, porque tenho faculdade todas as manhãs, sempre no horário absurdo dos padres, como na época do colegial. Saio sem me despedir, como sempre.
Adeus, por hoje, mundo de plástico.
Caminho rumo á estação de metrô. Na Rua da Casa Noturna tem uma boate gay. Sempre que passo por ali, voltando do trabalho, vejo muito movimento, a música é envolvente, e muitas vezes, tive vontade de entrar. Mas não sei o que eu faria sozinha num lugar assim, então nunca entrei.
Hoje vi uma cena diferente, que me chamou a atenção: duas garotas discutiam. Uma delas tinha o cabelo raspado, e tatuagens por todo o corpo. Usava uma camiseta preta e tinha espetos metálicos na língua, nas orelhas e no nariz. Muitos espetos metálicos. Parecia muito brava e insensível, enquanto a outra, que tinha belos cabelos ondulados e longos, e uma pele maravilhosamente morena, chorava.
Fiquei o resto do caminho pensando no motivo daquela cena. Por que estariam assim, tão transtornadas? Fiquei com vontade de estar no lugar da moça careca. Eu não estaria tão brava, e em vez de ficar com a cara amarrada, teria abraçado a bela garota que chorava.
O metrô veio vazio, como em todas as noites. Fiquei olhando a paisagem noturna. O vento estava frio. Junho se aproximava.
Cheguei em casa mais deprimida do que sempre. Abri um pacote de biscoitos e me sentei na frente da TV desligada. Hamlet me olhava com os olhos tristes e doentes dos cães que sabem que vão morrer. Senti uma coisa estranha. Uma tristeza tão funda e cortante! Senti-me infeliz, e pressenti as saudades que eu teria do meu cachorro, assim que ele morresse, e senti também, meio que inconscientemente, que ele era uma espécie de elo que me unia a outra época da minha vida, época que insistia em ficar apodrecendo em mim, como um enorme e feio cemitério abandonado.
Sussurrei delicadamente seu nome, venerado desde minha primeira leitura de Shakespeare, e ele se levantou, todo murcho, com as orelhas caídas, com os olhos tão pesados de morte, literalmente com o rabo entre as pernas, e magro como judeu em Auschwitz, e se entregou dócil às minhas tristes carícias. Os meus olhos e os dele estavam úmidos. E pensei: “estou acariciando a morte”. “Isso é morte, esses olhos tristes de cão doente.”
Em seguida, depois de minutos intermináveis chorando antecipadamente a morte de Hamlet, caminhei pesadamente para o quarto. Dormi sem escovar os dentes, e sonhei que eu era uma arqueóloga, que abria sarcófagos, onde se encontravam os lascivos poemas de Safo. Em um dos sarcófagos estava escrito “Átis”. Me  lembro de , no sonho, ter ficado excitada com o ideia de conhecer a tão famosa amada de Safo, mesmo que decomposta.Quando abri a tampa do antigo esquife,lá estava Claudia, com uma plaquinha que dizia “ me mate em seu coração”.
Acordei sobressaltada.