Hoje acordei me contorcendo de cólicas, chamando por Raquel.Mas ela já tinha ido embora e eu já sabia disso, porque ela sempre sai antes de mim. Mesmo assim, eu fingi que não e percorri todo o apartamento repetindo o nome dela.
Aí foi a hora da madeleine mergulhada no chá: o cheiro e o frio de uma outra manhã entraram pelas janelas. Era 1986, acho. Eu tinha 5 anos. Me lembro de ter acordado e de ter notado a ausência de minha mãe. Percorri todo o barraco ( que para mim era enorme, por causa do meu tamanho e tinha ficado maior porque ela não estava lá)
Acordei meu irmão. Contei pra ele sobre meu desespero. Não sei qual de nós dois teve a ideia de sair a procura da mãe pelas ruas do bairro.
Saímos. De mãos dadas ( acho que foi a única vez em nossas vidas que andamos assim: depois disso nossos punhos sempre estiveram fechados: ele para bater e eu para redobrar a força da defesa)
Meu irmão era também cabeludo. Tinha cabelos lisos, como os de minha mãe. Os meus eram Black Power, como os de meu pai.
Não andamos nem um quarteirão assim, descabelados, cheios de meleca no nariz e desamparados: na primeira esquina nos encontramos com ela, que tinha saído pra comprar pão.
Brigou com a gente, não entendeu a nossa solidão.
Tirou as melecas dos nossos narizes, fez uma trança nos meus cabelos.
Retornamos, os três, de mãos dadas, para casa.
sexta-feira, junho 27, 2014
terça-feira, junho 24, 2014
Desordem
Porque ela passou
por aqui
dentro de mim tudo é
desordem.
Porque ela passou
por aqui
-Estação de loucura-
não há temperatura
em que eu não seja febre
não há voz
em que eu não seja
grito
Porque ela passou
por aqui
há apenas
a dor
da pele
cortada à volúpia.
por aqui
dentro de mim tudo é
desordem.
Porque ela passou
por aqui
-Estação de loucura-
não há temperatura
em que eu não seja febre
não há voz
em que eu não seja
grito
Porque ela passou
por aqui
há apenas
a dor
da pele
cortada à volúpia.
sexta-feira, junho 06, 2014
Blue para a lâmina das horas
A mãe dormia
de boca aberta
quase toda vestida de tempo.
A pele do corpo inteiro
cortada: a lâmina das horas.
Bem de perto
as linhas do rosto formam um mapa.
De dentro dele
o desenho de uma palavra,
pedra não lapidada,
escapa:
-Órfã!
A palavra-pedra pulsa.
Escorro pelas fendas da noite
comendo a cor amarela
das lâmpadas dos postes
das ruas em outono,
ruminando
a memória entranhada
num viaduto
numa árvore
numa esquina
num muro
Essa infância triste
misturada a ladrilhos.
Mas a pedra ainda pulsa
A ineficácia das fugas.
Ao redor
a música dos ponteiros
imita
a ameaça da bomba.
quarta-feira, junho 04, 2014
O pé, a cruz, o prego
O pé, a cruz, o prego
Era eu
e uma grande ferida.
Estávamos em posição de combate.
Ela funda e vermelha
obstinada inflamação
no pé esquerdo
da mãe envelhecida
A ferida tinha a força
de tudo o que continua
Eu tinha
uma garrafa de soro
um pacote de esparadrapos
um rolo de ataduras
e um amor feroz
mais fundo do
que tudo o que parece
nunca mais
ter
fim.
Era eu
e uma grande ferida.
Estávamos em posição de combate.
Ela funda e vermelha
obstinada inflamação
no pé esquerdo
da mãe envelhecida
A ferida tinha a força
de tudo o que continua
Eu tinha
uma garrafa de soro
um pacote de esparadrapos
um rolo de ataduras
e um amor feroz
mais fundo do
que tudo o que parece
nunca mais
ter
fim.
segunda-feira, maio 05, 2014
Pequena crônica sobre a impotência
Era um cachorro preto, vira-latas, de porte médio.
Alguém, num infeliz rito de crueldade, tinha lhe arrancado quase todos os pelos do corpo e todas as camadas de pele que existiam entre pelo e carne.
O encontrei numa esquina escura, em certa madrugada em que eu também sofria pequenas mutilações. Simbólicas, é preciso dizer.
Ele estava de pé, como quem resiste. Mas olhos de cão não foram treinados para esconder tristeza e dor.
Olhou para mim pedindo socorro.
Me aproximei e, com delicadeza e revolta, toquei sua carne exposta e maltratada.
Eu nunca saberia lidar com uma ferida tão grande como aquela.
terça-feira, abril 01, 2014
Flores que já secaram
Hoje, antes de sair para o trabalho, passei nos cabelos uma loção anti-frizz que tinha cheiro de flores mortas.
Me lembrei, enquanto me olhava no espelho e registrava o nascimento de mais uma marca de expressão, de meus diários juvenis, cujas páginas exalavam o mesmo perfume: eu costumava depositar entre elas flores inteiras, as quais eram esmagadas quando meus segredos se fechavam, sufocando-as. Dias depois a flor despetalada e seca impregnava de um odor triste de saudade meus rabiscos quase ilegíveis.
Anos antes, tinha sido a época das tardes no cemitério. Brincávamos, nos escondendo atrás de túmulos, conversávamos com o coveiro, enquanto ele abria a boca vermelha da terra e ficávamos silenciosos e graves nas horas de enterro. Eram tardes de sol forte. Pisávamos em cima da morte, ríamos de sua pretensão de sempre nos roubar alegria.
Em todo aquele grande terreno, sobre cada demarcação, no ar que por ali circulava, predominava o cheiro das flores fenecidas. ( Desconfio de que minha melancolia atual tenha nascido ali. Tenho quase certeza de que ela tem a ver com o cheiro das flores mortas).
Eu tinha quase 30 anos quando o pai morreu.
Foi uma madrugada estranha aquela, em que me afastei demasiado da sala de velório e fiquei caminhando em círculos sobre lápides, como se quisesse rir da morte outra vez.
Mas eu não podia.
Ao amanhecer o pai continuava morto e as flores que enfeitavam seu peito gelado já haviam secado.
E o cheiro estava lá, devorando todas as coisas.
Me lembrei, enquanto me olhava no espelho e registrava o nascimento de mais uma marca de expressão, de meus diários juvenis, cujas páginas exalavam o mesmo perfume: eu costumava depositar entre elas flores inteiras, as quais eram esmagadas quando meus segredos se fechavam, sufocando-as. Dias depois a flor despetalada e seca impregnava de um odor triste de saudade meus rabiscos quase ilegíveis.
Anos antes, tinha sido a época das tardes no cemitério. Brincávamos, nos escondendo atrás de túmulos, conversávamos com o coveiro, enquanto ele abria a boca vermelha da terra e ficávamos silenciosos e graves nas horas de enterro. Eram tardes de sol forte. Pisávamos em cima da morte, ríamos de sua pretensão de sempre nos roubar alegria.
Em todo aquele grande terreno, sobre cada demarcação, no ar que por ali circulava, predominava o cheiro das flores fenecidas. ( Desconfio de que minha melancolia atual tenha nascido ali. Tenho quase certeza de que ela tem a ver com o cheiro das flores mortas).
Eu tinha quase 30 anos quando o pai morreu.
Foi uma madrugada estranha aquela, em que me afastei demasiado da sala de velório e fiquei caminhando em círculos sobre lápides, como se quisesse rir da morte outra vez.
Mas eu não podia.
Ao amanhecer o pai continuava morto e as flores que enfeitavam seu peito gelado já haviam secado.
E o cheiro estava lá, devorando todas as coisas.
quinta-feira, março 27, 2014
É aqui que eu quero ficar
"Belíssimo" esse Horizonte
saturado de carros.
Cidade-lego
eternamente
montada e desmontada.
Das ruínas de um passado recente
se ergue, desajeitado, outro mapa.
Eu era pacata antigamente,
não dirigia assim, feito uma louca
pelas avenidas principais.
É que agora
nossas rodas
custam a girar.
E monóxido de carbono
me deixa entorpecida,
disparo quando dá.
Mas esse tanto de fumaça
não me fará cortar os pulsos
nessa noite entristecida.
Aqui não tem mar
pra eu tomar um banho bem clichê
pelada
sob raios de luar
(e esquecer um pouquinho
essa corrida esquisita que é a vida);
Mas tenho uns discos de blues.
E mais tarde
vai ter bar.
Guilhotinas, facas na pele
Adorava a fórmula de Bhaskara. Gozava decifrando logs, calculando progressões, descobrindo ângulos. ( Galhos numéricos brotavam da ponta do lápis mais inteligente da classe, bordando trios e trios de páginas.)
Um dia, o amor ( esse safado) escapuliu de um romance de Alencar, que ela tinha acabado de ler (para fazer prova), e comeu todo o seu caderno de tabuada.
E o amor,além de safado,amava guilhotinas, facas na pele. Ao amor agradava apenas as operações de razão. As de proporção nunca foram compatíveis com seu gênio, extremamente difícil.
Um dia, o amor ( esse safado) escapuliu de um romance de Alencar, que ela tinha acabado de ler (para fazer prova), e comeu todo o seu caderno de tabuada.
E o amor,além de safado,amava guilhotinas, facas na pele. Ao amor agradava apenas as operações de razão. As de proporção nunca foram compatíveis com seu gênio, extremamente difícil.
Sobre envelhecer
Se meus cabelos fossem lisos estariam sempre muito curtos, como os de um rapaz. Mas não são e eu não irei nunca cortá-los. No futuro, terei a cabeleira longa, cacheada e cinzenta. Serei uma bruxona, bem estranha e bonita.
A pergunta fundamental
O que leva uma pessoa a ser lésbica, gay ou bissexual? Foi a Silvinha que me perguntou.
Minha resposta poderia passar por muitos caminhos. Eu poderia dizer que é simplesmente o desejo. Aí não saberia até que ponto nosso desejo é determinado biologicamente e até que ponto ele é atravessado pela cultura, pela visão de mundo de cada um. Exemplo: se alguém me perguntasse diretamente: " Simone, o que te levou a ser lésbica (vulgo sapatão)?" Eu me embolaria toda porque não saberia dizer se isso tem mais a ver com meus genes, meus hormônios ou sei lá o que, ou com minha antiga inclinação a escapulir de esquemas sociais seguidos pela maioria. Então, será que já tinha algo na minha natureza, guardado dentro das minhas células e minha visão de mundo e valores só vieram contribuir para que eu não tivesse nunca medo de assumir uma identidade tão discriminada?
Confesso que fiquei com vontade de responder a sua pergunta assim: "42"! ( Vide Guia do mochileiro das galáxias). Mas achei que seria infame demais de minha parte. ( risos).
Então, amiga, como não tenho respostas psicológicas, sociológicas,filosóficas nem biológicas, vou responder assim: O que leva uma pessoa a ser gay, lésbica ou bissexual? Hum... uma música, ou um olhar, ou um céu, ou um vento, ou um livro, ou um cheiro, ou uma vontade louca de estar perto, ou tudo isso junto somado a presença/existência de uma outra pessoa que é anatomicamente igual a você, mas que, de alguma forma, por algum processo, também associou essas coisas todas aí de cima a você e isso acabou fazendo um sentido bonito para ela também.
No mais, a única coisa que fica faltando pra pessoa que "não era" gay "se "tornar", nada mais é do que uma cantada bem dada.
42!
Minha resposta poderia passar por muitos caminhos. Eu poderia dizer que é simplesmente o desejo. Aí não saberia até que ponto nosso desejo é determinado biologicamente e até que ponto ele é atravessado pela cultura, pela visão de mundo de cada um. Exemplo: se alguém me perguntasse diretamente: " Simone, o que te levou a ser lésbica (vulgo sapatão)?" Eu me embolaria toda porque não saberia dizer se isso tem mais a ver com meus genes, meus hormônios ou sei lá o que, ou com minha antiga inclinação a escapulir de esquemas sociais seguidos pela maioria. Então, será que já tinha algo na minha natureza, guardado dentro das minhas células e minha visão de mundo e valores só vieram contribuir para que eu não tivesse nunca medo de assumir uma identidade tão discriminada?
Confesso que fiquei com vontade de responder a sua pergunta assim: "42"! ( Vide Guia do mochileiro das galáxias). Mas achei que seria infame demais de minha parte. ( risos).
Então, amiga, como não tenho respostas psicológicas, sociológicas,filosóficas nem biológicas, vou responder assim: O que leva uma pessoa a ser gay, lésbica ou bissexual? Hum... uma música, ou um olhar, ou um céu, ou um vento, ou um livro, ou um cheiro, ou uma vontade louca de estar perto, ou tudo isso junto somado a presença/existência de uma outra pessoa que é anatomicamente igual a você, mas que, de alguma forma, por algum processo, também associou essas coisas todas aí de cima a você e isso acabou fazendo um sentido bonito para ela também.
No mais, a única coisa que fica faltando pra pessoa que "não era" gay "se "tornar", nada mais é do que uma cantada bem dada.
42!
quarta-feira, março 19, 2014
Hospital
No hospital ( não, não era na sala de cirurgia e eu não via nada por vidraça nenhuma) fazia o calor que costuma fazer às duas da tarde em qualquer verão tropical.
Era um ambulatório de anticoagulação. Isso significa que grande parte das pessoas que estavam lá já tinham sofrido trombose, derrame ou infarto. E isso, por sua vez , significa que o panorama era composto ou por pessoas muito velhas, ou por pessoas amputadas, ou por pessoas tortas. Ou por pessoas muito velhas, amputadas e tortas.
Panorama triste de ver.
Eu sei que já devia ter me acostumado.
Quando pai morria foi assim: uns bons anos percorrendo esses corredores frios e dolorosamente brancos, cheios de gente torta, mutilada e secando... E secando.
E agora aqui estou de novo. Para que a mãe não entre em processo de morrer. Periodicamente a gente vem aqui, para impedir que ela fique torta, ou amputada. Velha ela já está. Até eu, nesses anos escorridos. Tem jeito não.
Mas então: estou sentada num banco de pedra, entre duas velhas. Aguardo um resultado. Uma das senhoras não tem um pé, a outra está retorcida numa cadeira de rodas.
Sinto cheiro de decrepitude.
Minha cabeça empreende um filosofar neblinoso.
Um senhor encurvado olha com melancolia ao nosso redor. Diz pra outro: "Ser humano não vale nada"
Saio de onde estou e me sento entre eles.
A conversa me interessa.
Era um ambulatório de anticoagulação. Isso significa que grande parte das pessoas que estavam lá já tinham sofrido trombose, derrame ou infarto. E isso, por sua vez , significa que o panorama era composto ou por pessoas muito velhas, ou por pessoas amputadas, ou por pessoas tortas. Ou por pessoas muito velhas, amputadas e tortas.
Panorama triste de ver.
Eu sei que já devia ter me acostumado.
Quando pai morria foi assim: uns bons anos percorrendo esses corredores frios e dolorosamente brancos, cheios de gente torta, mutilada e secando... E secando.
E agora aqui estou de novo. Para que a mãe não entre em processo de morrer. Periodicamente a gente vem aqui, para impedir que ela fique torta, ou amputada. Velha ela já está. Até eu, nesses anos escorridos. Tem jeito não.
Mas então: estou sentada num banco de pedra, entre duas velhas. Aguardo um resultado. Uma das senhoras não tem um pé, a outra está retorcida numa cadeira de rodas.
Sinto cheiro de decrepitude.
Minha cabeça empreende um filosofar neblinoso.
Um senhor encurvado olha com melancolia ao nosso redor. Diz pra outro: "Ser humano não vale nada"
Saio de onde estou e me sento entre eles.
A conversa me interessa.
domingo, março 09, 2014
Eu estava só florescendo...
O jardim era belo
visto por qualquer passante.
Visto de qualquer ângulo,
era incrivelmente belo.
Tulipas
Gérberas
Miosótis
e cravos.
De qualquer ângulo,
não havia dúvida.
Mas não para quem
ousasse se deitar
entre os canteiros.
Não para quem,
atraído pelo pulsar da cores,
enxergasse o jardim pelo avesso,
ao se aproximar demasiado
deixando o olhar escorrer
por um caule
até encontrar,
sob a umidade da terra,
fixadas,
monstruosas raízes.
visto por qualquer passante.
Visto de qualquer ângulo,
era incrivelmente belo.
Tulipas
Gérberas
Miosótis
e cravos.
De qualquer ângulo,
não havia dúvida.
Mas não para quem
ousasse se deitar
entre os canteiros.
Não para quem,
atraído pelo pulsar da cores,
enxergasse o jardim pelo avesso,
ao se aproximar demasiado
deixando o olhar escorrer
por um caule
até encontrar,
sob a umidade da terra,
fixadas,
monstruosas raízes.
sexta-feira, fevereiro 14, 2014
De como conheci o amor
I
Na história de como conheci o
amor existe uma longa calçada, um hospital onde alguém que eu amava morria, uma
tarde de novembro, uma bela mulher desconhecida e os olhares que trocamos
quando passamos uma pela outra.
Tudo começa na longa calçada por
onde eu passava, deixando atrás de mim um rastro de tristeza. Eu tinha deixado
alguém que eu amava morrendo num hospital. O hospital era desses que cheiram à
velhice naquela fase em que a morte ronda os leitos dos internos: cheiro de
pele enrugando velozmente e de fraldas geriátricas sujas. O cheiro estava nos quartos, nos corredores,
nas escadarias, nas rampas, nos uniformes dos enfermeiros e nas flores pálidas
de um jardim mal cuidado que me fazia pensar em cemitérios.
Eu ia pela calçada, cabisbaixa,
pensando. Alguém que eu tinha amado havia ficado lá, naquele hospital,
morrendo. Então a bela mulher desconhecida passou por mim na longa calçada e
olhei para ela como quem pede socorro, como quem não quer morrer envenenado
pela própria solidão. Olhei para ela como quem grita de desespero.
Alguém que eu amava morria num
hospital.
II
Na história de como conheci o
amor existe, também, um livro. Um livro que tinha uma história triste de paixão
e que eu tinha lido para algumas pessoas, entre as quais estava a bela
desconhecida que, logo depois, veio me pedir o livro emprestado. Me contou que
havia passado por mim, certa vez, na longa calçada do Campus da Universidade e
que meus olhos pediam socorro.
-É que alguém que eu amava- eu
disse- tinha ficado, naquela tarde, num hospital, morrendo.
III
Na história de como conheci o
amor existe uma velha canção, uma noite muito fria, um ônibus que nunca vinha e
uma crise de tosse.
A velha canção é There Is A Light That Never Goes Out que
sempre me deixou toda arrepiada porque eu tinha passado a minha adolescência morrendo
de solidão e tudo o que eu queria era ouvir de alguém o que a canção dizia: “Me
leve para sair esta noite/quero ver luzes/quero ver gente/Me leve no seu
carro/Por favor, não me deixe em casa/ Porque esta casa não é minha, é deles e
eu não sou mais bem-vinda/E se um ônibus de dois andares bater em nós/ morrer
ao seu lado/que jeito divino de morrer/e se um caminhão de dez toneladas nos
matasse/morrer ao seu lado/bem, o prazer e o privilégio são meus.”
E dentro da noite fria estávamos
nós: eu e ela, a desconhecida de antes, a passante da
longa calçada do campus. A crise de tosse era dela e o ônibus que não vinha
nunca era o meu.
E a noite fria foi virando
madrugada e ficando cada vez mais gelada. E nada do ônibus. Não obstante a
crise de tosse, que piorava com a queda da temperatura, ela não me deixou
sozinha.
E não ter me deixado só naquela
escuridão foi como ter cantado para mim a velha canção dos Smiths.
III
Depois disso muita coisa
aconteceu: ela veio morar comigo, nos “casamos” em Praga, quando prendemos um
cadeado com nossos nomes gravados no parapeito de uma ponte, junto a milhares
de cadeados semelhantes.
A ideia era atirar a chave no rio
Moldava, mas ficamos com medo de matar engasgado algum peixe desavisado, que
estivesse em extinção.
E até hoje ela me provoca
arrepios, como uma velha canção que a gente nunca se cansa de ouvir.
segunda-feira, fevereiro 10, 2014
Um poema de Anne Sexton
Elizabeth foi embora
1
Você jaz no ninho de sua morte real.
Muito além das pontas dos meus dedos nervosos
que tocavam sua cabeça movente
Sua velha pele enrugando-se, o sopro dos pulmões
curto como de menina quando levanta a vista,
até encontrar meu rosto balançando sobre o leito humano.
E, em algum lugar, você gritou: me deixe ir embora, me deixe ir embora...
Você jaz na jaula de sua última morte
Mas não era você
Rechearam suas bochechas, eu disse;
essa mão de argila, essa máscara de Elizabeth
não são verdadeiras. De dentro do cetim e da camurça desse leito inumano
algo gritou: me deixe ir embora, me deixe ir embora...
2
Eles me deram suas cinzas e fragmentos de ossos.
Chacoalhando como cabaça, numa urna de papelão
Chacoalhando como pedras abençoadas pelo forno que te consumiu.
Te esperei na catedral de feitiços,
E te esperei no país dos vivos
ainda com a urna ecoando em meu peito
quando algo gritou: me deixe ir embora, me deixe ir embora...
Assim que joguei fora o que restou de seus ossos
me ouvi gritando por sua face perdida
sua cara de maçã, pelo simples abrigo
de teus braços, os odores de agosto de sua pele. Depois separei seus vestidos
e os amores que você deixou, Elizabeth.
Elizabeth, até que você foi embora.
Tradução: Simone Teodoro
Anne Sexton . Elizabeth gone. In To bedlam and part way back- 1960
1
Você jaz no ninho de sua morte real.
Muito além das pontas dos meus dedos nervosos
que tocavam sua cabeça movente
Sua velha pele enrugando-se, o sopro dos pulmões
curto como de menina quando levanta a vista,
até encontrar meu rosto balançando sobre o leito humano.
E, em algum lugar, você gritou: me deixe ir embora, me deixe ir embora...
Você jaz na jaula de sua última morte
Mas não era você
Rechearam suas bochechas, eu disse;
essa mão de argila, essa máscara de Elizabeth
não são verdadeiras. De dentro do cetim e da camurça desse leito inumano
algo gritou: me deixe ir embora, me deixe ir embora...
2
Eles me deram suas cinzas e fragmentos de ossos.
Chacoalhando como cabaça, numa urna de papelão
Chacoalhando como pedras abençoadas pelo forno que te consumiu.
Te esperei na catedral de feitiços,
E te esperei no país dos vivos
ainda com a urna ecoando em meu peito
quando algo gritou: me deixe ir embora, me deixe ir embora...
Assim que joguei fora o que restou de seus ossos
me ouvi gritando por sua face perdida
sua cara de maçã, pelo simples abrigo
de teus braços, os odores de agosto de sua pele. Depois separei seus vestidos
e os amores que você deixou, Elizabeth.
Elizabeth, até que você foi embora.
Tradução: Simone Teodoro
Anne Sexton . Elizabeth gone. In To bedlam and part way back- 1960
Menina má
Acordo sempre
em cima do horário
E corro
Contorno poças de lama
pulo
o entulho
escalo muros e montanhas.
Espero
as longas demoras da noite
Choro
entre uma espera e outra
e entre uma noite e outra
envelheço
Danço quando posso
sozinha
no meio da sala
Ainda vou pro Oriente!
Trepo.
Santa Maria!
Pinta e Nina.
Odeio pinto
A vida me
nina
A vida, menina má.
Música me entorpece
Poesia me faz sonhar.
Sei que um dia
eu morro:
Mas trepo.
E meu gozo
constrange o paraíso.
em cima do horário
E corro
Contorno poças de lama
pulo
o entulho
escalo muros e montanhas.
Espero
as longas demoras da noite
Choro
entre uma espera e outra
e entre uma noite e outra
envelheço
Danço quando posso
sozinha
no meio da sala
Ainda vou pro Oriente!
Trepo.
Santa Maria!
Pinta e Nina.
Odeio pinto
A vida me
nina
A vida, menina má.
Música me entorpece
Poesia me faz sonhar.
Sei que um dia
eu morro:
Mas trepo.
E meu gozo
constrange o paraíso.
sexta-feira, fevereiro 07, 2014
Saudades de você em Paris
Estávamos ali, nos arredores do Sena. Era primavera. Nossa estada na cidade chegava ao fim.
- Já estou com saudades de você em Paris- Ela disse.
Eu ri.
- Você já está com saudades de Paris. – Retruquei. – Eu sou apenas um detalhe decorativo dentro desse sonho que é estar aqui. Sou só parte de uma bela metáfora.
Ela ficou brava. Argumentou que sem mim a viagem não teria graça; que minha presença dava sentido a tudo.
Fiz silêncio, enquanto um vento bonito fazia com que nossos cabelos ficassem mais poéticos.
Tudo bem, ela teria saudades de mim em Paris. Mas seria sem Paris que eu voltaria para casa com ela. E eu, sem Paris, reclamaria de ter de acordar cedo para ir para o aeroporto. Eu, sem Paris, continuaria tendo surtos de mau- humor diante de cada segundo de atraso dos voos. Surtaria também por causa do desconforto das poltronas do avião, por causa do cansaço das 11 horas de viagem. Eu, sem Paris, construiria meu muro de lamentações por causa do preço do taxi e reclamaria muito, muito da poeira acumulada na casa, fechada há semanas.
E ela me teria assim, por quanto tempo quisesse,mas sem Paris. E não teria saudades, aposto, a menos que nos separássemos por dias, semanas ou meses, provocando, com o afastamento, aquele efeito mágico que faz todos os nossos defeitos desaparecerem.
E pensando em todas essas coisas, tive medo. Medo de que ela deixasse de me amar por causa de algum gesto bobo meu, com o qual, de repente, implicasse. Da mesma forma como alguns gestos bobos da pessoa que a gente ama podem também, ao contrário e inexplicavelmente, encher cada vez mais nosso coração de ternura; da mesma forma, inversamente proporcional, como ela, de um jeito muito bonitinho,derrete meu coração todo, quando chama biscoitos waffer de mirabel.
- Já estou com saudades de você em Paris- Ela disse.
Eu ri.
- Você já está com saudades de Paris. – Retruquei. – Eu sou apenas um detalhe decorativo dentro desse sonho que é estar aqui. Sou só parte de uma bela metáfora.
Ela ficou brava. Argumentou que sem mim a viagem não teria graça; que minha presença dava sentido a tudo.
Fiz silêncio, enquanto um vento bonito fazia com que nossos cabelos ficassem mais poéticos.
Tudo bem, ela teria saudades de mim em Paris. Mas seria sem Paris que eu voltaria para casa com ela. E eu, sem Paris, reclamaria de ter de acordar cedo para ir para o aeroporto. Eu, sem Paris, continuaria tendo surtos de mau- humor diante de cada segundo de atraso dos voos. Surtaria também por causa do desconforto das poltronas do avião, por causa do cansaço das 11 horas de viagem. Eu, sem Paris, construiria meu muro de lamentações por causa do preço do taxi e reclamaria muito, muito da poeira acumulada na casa, fechada há semanas.
E ela me teria assim, por quanto tempo quisesse,mas sem Paris. E não teria saudades, aposto, a menos que nos separássemos por dias, semanas ou meses, provocando, com o afastamento, aquele efeito mágico que faz todos os nossos defeitos desaparecerem.
E pensando em todas essas coisas, tive medo. Medo de que ela deixasse de me amar por causa de algum gesto bobo meu, com o qual, de repente, implicasse. Da mesma forma como alguns gestos bobos da pessoa que a gente ama podem também, ao contrário e inexplicavelmente, encher cada vez mais nosso coração de ternura; da mesma forma, inversamente proporcional, como ela, de um jeito muito bonitinho,derrete meu coração todo, quando chama biscoitos waffer de mirabel.
quinta-feira, fevereiro 06, 2014
Desconcerto
Tem um som de violino vindo de longe, muito longe agora... Se mistura às batidas e ruídos constantes de marretas e de máquinas de construção civil.
A música, mesmo com essas interferências todas, é bonita e triste ao mesmo tempo.
Mas não quero me emocionar.
Hoje quero ter a dureza da pedra que o operário, do outro lado da janela, insiste em arrebentar em pedaços.
(...)
Coisas bonitas e tristes me desconcertam.
A música, mesmo com essas interferências todas, é bonita e triste ao mesmo tempo.
Mas não quero me emocionar.
Hoje quero ter a dureza da pedra que o operário, do outro lado da janela, insiste em arrebentar em pedaços.
(...)
Coisas bonitas e tristes me desconcertam.
Reflexões a partir de uma barata esmagada
Esmaguei a barata na parede. Ela era grande, bem nutrida. Longilíneas antenas.
Lamentei-me pela pintura recente, agora manchada por aquele líquido levemente avermelhado, ralo. Sangue de barata.
Pode sangue de barata funcionar como madeleine proustiana e cuspir em nossa cara estilhaços de fragmentos de passado, ruínas sobre as quais , de imediato ( e sem querer), nos debruçamos em trabalho de reconstrução arqueológica?
Aquele borrão na parede pôde e a ele se sobrepuseram outras marcas de sangue. De gente. E a parede era outra também e meu irmão, no meio da noite, a esmurrava e a chutava com fúria, a ponta dos dedões dos pés explodindo em carne viva e sangue muito, muito vermelho. (Era um barraco tão pobre que nem era preciso lamentar a pintura).
Ele tinha pesadelos. Monstros, samurais, assassinos e Bruce Lees eram as vítimas daqueles socos e pontapés desesperados e todos nós acordávamos sobressaltados com o trepidar da casa inteira.
Nossas paredes eram atacadas também em outras situações.
Quando nosso desejo rugia, por exemplo.
E nosso desejo rugia com muito mais força quando chegava a lamentável época de Natal.
Não é preciso explicar por que.
E meu irmão batia a cabeça na parede.
E eu batia a cabeça na parede.
Nosso desejo insatisfeito, uma tristeza funda ocupando, dentro de nós, o espaço de todas as outras coisas que faltavam. A aridez de nossas vidas.
A casa trepidava. O sonho ruim em plena luz, quando todos já estavam despertos.
Foi com 11 anos que entendi tudo.
Eu estudava um velho livro de biologia, ia ter prova.
Vi lá os combates nas savanas. Fascinada e assustada eu lia sobre belos e altivos felinos que estraçalhavam.
Nunca mais bati a cabeça na parede, nem quando estava com fome. Sepultei para sempre minha mágoa e revolta contra o pai e a mãe. Eles não tinham culpa, compreendi.
A vida era assim: uns estraçalhavam. Aos outros cabia a triste opção de não se deixar estraçalhar.
O tempo passou como tem mania de fazer, irremediavelmente.
Não sei se meu irmão se curou dos pesadelos.
Mas, desde então, os meus sonhos maus começaram e, em certa noite, acordei com meu grito.
Até hoje estou gritando.
Lamentei-me pela pintura recente, agora manchada por aquele líquido levemente avermelhado, ralo. Sangue de barata.
Pode sangue de barata funcionar como madeleine proustiana e cuspir em nossa cara estilhaços de fragmentos de passado, ruínas sobre as quais , de imediato ( e sem querer), nos debruçamos em trabalho de reconstrução arqueológica?
Aquele borrão na parede pôde e a ele se sobrepuseram outras marcas de sangue. De gente. E a parede era outra também e meu irmão, no meio da noite, a esmurrava e a chutava com fúria, a ponta dos dedões dos pés explodindo em carne viva e sangue muito, muito vermelho. (Era um barraco tão pobre que nem era preciso lamentar a pintura).
Ele tinha pesadelos. Monstros, samurais, assassinos e Bruce Lees eram as vítimas daqueles socos e pontapés desesperados e todos nós acordávamos sobressaltados com o trepidar da casa inteira.
Nossas paredes eram atacadas também em outras situações.
Quando nosso desejo rugia, por exemplo.
E nosso desejo rugia com muito mais força quando chegava a lamentável época de Natal.
Não é preciso explicar por que.
E meu irmão batia a cabeça na parede.
E eu batia a cabeça na parede.
Nosso desejo insatisfeito, uma tristeza funda ocupando, dentro de nós, o espaço de todas as outras coisas que faltavam. A aridez de nossas vidas.
A casa trepidava. O sonho ruim em plena luz, quando todos já estavam despertos.
Foi com 11 anos que entendi tudo.
Eu estudava um velho livro de biologia, ia ter prova.
Vi lá os combates nas savanas. Fascinada e assustada eu lia sobre belos e altivos felinos que estraçalhavam.
Nunca mais bati a cabeça na parede, nem quando estava com fome. Sepultei para sempre minha mágoa e revolta contra o pai e a mãe. Eles não tinham culpa, compreendi.
A vida era assim: uns estraçalhavam. Aos outros cabia a triste opção de não se deixar estraçalhar.
O tempo passou como tem mania de fazer, irremediavelmente.
Não sei se meu irmão se curou dos pesadelos.
Mas, desde então, os meus sonhos maus começaram e, em certa noite, acordei com meu grito.
Até hoje estou gritando.
O cu do pinto
Você já soprou o cu de algum pintinho?- Perguntei.
- Não!- Ela respondeu, achando minha pergunta inusitada.-Por quê?
-É que acontece uma coisa meio mágica quando a gente faz isso. Foi meu pai que me ensinou, quando eu era bem pequenininha.
-Ah, é? O quê?- Ela estava curiosa.
- Ele nos manda beijos.
- O cu do pintinho? Nos manda beijos?
-É
( Silêncio)
- E tem de soprar com força?
( Gargalhadas)
- Não! Não se sopra como se quisesse encher um balão. É sopro sem contato e de leve. É só mandar um ventinho lá. Ninguém quer estourar a cabeça do pintinho, né?
(Gargalhadas).
-Meu pai me ensinou outra coisa também.
- Que medo!( Risos)
- Você sabe quando um gato é macho ou fêmea?
- Não.
_ Meu pai me ensinou como saber. Gatos machos não ficam com o bingolim balançando como a maioria dos bichos. E são tão andrógenos... Como saber? Meu pai me ensinou assim: a gente escolhe um gato, abre as pernas dele, como se a gente fosse ginecologista, com cuidado, pra não machucar. Só vai ter pelo lá. No lugar que era pra ter alguma marca de diferença, não tem nada! É incrível como a natureza deles não está interessada em marcar diferenças. Amo gatos.! A lição do meu pai era: passa o dedo! E vai passando. Se for macho, o Bingolim aparece. Se não, vai ficar do mesmo jeito.
Ela quase morreu de rir.
- Sério? Seu pai então te ensinou a deixar o gato excitado? ( Gargalhadas, quase às lágrimas).
-Pois é. E me ensinou isso com o orgulho de biólogo, que ele nunca foi. O resultado disso foi devastador. A gataria que se multiplicava no nosso quintal não teve mais sossego: eu e meu irmão passávamos tardes e tardes perseguindo os coitados, só para realizar tais verificações técnicas.
- Não!- Ela respondeu, achando minha pergunta inusitada.-Por quê?
-É que acontece uma coisa meio mágica quando a gente faz isso. Foi meu pai que me ensinou, quando eu era bem pequenininha.
-Ah, é? O quê?- Ela estava curiosa.
- Ele nos manda beijos.
- O cu do pintinho? Nos manda beijos?
-É
( Silêncio)
- E tem de soprar com força?
( Gargalhadas)
- Não! Não se sopra como se quisesse encher um balão. É sopro sem contato e de leve. É só mandar um ventinho lá. Ninguém quer estourar a cabeça do pintinho, né?
(Gargalhadas).
-Meu pai me ensinou outra coisa também.
- Que medo!( Risos)
- Você sabe quando um gato é macho ou fêmea?
- Não.
_ Meu pai me ensinou como saber. Gatos machos não ficam com o bingolim balançando como a maioria dos bichos. E são tão andrógenos... Como saber? Meu pai me ensinou assim: a gente escolhe um gato, abre as pernas dele, como se a gente fosse ginecologista, com cuidado, pra não machucar. Só vai ter pelo lá. No lugar que era pra ter alguma marca de diferença, não tem nada! É incrível como a natureza deles não está interessada em marcar diferenças. Amo gatos.! A lição do meu pai era: passa o dedo! E vai passando. Se for macho, o Bingolim aparece. Se não, vai ficar do mesmo jeito.
Ela quase morreu de rir.
- Sério? Seu pai então te ensinou a deixar o gato excitado? ( Gargalhadas, quase às lágrimas).
-Pois é. E me ensinou isso com o orgulho de biólogo, que ele nunca foi. O resultado disso foi devastador. A gataria que se multiplicava no nosso quintal não teve mais sossego: eu e meu irmão passávamos tardes e tardes perseguindo os coitados, só para realizar tais verificações técnicas.
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