segunda-feira, fevereiro 10, 2014

Menina má

Acordo sempre 
em cima do horário
E corro
Contorno poças de lama
pulo 
o entulho
escalo muros e montanhas.

Espero
as longas demoras da noite
Choro
entre uma espera e outra
e entre uma noite e outra
envelheço

Danço quando posso
sozinha
no meio da sala

Ainda vou pro Oriente!
Trepo.
Santa Maria!
Pinta e Nina.
Odeio pinto
A vida me
nina
A vida, menina má.

Música me entorpece
Poesia me faz sonhar.
Sei que um dia
eu morro:

Mas trepo.
E meu gozo
constrange o paraíso.

sexta-feira, fevereiro 07, 2014

Saudades de você em Paris

Estávamos ali, nos arredores do Sena. Era primavera. Nossa estada na cidade chegava ao fim.
- Já estou com saudades de você em Paris- Ela disse.
Eu ri.
- Você já está com saudades de Paris. – Retruquei. – Eu sou apenas um detalhe decorativo dentro desse sonho que é estar aqui. Sou só parte de uma bela metáfora.
Ela ficou brava. Argumentou que sem mim a viagem não teria graça; que minha presença dava sentido a tudo.
Fiz silêncio, enquanto um vento bonito fazia com que nossos cabelos ficassem mais poéticos.
Tudo bem, ela teria saudades de mim em Paris. Mas seria sem Paris que eu voltaria para casa com ela. E eu, sem Paris, reclamaria de ter de acordar cedo para ir para o aeroporto. Eu, sem Paris, continuaria tendo surtos de mau- humor diante de cada segundo de atraso dos voos. Surtaria também por causa do desconforto das poltronas do avião, por causa do cansaço das 11 horas de viagem. Eu, sem Paris, construiria meu muro de lamentações por causa do preço do taxi e reclamaria muito, muito da poeira acumulada na casa, fechada há semanas.
E ela me teria assim, por quanto tempo quisesse,mas sem Paris. E não teria saudades, aposto, a menos que nos separássemos por dias, semanas ou meses, provocando, com o afastamento, aquele efeito mágico que faz todos os nossos defeitos desaparecerem.

E pensando em todas essas coisas, tive medo. Medo de que ela deixasse de me amar por causa de algum gesto bobo meu, com o qual, de repente, implicasse. Da mesma forma como alguns gestos bobos da pessoa que a gente ama podem também, ao contrário e inexplicavelmente, encher cada vez mais nosso coração de ternura; da mesma forma, inversamente proporcional, como ela, de um jeito muito bonitinho,derrete meu coração todo, quando chama biscoitos waffer de mirabel.

quinta-feira, fevereiro 06, 2014

Desconcerto

Tem um som de violino vindo de longe, muito longe agora... Se mistura às batidas e ruídos constantes de marretas e de máquinas de construção civil.
A música, mesmo com essas interferências todas, é bonita e triste ao mesmo tempo.
Mas não quero me emocionar.
Hoje quero ter a dureza da pedra que o operário, do outro lado da janela, insiste em arrebentar em pedaços.
(...)
Coisas bonitas e tristes me desconcertam.

Reflexões a partir de uma barata esmagada

Esmaguei a barata na parede. Ela era grande, bem nutrida. Longilíneas antenas.
Lamentei-me pela pintura recente, agora manchada por aquele líquido levemente avermelhado, ralo. Sangue de barata.
Pode sangue de barata funcionar como madeleine proustiana e cuspir em nossa cara estilhaços de fragmentos de passado, ruínas sobre as quais , de imediato ( e sem querer), nos debruçamos em trabalho de reconstrução arqueológica?
Aquele borrão na parede pôde e a ele se sobrepuseram outras marcas de sangue. De gente. E a parede era outra também e meu irmão, no meio da noite, a esmurrava e a chutava com fúria, a ponta dos dedões dos pés explodindo em carne viva e sangue muito, muito vermelho. (Era um barraco tão pobre que nem era preciso lamentar a pintura).
Ele tinha pesadelos. Monstros, samurais, assassinos e Bruce Lees eram as vítimas daqueles socos e pontapés desesperados e todos nós acordávamos sobressaltados com o trepidar da casa inteira.
Nossas paredes eram atacadas também em outras situações.
Quando nosso desejo rugia, por exemplo.
E nosso desejo rugia com muito mais força quando chegava a lamentável época de Natal.
Não é preciso explicar por que.
E meu irmão batia a cabeça na parede.
E eu batia a cabeça na parede.
Nosso desejo insatisfeito, uma tristeza funda ocupando, dentro de nós, o espaço de todas as outras coisas que faltavam. A aridez de nossas vidas.
A casa trepidava. O sonho ruim em plena luz, quando todos já estavam despertos.
Foi com 11 anos que entendi tudo.
Eu estudava um velho livro de biologia, ia ter prova.
Vi lá os combates nas savanas. Fascinada e assustada eu lia sobre belos e altivos felinos que estraçalhavam.
Nunca mais bati a cabeça na parede, nem quando estava com fome. Sepultei para sempre minha mágoa e revolta contra o pai e a mãe. Eles não tinham culpa, compreendi.
A vida era assim: uns estraçalhavam. Aos outros cabia a triste opção de não se deixar estraçalhar.
O tempo passou como tem mania de fazer, irremediavelmente.
Não sei se meu irmão se curou dos pesadelos.
Mas, desde então, os meus sonhos maus começaram e, em certa noite, acordei com meu grito.
Até hoje estou gritando.

O cu do pinto

 Você já soprou o cu de algum pintinho?- Perguntei.

- Não!- Ela respondeu, achando minha pergunta inusitada.-Por quê?

-É que acontece uma coisa meio mágica quando a gente faz isso. Foi meu pai que me ensinou, quando eu era bem pequenininha.

-Ah, é? O quê?- Ela estava curiosa.
- Ele nos manda beijos.
- O cu do pintinho? Nos manda beijos?

( Silêncio)
- E tem de soprar com força?
( Gargalhadas)

- Não! Não se sopra como se quisesse encher um balão. É sopro sem contato e de leve. É só mandar um ventinho lá. Ninguém quer estourar a cabeça do pintinho, né?
(Gargalhadas).

-Meu pai me ensinou outra coisa também.
- Que medo!( Risos)

- Você sabe quando um gato é macho ou fêmea?
- Não.
_ Meu pai me ensinou como saber. Gatos machos não ficam com o bingolim balançando como a maioria dos bichos. E são tão andrógenos... Como saber? Meu pai me ensinou assim: a gente escolhe um gato, abre as pernas dele, como se a gente fosse ginecologista, com cuidado, pra não machucar. Só vai ter pelo lá. No lugar que era pra ter alguma marca de diferença, não tem nada! É incrível como a natureza deles não está interessada em marcar diferenças. Amo gatos.! A lição do meu pai era: passa o dedo! E vai passando. Se for macho, o Bingolim aparece. Se não, vai ficar do mesmo jeito.
Ela quase morreu de rir.
- Sério? Seu pai então te ensinou a deixar o gato excitado? ( Gargalhadas, quase às lágrimas).
-Pois é. E me ensinou isso com o orgulho de biólogo, que ele nunca foi. O resultado disso foi devastador. A gataria que se multiplicava no nosso quintal não teve mais sossego: eu e meu irmão passávamos tardes e tardes perseguindo os coitados, só para realizar tais verificações técnicas.

O coelho da Clarice

Hoje quando abraçava minha mãe para encaixar o cinto de segurança dela no lugar apropriado para isso senti um clima estranho na rua onde havia estacionado o carro. Se não fosse a minha presença, a da mãe e a de um rapazinho com um uniforme antiquado, que me olhava como se algo surreal estivesse acontecendo, o lugar estaria deserto.

Então circulei o veículo para entrar pela porta do motorista. O garoto se aproximou falando que tinha um gato dentro do carro, no banco de trás.

- Como assim, um gato? Não deixei os vidros abertos, tenho certeza!

E fui ver, e lá estava um dos gatos mais bonitos que já vi, fazendo arte na espuma do meu banco traseiro, se espreguiçando, estapeando coisas invisíveis no ar.

- Gente, mas como ele entrou?

Então o menino de roupa engraçada me explicou que viu o gato entrando por baixo do carro, por ali, perto de onde fica o cano de descarga.

O gato era da avó dele.

Eu disse: Menino, você viu ele entrando mesmo , né? Porque eu juro que não estava tentando roubar o gato da sua avó.

_ Não moça, vi sim. Posso pegar ele de volta?
_ Pode.

Aí o menino pegou o gato e, não obstante todas as explicações físicas de como o bichinho tinha conseguido entrar, eu acabei ficando com uma deliciosa sensação de mistério, como aquela que a gente fica quando lê a história da Clarice Lispector sobre um coelho, gordo, muito gordo que conseguiu escapar de uma gaiola cujas grades eram muito estreitas e que estava ,definitivamente ,trancada.

Mulheres em trânsito

Tudo engarrafado, aí a alça do sutiã escorregou. Fui arrumar e devo ter demorado dois segundos a mais para arrancar e levei um buzinaço na orelha que quase me deixou surda. Fiz sinal para o moço mal educado voar por cima do meu carro. Ele ficou bravo, jogou farol alto, me ofuscou. E colou. Ele ia colando e eu ia reduzindo. Tava com pressa não. Nem tinha como. O moço, todo plaboy, ficou nervoso com minhas reduzidas e, com fúria, foi pra pista da esquerda pra ficar do meu lado, pra me xingar. Abriu o vidro e deu um berro, que nem ouvi direito, mas fui logo dizendo:
_Ô do pinto pequeno!

Porque, na minha opinião, uma pessoa pra agir assim, de forma tão arrogante com as outras, só pode ter algum problema de autoaceitação.

Aí ele ficou uma fera.
Me mandou ir pra puta que pariu e me chamou de sapatão. E fechou o vidro rapidamente,porque só então percebeu que eu não estava sozinha: Samuel Medinaestava comigo, eu não era uma mulher sozinha dirigindo.

Pra puta que pariu eu nunca fui quando me mandaram pra lá, porque minha mãe é uma linda e mesmo se tiver sido puta, isso não é da conta de ninguém.
Mas ,pelo menos, fui reconhecida.
Se pudesse, eu andava com rótulo: sapatão enfurecida: favor tratar com delicadeza.

Zangief

Hoje na academia, um rapaz que era a cara do Zangief do video-game se aproximou de mim e me perguntou se eu lutava alguma coisa. Aí eu disse que não, que já lutei há um milhão de anos, uma lutinha coreana que não valia nada. Ele me disse assim" Você parece aquelas "muié" que luta." Eu ri e ele foi lá levantar 200 quilos no supino. Cinco minutos depois voltou, perguntado por que eu usava esse " negócio" no joelho. ( O negócio é uma par de joelheiras). Expliquei que machuquei o joelho no início do ano, que por isso faço musculação, para fortalecer os músculos, e que a joelheira evita lesões nas articulações na hora dos exercícios mais pesados. Então o cara me disse que também tinha machucado o joelho, que era go go boy(!!!!) e que tinha caído de um palco na hora que tava dançando e tirando a roupa. Segurei a gargalhada. O menino era meio bobão, coitado. Sempre me dá vontade de rir desses meninos fortões e bobões, como a gente ri de uma criança que lambuza a cara toda tomando sopa.

Mas confesso que gostei de ouvir que eu pareço uma mulher que luta. Assim como gostei de ouvir outro dia de um enfermeiro que ele achava que eu tinha estudado Educação Física. Assim como gostei de ser barrada na porta do shopping recentemente ( os seguranças perguntaram para mim e para Raquel se a gente tinha mais de 18. Respondemos. Eles pediram a confirmação do documento. Mostramos.)

Bom saber que o tempo tem sido um camarada. Gosto muito mais de mim hoje, trintona, do que quando eu tinha vinte e poucos anos!!!!

Na periferia da periferia

Aqui estou, na periferia da periferia da periferia da periferia Ad infinitum do Capitalismo. ( Leia-se bairro da Lagoa, região de Venda Nova, Zona Norte de Belo Horizonte, mais especificamente rua 28, templo de consumo à moda periférica, desde a minha infância longínqua. Construções mal planejadas, aglomerados de lojas onde se vende de tudo, desde porta-moedas a carros semi-novos).
Meus olhos não acreditam: entre duas lojas de sapatos de parede mofada, uma Cacau-Show.
Fico comovida e compro uma trufa.

quarta-feira, janeiro 01, 2014

Genealogia da angústia


I
Do sono da criança

No céu fundo 
da boca
sobre a língua satisfeita
dormia o polegar.

II
Do episódio da perda

Súbito
dali expulso
perdeu razão de existir:
o dedo tinha sido feito
para matar a fome da boca
agora
irremediavelmente
oca.
Devastador divórcio:
O Vazio
escorreu pela garganta
e corrompeu
o coração.

III
Detalhe sobre o Vazio

O Vazio
queima como gelo
e tem peso de pedra

IV
Da fome

Hoje
a boca nostálgica
pede
suplica
e nada basta.

A língua
ainda
sonha
o sabor
do sono.

sexta-feira, dezembro 27, 2013

E agora extraio sonhos das entranhas ocas de uma canção melancólica

Uma vez escrevi um poema chamado" Visitando Ruth". Na época fui bombardeada de perguntas, afinal, quem era essa tal de Ruth? Um amor antigo? Um amor platônico , ou pseudônimo para uma apaixonite crônica? Acho que naqueles idos esclareci para poucos o mistério. Não sou dessas que explicam poemas. Para mim a penumbra é um dos ingredientes principais de um texto poético. É preciso haver penumbra para dormir e sonhar...

Mas hoje, não sei por que, me deu vontade de contar quem é a Ruth. Mas antes vamos ao poema:

Visitando Ruth

O outono se insinua triste no azul sem nuvens do lá fora...
Há poucas horas, o sol frio desenhou minha sombra no asfalto sujo...
Cores estranhas dançavam em meu coração...
E agora extraio sonhos das entranhas ocas de uma canção melancólica

Em meus pensamentos, os trens desaparecem sempre em curvas cor de cinza
Suaves garotas, numa tarde de verão, trocam delicadezas entre si:potes de mel, conchas onde moram muitos mares e o arco-íris.

E ainda sonhando
colhendo amoras e flores em minha infância de árvores
e caindo, inocente, em minha primeira armadilha de olhos
te evoco
nua e bela
como a pintura impossível
das improváveis asas de um anjo.


Escrevi "Visitando Ruth" numa tarde azul de outono, dessas em que a gente quase sufoca de tanta beleza. Estava no meu quarto, ouvindo uma canção da trilha sonora de "Tomates verdes e fritos" e sonhando, é claro.
(ouvir música para mim é algo sagrado;um ritual como é a oração para os crentes).
Quem assistiu ao "Tomates" saberá que uma das protagonistas se chama Ruth. A outra é a selvagem Idge ( com a qual sempre me identifiquei..)
Há quem diga que na trama há uma amizade profunda entre as duas. Eu sempre enxerguei mais com meus olhos, talvez tendenciosos. ( Para mim o filme é repleto de metáforas homoeróticas. A maioria delas envolve comida, como a cena em que d
epois de ter enfrentado um enxame para colher um pote de mel, Idge o oferece a  Ruth, que entre o espanto e a alegria, experimenta seu conteúdo lambendo o dedos.

A canção da trilha sonora que dá nome ao meu poema se refere ao momento em que Idge, de longe, escondida entre arbustos, com a cara mais triste do universo inteiro, observa as cenas da vida de recém-casada da amiga. (Momentos  felizes, a princípio, mas que depois se transformarão na tormenta que será decisiva para o desfecho do conflito).

Então é isso. Era outono, eu estava triste e sozinha e ouvia a canção "Visitando Ruth", do filme "Tomates verdes e fritos". Fui me lembrando de trechos do longa e pedaços de minha história foram se misturando com eles, num devaneio melancólico e lindo.


Segue a canção:

http://www.youtube.com/watch?v=sbSF7mxcmmw

quinta-feira, dezembro 12, 2013

Ainda era verão em Berlim





“ARBEICHT MACHT FREI”- O TRABALHO LIBERTA. O portão era pesado, alto, escuro. Cada letra dessa mensagem era uma espécie de variação artística do formato tradicional e monótono das barras de ferro que, unidas, compõem as grades das prisões. Os dizeres eram parte do portão da jaula e, se não estivéssemos em um campo de concentração, seria até um belo trabalho decorativo.
Além de pesado, alto e escuro, o portão era fúnebre, como o de um cemitério antigo e contrastava absurdamente com as fatias de azul do céu, vistas através das barras de ferro. Eu estava em  Sachesenhausen Concentration Camp , localizado nos arredores da capital alemã, fazendo, acreditem, turismo. O fato é que este lúgubre lugar, onde mais de cem mil pessoas foram assassinadas durante o Nazismo, foi transformado em um triste museu que, na atualidade, recebe visitantes de todo o mundo.
Ainda era verão em Berlim. Avancei para o lado de dentro. Precisei fazer um esforço maior do que comumente faço para abrir portas normais. As dobradiças rangeram, como num filme de terror. Antes de dar início ao meu passeio sombrio, abri e fechei a porta da gaiola umas três ou quatro vezes. Simples assim: abrir e fechar, sair e entrar, como se aquelas grades, outrora sempre cerradas, nunca tivessem sido o sinônimo de uma sentença de morte.
II
Nossa viagem, até aquele momento, tinha sido feita de vastos sorrisos ensaiados e direcionados para a sofisticada lente de nossa câmera fotográfica. Mas quando atravessei o portão de Sachesenhausen, algo mudou para sempre: ali, do lado de dentro, eu não poderia jamais sorrir. Um mal-estar estranho foi crescendo em mim e imprimindo gravidade em meu rosto. Não obstante o silêncio sagrado que envolvia o lugar, o peso de um sofrimento terrível se fazia presente, como se gritos de pavor houvessem atravessado as décadas e estivessem ali, reverberando.
Das centenas de barracões (ou alojamentos) de Sachesenhausen poucos foram preservados. Nas bases retangulares dos que foram demolidos estão depositadas inúmeras pedras, que representam cada uma das vítimas do genocídio.
É preciso “ter estômago” para entrar nos barracões que sobraram. Em um deles (outrora enfermaria) há uma rica exposição contendo informações sobre a rotina médica do campo (sobretudo a respeito das castrações e das experimentações médico-científicas brutais que lá ocorriam); há biografias de prisioneiros e de nazistas, objetos pessoais (frascos de medicamentos, malas, louças e talheres, vestuários diversos, etc).
De todas as coisas, vistas cuidadosamente, duas me fizeram divagar: uma minúscula lata de açúcar arredondada, semelhante a essas em que, hoje em dia, se comercializam pequenas quantidades de rapé (ela estava amarrada a uma correntinha, como se relógio de bolso fosse) e um pijama listrado, azul e branco, dobrado dentro de um expositor de vidro. O número de identificação do prisioneiro, costurado no tecido, à altura do peito, estava visível. Logo acima havia uma fotografia em preto e branco: um judeu vestia aquele pijama.
Objetos têm uma energia extraordinária. E, não sei explicar por que, alguns têm mais do que outros.
A latinha de açúcar tinha legenda. Dessa maneira fiquei sabendo que ela tinha pertencido a um judeu que a protegia (e a seu conteúdo, é claro) como teria defendido  uma mina de ouro.  Estava presa entre seus dedos quando seu corpo foi levado ao crematório para incineração.
Então, um fragmento triste da história se insinuou em meus pensamentos: fiquei imaginado o homem lá, dentro daquele inferno, fazendo apenas uma lamentável refeição ao dia, adoecendo de corpo e alma de tanto trabalhar além de suas forças, vendo morrer, um a um, seus companheiros e sofrendo de saudades dos filhos, dos quais, em algum outro campo distante, talvez só restassem as cinzas. E esse homem aperta a latinha entre os dedos, com força. Ela quase perfura a carne da palma de sua mão direita. E, dos míseros gramas de açúcar que há dentro dela, o homem coloca na língua apenas meia dúzia de grãos quase invisíveis, com o intuito de evocar, em reminiscência velozmente fugaz, a doçura da vida. E assim ele vai administrando a pequena quantidade, em doses lentas e sofridas, desejando que o inferno acabasse antes que a lata ficasse vazia. Mas já sabemos o final da história. E ele não é feliz.
Já o pijama listrado, azul e branco, era como a mistura entre céu e nuvens que eu via pela janela do alojamento. Suas cores me fizeram pensar nas fotografias históricas, em que tudo aparece em preto e branco: o campo, a vegetação, os barracões insalubres e os corpos esquálidos dos prisioneiros, dentro dos pijamas surrados. Nessas fotografias tudo parece irreal (como a beleza de Praga vista através das lentes de óculos escuros), justamente porque faltam as cores.
O cenário real era colorido e isso era absurdo para mim. Me aproximei da janela e respirei com urgência. Saí do alojamento, caminhei sobre o trecho gramado. Ouvi o farfalhar das árvores naquele silêncio sagrado.  E imaginei a movimentação dos homens escravizados, a mancha vermelha de sangue na roupa de um, a marca amarelada de vômito nas calças de outro, as listras azuis, perdendo matizes, mas sempre azuis, mesmo que desbotadas. Imaginei a cor de cada olho aterrorizado pela ameaça da morte. Imaginei o tom de cada pele marcada pela dor. Era absurdo para mim que o inferno pudesse ter existido sob um céu de verão, com árvores reverdecidas. Para mim era absurdo saber que no inferno pudesse ter soprado um vento assim.
Fui ficando cada vez mais grave. Entrei numa sala de azulejos brancos, que mais parecia um açougue. Presas ao chão, também com acabamento de azulejos brancos, havia três mesas de autópsia, tão assépticas que era difícil acreditar que nelas corpos de gente tinham sido dissecados. No subsolo havia uma sala ampla e gelada, como um frigorífico. Deduzi que ali tivesse sido uma espécie de morgue, depois me ocorreu que era uma câmara de gás, por causa dos arranhões nas paredes ( seriam marcas de unhas, como as que há em Auschwitz?)  e de tubulações que vinham de um lugar desconhecido. Por fim, parei de fazer especulações e dei o fora dali. Era esquisito demais.
Segui para a área de execuções, dei uma volta pelas ruínas do crematório. Visitei um dos barracões que era destinado às prisões e outro, onde ficavam os horripilantes mictórios e salas de banho.
Saí de Sachesenhausen envelhecida. E me lembrei de Primo Levi, quando afirma que a experiência traumática das vítimas dos campos de concentração é inenarrável, porque há uma incompatibilidade simbólica entre o universo concentracionário e a vida do lado de fora. O que houve ali foi tão absurdo, que não cabe em nossa linguagem.
Saí de Sachesenhausen pensando no que há de maldade no humano, na perversidade de um sistema capaz de engendrar esquemas de morte administrada.
No entanto, quando atravessei o portão ornamentado com a virtuosa mensagem sobre a importância do trabalho em nossas vidas, ainda pude ter fé em nossa espécie: o ranger incessante das dobradiças, provocado pelo entra- e -sai dos turistas me fez lembrar de que o abrir e fechar daquela grade assombrosa hoje só é possível porque muitos colaboraram para que os campos de concentração fossem desativados para sempre. Há a maldade, há a bestialidade. Mas há também bondade no humano.
O museu está lá, refrescando nossa memória, para que não se repita a catástrofe.


As dobradiças do portão de  Sachesenhausen Concentration Camp ainda rangem no meu sono.

domingo, dezembro 01, 2013

Fico sempre
cheirando a tabaco.

Sempre linda
aquela sua luz úmida.

(Vasta maré fertilizante
se derrama)

Fogo incendiando
rastros de sax.

Aprender as tardes.
Abrasar este coração despetalado.
Arrebentar em cores.

Sempre linda
aquela sua luz
úmida.

Restos de sax.
Fico sempre
cheirando a tabaco.

terça-feira, novembro 26, 2013

Ventos brutais

Me sentia cansada 
ante as nebulosidades.
Quando a chuva me delira
Troco de temperaturas.

Absurda
como voltar cantando as serpentinas de um funeral
uma pétala aconteceu
enquanto um blue ruminava
monótono dentro da casa.

Os raios de um fascínio
que se descolore
Flores que ardem nos olhos
mas são como o gosto
e
escapam.

quinta-feira, novembro 07, 2013

Jardinagem


A cor roxa
engole a clorofila.

Coração- Magoado
é o nome de uma planta.
( O arbusto toca o chão, 
é puro peso)

Folhas verdes também têm
hematomas.

A Dormideira se recolhe
à ameça do meu toque.

( Ramos e ramos
carregados de pavor)

Folhas verdes também
gelam de medo.

Me deito
sobre o sumo
desses caules decepados.

Permanecerei aqui
imóvel.

A música explosiva
das Flores-de-Trombeta.

sexta-feira, setembro 20, 2013

Distraídas astronautas

O céu sempre me pareceu
tão masculino
todo azul
e com um deus morando  dentro

( segundo as narrativas da mãe
quando eu ainda era o inchaço em seu ventre
e captava sussurros
pelas viscosidades da placenta).

Um deus de barba branca
no trono- ela dizia.
Trovejante voz paterna
ordenando o alternar dos dias
e das estações e dos tons de azul
do céu
que sempre me pareceu tão masculino
Porque lá tinha um trono.
Porque lá tinha uma ordem.
Porque lá tinha um grito.

Mas então vem a lua
e um império inteiro desaba.
Odores de fêmea
umedecem os ares.

A lua, inchada
como a barriga da mãe
quando me contava mentiras

A lua, pálida ou vermelha
ou quando a sombra ameaça
sua estranha claridade.

E de perto ( bem de perto)
-Por dentro-
Uma profusão de chagas escancaradas
Crateras
sobre as quais
distraídas astronautas
de tempos em tempos
 vêm pisar
alargando feridas
fincando bandeiras
enlouquecendo
Para, em seguida,
Desaparecerem para sempre.

quinta-feira, setembro 19, 2013

Vagão

Nesta noite
não te amarei em Singapura
entre as cores da Pequena Índia
e o cheiro que falta
à profusão de perfumes.

Nesta noite
não te verei em Andrômeda
aprisionada em
azuladas bordas de estrelas velhas.

Nesta noite
não te verei em Guadalupe
embora insista em extrair
rosas das pedras.
O que umedece em mim
não são os meus olhos.

Nesta noite
não te verei na Praça 7
onde é negra a roupa da juventude.
Rodinhas de skate deslizam
em poças de urina
e no meu sonhar todos os teus lábios.

Um pássaro grita dentro de mim.
afundas, indiferente,
na irreparável treva do nunca.

quinta-feira, agosto 15, 2013

Os livros

 Os livros I

Era mil novecentos e oitenta e alguma coisa.
A criança que fui irrompeu, certa tarde, nos interiores da biblioteca da escola, fugindo de uma tempestade de granizo.
Esbaforida. Sã e salva?
Assustada.
Foi como entrar em universo paralelo.
E lá estava o livro. De capa dura, cinza talvez. Ou azul? Era cor fria, única certeza.
Abri-o. O que contava, como se chamava, se perdeu no tempo.
Me encantei para sempre.
Quis o livro para mim.
Mas não pude levá-lo para casa, nem emprestado. Não permitiram.
Fiquei, por isso, por dias, em estado de letargias de paixão.

Então o pai,que trabalhava carregando nas costas pesadas caixas de mercadorias, me disse que tinha um livro para mim.Que tinha pedido ao dono da livraria quando foi fazer uma entrega lá.
Só que o pai era esquecido e me enrolou por dias. ( Meses? Séculos?).
Mal sabia ele que a espera me adoeceu novamente.
E todas as noites em vez de abordá-lo no portão de casa procurando pelas balas chita que ele sempre nos trazia, eu perguntava pelo livro. No meu sonho o livro que eu ganharia era o mesmo da biblioteca, que tinham me negado, na tarde em que choveu gelo.

Certa noite o pai chegou bêbado, como sempre, com os bolsos repletos de balas, como sempre, cheirando a tabaco, como sempre e com um milagre nas mãos. Meu livro!
Para minha decepção, obviamente o livro não era o mesmo do meu desejo.
Mas chovia e eu estava só e com frio.
O milagre estava feito.

Os livros II

Mil novecentos e oitenta e alguma coisa outra vez.
Sandra Almeida morava quase em frente à minha casa e tinha uma mina de ouro lá: a coleção inteira da Série Vaga-lume. Só que a mãe da Sandrinha não gostava muito de visitas de crianças, então eu nunca tinha entrado na casa dela e por isso nunca tinha chegado perto da mina.
Mas, numa tarde bonita, a Sandrinha apareceu no portão ( de onde, todos os dias, ela acenava para mim) e me chamou.
" Simone, minha mãe foi ali. Vem pegar os livros que você quiser"

Entrar na casa da Sandrinha foi uma aventura. Mistura de duas sensações: a adrenalina que deve dominar o corpo de ladrões de banco,em plena operação e o medo de ser surpreendido que deve sentir uma pessoa que decidisse trepar na cama da mãe enquanto ela tivesse ido à padaria comprar fermento.
Eram três pilhas de livros, todas mais ou menos da altura que eu tinha na época, ou seja, um metro e alguma coisa.
Impagável sentimento de felicidade!

Os livros III

Eita década de 80! Volto a ela mais uma vez.
Estava em casa, voando em espaçonave de madeira recentemente inventada ou conversando com gatos?
A vizinha chamou. Tinha jogado um saco de livros no terreno baldio em frente. Disse que só depois havia se lembrado de que eu gostava de ler e de que os livros poderiam me agradar.
Saí em disparada ( em queda livre diretamente do planeta explorado ou deixei um gato , coitado, falando sozinho?)

Na vida real, eu era um pássaro sujo, esfarrapado. Sempre andava descalça.( Não tinha dinheiro para comprar chinelos...)
Foram anjos que sempre protegeram meus pés dos cacos de vidro daquele lote vago, transbordante de entulhos? Lá era minha segunda casa.
Os livros da vizinha estavam lá. Era um saco pesado. Tive de levar pra casa em três remessas.
Eu era, quase literalmente, um pinto no lixo.

Às vezes dói lembrar de que, durante grande parte da vida, foi dos restos dos outros que me nutri.
Até dos restos de livros, meu deus!
Até dos restos de livros...

segunda-feira, julho 22, 2013

Sexo,morte e cores

Bebi um litro de cerveja.
Tirei uma foto da lua.
Em seguida, música, no volume máximo; canções de há muitos anos atrás.
Na sala escura, coisas girando e livros, à esquerda, me espreitando da estante. Livros ao redor, desde sempre. Presentes mágicos de não sei quem para mim.
Me sentia absurdamente feliz.
Seria a nova pintura da casa?
Três coisas em que acredito: em sexo, na morte e nas cores.
Amém.

quinta-feira, junho 06, 2013

O silêncio que antecipa a morte

Pouca gente sabe, mas o Tarkovsky é meu cineasta favorito.
Soube de sua existência há uns bons anos, quando alguém iniciou a exibição de Solaris na sala da casa de um amigo, onde eu me encontrava. Não é preciso dizer que a lentidão da narrativa provocou protestos e o filme foi rapidamente substituído por um blockbuster, bem mais ao gosto dos adolescentes que éramos.
Anos mais tarde ouvi de novo seu nome. Foi numa loja de DVDs: Raquel me deixou intrigada ao me contar que o primeiro e o último longa deste gênio terminavam praticamente do mesmo jeito, com cenas finais muito parecidas, como se um círculo estivesse sendo fechado. (Os filmes são A infância de Ivan, de 1962 e O sacrifício, de 1986, respectivamente).
Mas o que mostram ambas as cenas finais? Também fiquei curiosa e foi por esse motivo que comecei a assistir aos filmes dele. E quis começar pelo começo, seguindo a ordem cronológica das filmagens. Então minha iniciação no assombroso mundo de Tarkovsky não se deu com o primeiro longa, mas com um média metragem que veio a público antes: falo de O rolo compressor e o violinista, de 1960. Só assisti ao belíssimo A infância de Ivan um pouco mais tarde, e pude assim matar minha curiosidade: a cena final, à qual me referi acima, mostrava uma criança (Ivan, o protagonista), deitado sob uma árvore.
Mas não se enganem: não saí desesperada em busca do último filme para me certificar se nele a cena final do primeiro se repetia de verdade na imagem derradeira. Eu estava seduzida, e queria assistir a todos os outros; meu desejo tinha mudado de rumo.
Tive de adiar o Andrei Rublev,( que seria o próximo da lista) por dois motivos: a péssima qualidade da imagem do arquivo que baixei na internet e as mais de três horas de duração da película, às quais, infelizmente, naquele momento, minha rotina movimentada não me permitiria me dedicar. Mas segui vendo Solaris (1972), O espelho (1974), Stalker(1979), Nostalgia (1983) para, enfim, chegar ao último, O sacrifício e ver o tal menino, debaixo da tal árvore, na tal cena final, como no longa de estreia. Mas essa curiosidade boba, que a principio tinha me provocado, acabou perdendo todo o sentido depois que entrei efetivamente na gravidade do universo úmido de Tarkovsky.
II
Tarkovsky me assombra. Como poucos conseguem fazer. Como um Pasolini o faz, por exemplo, em Teorema (filme que nos desnuda em plena aridez desértica e nos fere com um réquiem de Mozart, imprimindo em nossos corpos as absurdas dimensões da ausência); ou como um Bergman, em Sonata de Outono, que nos sufoca com o jorro de tanta mágoa desentranhada. (A última vez que saí do cinema tonta de perplexidade foi há mais de um ano, quando assisti ao inquietante Cavalo de Turim, de Béla Tarr).
Estava com saudades desse assombro.

III
Então chegou o feriado de Corpus Christi, um dia bem frio. Embora eu tivesse um monte de coisas para fazer, resolvi deixar tudo de lado; decidi me enroscar em cobertores felpudos e passar toda uma tarde assistindo ao Tarkovsky que me faltava: Andrei Rublev, o filme de mais de três horas, aquele que em outra ocasião eu tinha deixado para depois.
IV
Andrei Rublev foi um monge russo de verdade. Viveu na Idade Média. Pintava quadros. Era talentoso.
Nada mais banal.
O que me encanta no Tarkovsky é a sua genialidade alquímica, capaz de transformar o que serviria apenas como material para a comportada biografia de um homem religioso em uma profunda reflexão sobre a dúvida: a perda da fé nos preceitos cristãos, a desconfiança em relação ao caráter representativo da arte e da linguagem e a descrença na organização social.
Ao longo das mais de três horas de Andrei Rublev assistimos ao dilaceramento do herói: do lado de fora do mosteiro onde passou grande parte da vida, ele se encontra com uma realidade muito diferente da experimentada até então.
 Rublev viaja à Moscou, com o objetivo de atender ao convite que recebera, para pintar o interior de uma igreja, onde deveria representar as cenas do Juízo Final. O choque com a realidade é marcado por decepções, que já se iniciam em sua trajetória. Logo no início da viagem, Rublev e seus companheiros de trabalho presenciam o assassinato de um grupo de pagãos, por cavaleiros da fé. As atrocidades são, portanto, cometidas em nome de Deus, nome sagrado que Rublev, até então, acreditava ser um sinônimo para amor.
Já em Moscou, o monge tem sua primeira crise criativa. Começa a duvidar do caráter representativo da arte. Superada a angústia, pinta. No entanto,  em seguida, vê tudo o que criou sendo destruído pela violência da barbárie levada pelos incendiários tártaros, que invadem a cidade, estuprando mulheres e matando homens e animais.
Nas cenas de invasão, o grau de absurdo da crueldade e da violência é levado ao extremo quando as vitimas são animais: impossível não demonstrar repulsa, por exemplo, na sequência em que um cavalo é ferido e cai de uma estrutura de madeira, quebrando as pernas. Assistimos à sua insistência, às suas vãs tentativas de erguer-se e ficamos pasmos quando um figurante atravessa friamente o peito do animal paralítico com uma lança. (O olho revirado do cavalo morto é, para mim, a imagem do absurdo). E há também a terrível cena em que alguém ateia fogo em uma vaca viva.
Foi com esse mundo de violência que Rublev defrontou-se (mundo que contradizia a Palavra de Deus registrada nos livros e tantas vezes proferida nos rituais litúrgicos do mosteiro...). O herói atinge o ápice da absurdidade quando, para proteger uma mulher meio idiota (a Muda Santa) de um estupro, mata seu agressor.
Sentindo culpa, transtornado e decepcionado, o protagonista experimenta o fel do desespero. Seu olhar escurece e passar a ser sempre uma pergunta pelo Sentido. Sem obter respostas, ele decide interromper seu fluxo criativo: para de pintar por não acreditar mais que a arte possa ressignificar o que quer que seja; enfim,o caos não pode ser ordenado. Além disso, ele se cala. Seu voto de silêncio é resultado da perda da fé no poder da palavra como elemento de comunicação entre os homens.
Estamos diante de um herói em crise. Então avançamos para a narrativa do ato final, denominado “O sineiro” que me deixou toda arrepiada. (O filme é dividido em atos, como uma peça teatral).
Eis um resumo: Rublev está silencioso, há dezesseis anos. Então, os cavaleiros do príncipe saem à procura de alguém que domine as técnicas da feitura de sinos. No entanto, todos os especialistas estavam mortos. No povoado vizinho só foi encontrado Boriska,  filho de um dos sineiros falecidos. O rapaz afirma conhecer o segredo para a modelagem de bons sinos e acaba convencendo os cavaleiros a levá-lo com eles. O rapaz havia mentido: não sabia de segredo nenhum. E o pior: Se ele não tivesse sucesso na empreitada, sua cabeça seria cortada.
Boriska representa o gênio criativo, autodidata, impetuoso, cujo coração enfurecido transborda confiança em si mesmo. Boriska acredita na arte que faz. Mesmo não conhecendo o manual, o “segredo” dos sineiros, ele conclui o trabalho  que lhe haviam incumbido. Seu sino badala e sua cabeça se mantém presa ao pescoço.
A força criativa de Boriska comove Rublev, que tudo observa. E após tantos anos de silêncio, o monge fala. Ambos se aproximam, se adotam e seguem juntos, Rublev pintando e Boriska fazendo sinos...
Eu não chamaria isso de final feliz, porque o processo todo é tão sofrido, que nos últimos minutos do filme os personagens ( Rublev e Boriska) têm o aspecto de soldados famintos que passaram meses em trincheiras. Mas há uma positividade que me agrada. Há uma revolta contra o sem sentido do mundo, contra os absurdos que nos deixam cabisbaixos, desesperançosos. Há uma força contrária à resignação.
E há, sobretudo, as vozes da arte se opondo e se sobrepondo ao silêncio que antecipa a morte.
Pouca gente sabe, mas o Tarkovsky é meu cineasta favorito.