Bebi um litro de cerveja.
Tirei uma foto da lua.
Em seguida, música, no volume máximo; canções de há muitos anos atrás.
Na sala escura, coisas girando e livros, à esquerda, me espreitando da estante. Livros ao redor, desde sempre. Presentes mágicos de não sei quem para mim.
Me sentia absurdamente feliz.
Seria a nova pintura da casa?
Três coisas em que acredito: em sexo, na morte e nas cores.
Amém.
segunda-feira, julho 22, 2013
quinta-feira, junho 06, 2013
O silêncio que antecipa a morte
Pouca gente sabe, mas o Tarkovsky é meu cineasta favorito.
Soube de sua
existência há uns bons anos, quando alguém iniciou a exibição de Solaris na sala da casa de um amigo,
onde eu me encontrava. Não é preciso dizer que a lentidão da narrativa provocou
protestos e o filme foi rapidamente substituído por um blockbuster, bem mais ao gosto dos adolescentes que éramos.
Anos mais tarde
ouvi de novo seu nome. Foi numa loja de DVDs: Raquel me deixou intrigada ao me
contar que o primeiro e o último longa deste gênio terminavam praticamente do
mesmo jeito, com cenas finais muito parecidas, como se um círculo estivesse
sendo fechado. (Os filmes são A infância
de Ivan, de 1962 e O sacrifício, de 1986, respectivamente).
Mas o que mostram ambas as cenas finais? Também fiquei curiosa e foi por esse motivo que comecei
a assistir aos filmes dele. E quis começar pelo começo, seguindo a ordem
cronológica das filmagens. Então minha iniciação no assombroso mundo de
Tarkovsky não se deu com o primeiro longa, mas com um média metragem que veio a
público antes: falo de O rolo compressor
e o violinista, de 1960. Só assisti ao belíssimo A infância de Ivan um pouco mais tarde, e pude assim matar minha curiosidade: a cena final, à qual me
referi acima, mostrava uma criança (Ivan, o protagonista), deitado sob uma
árvore.
Mas não se
enganem: não saí desesperada em busca do último filme para me certificar se
nele a cena final do primeiro se repetia de verdade na imagem derradeira. Eu
estava seduzida, e queria assistir a todos os outros; meu desejo tinha mudado
de rumo.
Tive de adiar o Andrei Rublev,( que seria o próximo da
lista) por dois motivos: a péssima qualidade da imagem do arquivo que baixei na
internet e as mais de três horas de duração da película, às quais,
infelizmente, naquele momento, minha rotina movimentada não me permitiria me
dedicar. Mas segui vendo Solaris (1972), O
espelho (1974), Stalker(1979), Nostalgia (1983) para, enfim, chegar ao
último, O sacrifício e ver o tal
menino, debaixo da tal árvore, na tal cena final, como no longa de estreia. Mas
essa curiosidade boba, que a principio tinha me provocado, acabou perdendo todo
o sentido depois que entrei efetivamente na gravidade do universo úmido de Tarkovsky.
II
Tarkovsky me assombra. Como
poucos conseguem fazer. Como um Pasolini o faz, por exemplo, em Teorema (filme que nos desnuda em plena
aridez desértica e nos fere com um réquiem de Mozart, imprimindo em nossos
corpos as absurdas dimensões da ausência); ou como um Bergman, em Sonata de Outono, que nos sufoca com
o jorro de tanta mágoa desentranhada. (A última vez que saí do cinema tonta de
perplexidade foi há mais de um ano, quando assisti ao inquietante Cavalo de Turim, de Béla Tarr).
Estava com saudades desse
assombro.
III
Então chegou o feriado de Corpus Christi, um dia bem frio. Embora
eu tivesse um monte de coisas para fazer, resolvi deixar tudo de lado; decidi
me enroscar em cobertores felpudos e passar toda uma tarde assistindo ao
Tarkovsky que me faltava: Andrei Rublev,
o filme de mais de três horas, aquele que em outra ocasião eu tinha deixado para
depois.
IV
Andrei Rublev foi um monge russo
de verdade. Viveu na Idade Média. Pintava quadros. Era talentoso.
Nada mais banal.
O que me encanta no Tarkovsky é a
sua genialidade alquímica, capaz de transformar o que serviria apenas como
material para a comportada biografia de um homem religioso em uma profunda
reflexão sobre a dúvida: a perda da fé nos preceitos cristãos, a desconfiança
em relação ao caráter representativo da arte e da linguagem e a descrença na
organização social.
Ao longo das mais de três horas
de Andrei Rublev assistimos ao
dilaceramento do herói: do lado de fora do mosteiro onde passou grande parte da
vida, ele se encontra com uma realidade muito diferente da experimentada até
então.
Rublev viaja à Moscou, com o objetivo de
atender ao convite que recebera, para pintar o interior de uma igreja, onde
deveria representar as cenas do Juízo Final. O choque com a realidade é marcado
por decepções, que já se iniciam em sua trajetória. Logo no início da viagem,
Rublev e seus companheiros de trabalho presenciam o assassinato de um grupo de
pagãos, por cavaleiros da fé. As atrocidades são, portanto, cometidas em nome
de Deus, nome sagrado que Rublev, até então, acreditava ser um sinônimo para
amor.
Já em Moscou, o monge tem sua primeira
crise criativa. Começa a duvidar do caráter representativo da arte. Superada a
angústia, pinta. No entanto, em seguida, vê tudo o que criou sendo destruído pela violência da barbárie levada pelos
incendiários tártaros, que invadem a cidade, estuprando mulheres e matando
homens e animais.
Nas cenas de invasão, o grau de
absurdo da crueldade e da violência é levado ao extremo quando as vitimas são
animais: impossível não demonstrar repulsa, por exemplo, na sequência em que um
cavalo é ferido e cai de uma estrutura de madeira, quebrando as pernas.
Assistimos à sua insistência, às suas vãs tentativas de erguer-se e ficamos
pasmos quando um figurante atravessa friamente o peito do animal paralítico com
uma lança. (O olho revirado do cavalo morto é, para mim, a imagem do absurdo).
E há também a terrível cena em que alguém ateia fogo em uma vaca viva.
Foi com esse mundo de violência
que Rublev defrontou-se (mundo que contradizia a Palavra de Deus registrada nos
livros e tantas vezes proferida nos rituais litúrgicos do mosteiro...). O herói
atinge o ápice da absurdidade quando, para proteger uma mulher meio idiota (a
Muda Santa) de um estupro, mata seu agressor.
Sentindo culpa, transtornado e decepcionado,
o protagonista experimenta o fel do desespero. Seu olhar escurece e passar a
ser sempre uma pergunta pelo Sentido. Sem obter respostas, ele decide
interromper seu fluxo criativo: para de pintar por não acreditar mais que a
arte possa ressignificar o que quer que seja; enfim,o caos não pode ser ordenado.
Além disso, ele se cala. Seu voto de silêncio é resultado da
perda da fé no poder da palavra como elemento de comunicação entre os
homens.
Estamos diante de um herói em
crise. Então avançamos para a narrativa do ato final, denominado “O sineiro”
que me deixou toda arrepiada. (O filme é dividido em atos, como uma peça
teatral).
Eis um resumo: Rublev está
silencioso, há dezesseis anos. Então, os cavaleiros do príncipe saem à procura
de alguém que domine as técnicas da feitura de sinos. No entanto, todos os
especialistas estavam mortos. No povoado vizinho só foi encontrado Boriska, filho de um dos sineiros falecidos. O rapaz
afirma conhecer o segredo para a modelagem de bons sinos e acaba convencendo os
cavaleiros a levá-lo com eles. O rapaz havia mentido: não sabia de segredo
nenhum. E o pior: Se ele não tivesse sucesso na empreitada, sua cabeça seria
cortada.
Boriska representa o gênio
criativo, autodidata, impetuoso, cujo coração enfurecido transborda confiança
em si mesmo. Boriska acredita na arte que faz. Mesmo não conhecendo o manual, o
“segredo” dos sineiros, ele conclui o trabalho que lhe haviam incumbido. Seu sino badala e sua
cabeça se mantém presa ao pescoço.
A força criativa de Boriska
comove Rublev, que tudo observa. E após tantos anos de silêncio, o monge fala.
Ambos se aproximam, se adotam e seguem juntos, Rublev pintando e Boriska
fazendo sinos...
Eu não chamaria isso de final
feliz, porque o processo todo é tão sofrido, que nos últimos minutos do filme
os personagens ( Rublev e Boriska) têm o aspecto de soldados famintos que
passaram meses em trincheiras. Mas há uma positividade que me agrada. Há uma
revolta contra o sem sentido do mundo, contra os absurdos que nos deixam
cabisbaixos, desesperançosos. Há uma força contrária à resignação.
E há, sobretudo, as vozes da arte
se opondo e se sobrepondo ao silêncio que antecipa a morte.
Pouca gente sabe, mas o Tarkovsky é meu cineasta favorito.
sexta-feira, maio 24, 2013
A Rua dos Eucaliptos
Na Rua dos Eucaliptos
existia um lago
onde nosso Bêbado Pai pescava
peixes desnutridos
Nosso Bêbado Pai
escorregando no capim molhado, certa vez...
Nosso Bêbado Pai rolando rumo ao lago lamacento.
E nossos olhos desbotados de pavor.
Mas ele era homem de muitas espertezas.
Driblava quedas.
Se safou de um belo banho
e ainda riu de nosso desespero.
Na Rua dos Eucaliptos
morreu nosso primeiro gato
quando atravessava, distraído, a poeira da
pista acidentada.
E agora que crescemos
todos estão mortos,
nosso gato
nosso pai
e tantos outros.
Um resto de inocência
agoniza
sob a pesada roda
de um caminhão.
domingo, maio 05, 2013
Variadas categorias de folhas jovens, verdes ainda, precocemente fenecidas
Descendo a rua Espírito Santo ( era sábado à tarde), eu me sentia frágil e só. A tosse chata, resto da gripe da semana passada, tornava rouco o meu cansaço. Parada no sinal vermelho, eu respirei fundo, como quem desiste.
Os outonos me deixam sensível, eu sei. ( Se fosse verão, eu seria fúria, bola de fogo incendiando rastros de pólvora em meio ao tráfego. Se fosse verão eu seria forte, se fosse verão, eu seria estrondo).
Eu me sentia frágil e só e o Dave Matthews, cuja voz peculiar estava, naquele segundo,sendo atravessada por melancólica melodia de um saxofone tão Dave Matthews, amolecia os ossos da caixa de ossos que guarda meu coração.
Era sábado à tarde e eu me sentia frágil e só. E meu coração aninhado em morada umedecida por música.
Não obstante o sol de duas horas da tarde, havia alguma coisa quase gelada nas partículas que deviam flutuar lá fora, junto com o vento. E junto com o vento flutuavam muitas folhas velhas e também variadas categorias de folhas jovens, verdes ainda , precocemente fenecidas.
Eu me sentia frágil e só e tossia o resto da gripe da semana passada.
Eu descia a rua Espírito Santo tão líquida por dentro, e as partículas quase geladas e o sol das duas da tarde...
E as variadas categorias de folhas jovens, verdes ainda, precocemente fenecidas.
Tudo tão bonito e triste ao mesmo tempo.
E meu coração bradou, sufocado por melodias de sax, exigências absurdas como , por exemplo, viver para sempre.
Eu estava frágil e só e com tosse. Um cansaço rouco retumbava em meu peito.
domingo, abril 28, 2013
Sobre tardes de domingo e portas fechadas
Houve um tempo em que os domingos me deprimiam. Isso foi quando eu era mais jovem e vida para mim era equivalente a agitação. Domingo era morto demais, dia estacionado no tempo, sem gente, sem som, sem sentido.
Atualmente costumo passar os domingos dentro de casa descansando, porque trabalho muito durante a semana. Domingo virou meu refúgio, minha fuga do mundo. Quando muito, vou até a esquina pegar o almoço. Tarde de domingo passo dentro de livros, dentro de filmes, ou dentro de sonhos, entre um cochilo e outro.
Mas hoje saí. De tarde. O céu estava muito bonito, azul sem nuvens e havia aquela luz de outono que sempre me provocou saudades de coisas que não existem, saudades de uma beleza sem nome. Não havia trânsito, nem de pessoas, nem de veículos, como geralmente acontece nos domingos. E de dentro do meu carro eu percebia a ausência do som e de agitação, e sentia uma paz estranha que, não sei porque, me transmitiam todas aquelas portas fechadas.
As portas fechadas e a calma esquisita que se misturava à atmosfera azul e fria sob a luz outonal.
Antes, quando eu era mais jovem e era domingo e tudo estava parado, a falta de sentido impiedosamente me esbofeteava o rosto.
Hoje, a tarde de domingo com suas portas fechadas, por segundos, fez com que eu me sentisse plena.
Proust e o amor; eu e a solidão
Marcel Proust escreveu que o amor é uma doença incurável. Concordo, em partes. Durante a vida somos acometidos por ele, que só muda de vetor:As pessoas por quem nos apaixonamos são esses vetores,que fazem a doença ( que tem intensidades variadas, como a influenza) despertar em nós.
Mas acredito que contra o amor vamos ficando também imunizados, como acontece com algumas doenças virais. Quanto mais forte é uma crise, mais a gente poderá estar protegido na próxima. Para sobreviver àquelas dores todas, vamos criando resistência e fabricando algumas grades e cercas eletrificadas em torno de nós.
Mas solidão não tem jeito. Solidão é doença mais grave que o amor, sem cura, sem a esperança auto-imune. Ela começa ainda na infância,quando tardes de inverno nos surpreendem brincando sozinhos no quintal de casa, entre cães doentes e gatos desnutridos. Quando há as ausências do pai( que foi embora) e da mãe que , de cansaço, desistiu.
E depois, vai se alastrando, percorrendo as veias, misturando-se ao sangue e toma conta da pele inteira. E o coração, despetalado, se contorce todo em ferida sempre viva e aberta.
Depois tudo escurece: o sangue, as veias, a pele... E, como consequência, os olhos ficam cheios de sombra e úmidos, sempre, sempre...
Sim, há defesas para o amor, mas não para a solidão. Ela sim, é doença incurável.
terça-feira, abril 09, 2013
"Killing an Arab"
I
Não, eu não era adolescente quando ouvi The Cure pela primeira vez. Acho que tinha uns 8 anos, lá pela segunda metade dos idos anos 1980 ou início dos anos 1990. E devo ter ouvido no rádio de algum vizinho, porque em casa, o único equipamento de tecnologia que havia era uma televisão com imagem em preto-e branco. Provavelmente devo ter ouvido Friday i'm in love e Boys don't cry, canções que, na época, tinham conquistado as massas, revelando uma faceta menos depressiva da banda, em relação àquela de álbuns anteriores, dos quais Pornography é um excelente exemplo.
Mas não se enganem. Não passei o resto de minha infância e minha adolescência toda ouvindo The Cure , chorando e batendo a cabeça na parede. Só chorando e batendo a cabeça na parede porque, confesso, naqueles tempos, o Cure me passou despercebido. Creio que porque eu era ainda uma criança e ainda não tinha organizado minha angústia em linguagem.
Voltei a ouvir o Cure bem depois, lá pelos 18 anos, época em que eu já gostava absurdamente dos livros e me sentia realizada ao pedalar para longe de casa, sozinha, principalmente quando era domingo, fim de tarde e outono. Nessa altura , meu salgado muro de lamentações já estava bem encharcado: enfim, eu já estava, há 18 anos, carregando um buraco no peito. Não é fácil. Para ninguém. Coisas da vida de quase todo mundo. E eu tinha lido Camus, que havia incutido em meu coração uma tristeza trágica e, ao mesmo tempo, uma vontade insuportável de beleza.
Nesse contexto, apareceu um sujeito completamente maluco, que conheci no Segundo Grau. O Cara me falou do Cure. E me fez ouvir o Cure. E me contou que a canção Killing an arab era uma referência ao Estrangeiro, do Camus, livro que era uma das formas como minha angústia estava organizada em linguagem naqueles idos.
Não parei mais de ouvir.
II
The last day of summer
Nothing I am
Nothing I dream
Nothing is new
Nothing I think or believe in or say
Nothing is true
It used to be so easy
I never even tried
Yeah it used to be so easy...
But the last day of summer
Never felt so cold
The last day of summer
Never felt so old
Never felt so...
Como palavras tão tristes podem agradar alguém?
Um dos integrantes do Joy Division , o Bernard Summer, define assim o "Rock Gótico": "Uma atmosfera maléfica, mas você se sente à vontade dentro dela"
É isso. É como assistir a um filme expressionista.
É como sofrer com Proust a ausência de Albertine e, a cada página, constatar que o tom elegíaco de sua confissão é o mesmo que rege minha sinfonia de perdas. E meu desejo de Impossível, como em "To Wish Impossible Things"
remember how it used to be
when the sun would fill up the sky
remember how we used to feel
those days would never end
those days would never end
remember how it used to be
when the stars would fill the sky
remember how we used to dream
those nights would never end
those nights would never end
it was the sweetness of your skin
it was the hope of all we might have been
that fills me with the hope to wish
impossible things
but now the sun shines cold
and all the sky is grey
the stars are dimmed by clouds and tears
and all i wish
is gone away
all i wish
is gone away
all i wish
is gone away
when the sun would fill up the sky
remember how we used to feel
those days would never end
those days would never end
remember how it used to be
when the stars would fill the sky
remember how we used to dream
those nights would never end
those nights would never end
it was the sweetness of your skin
it was the hope of all we might have been
that fills me with the hope to wish
impossible things
but now the sun shines cold
and all the sky is grey
the stars are dimmed by clouds and tears
and all i wish
is gone away
all i wish
is gone away
all i wish
is gone away
II
Fui ao Show do Cure no sábado, 6 de abril, na Arena Anhembi em São Paulo. O espetáculo durou três horas e vinte minutos e foi maravilhoso. Robert Smith está envelhecido, mas seus cabelos grisalhos e ainda mais desgrenhados e a boca enrugada pintada de batom provocaram em mim uma simpatia extra:se não fossem as pálpebras maquiadas em preto ele seria, hoje, a cara da minha mãe!
40 músicas ao todo, desde sucessos radiofônicos mais comerciais, como Friday i'm in love, do álbum Wish, a canções de sua fase mais sombria, com as presentes em Pornography foram entoadas como hinos religiosos, por uma multidão de mais de 30 mil pessoas. Um delírio.
A princípio o show aconteceria no estádio do Morumbi, mas foi transferido para a Arena. Me lembro que na ocasião da alteração, fiquei meio desesperada porque precisava cancelar a reserva do hotel que antes me atenderia e procurar por outro, mais próximo do local do evento. Encontrei um de onde daria para ver o show da janela. Quando hesitava se reservava logo ou não um quarto , um querido colega de trabalho me disse: " Reserva logo, porque senão os outros adolescentes vão todos pra lá e vão esgotar as vagas e você vai ficar sem".
O colega estava me sacaneando, obviamente, pois não sou adolescente. Já até passei dos trinta!
Mas...
Eu queria mesmo que o The Cure fosse uma banda que adolescentes de hoje escutassem. Queria que esses meninos e meninas pudessem experimentar essa beleza toda que passa a existir quando letras tão líricas se harmonizam com melodias ora introspectivas e melancólicas, ora agressivas, gritando o ódio que se sente por um mundo onde o amor parece estar morrendo. Queria que eles aprendessem a transformar experiências em linguagem.
Imaginem quão belo seria ver uma multidão de crianças evocando, num refrão, uma das cenas mais icônicas da literatura, que é aquela em que, num gesto absurdo, sucumbindo ao sem sentido do mundo, de pé diante de um homem na praia, Meursault, ofuscado pelo sol, aperta o gatilho, em O Estrangeiro, de Camus?
To Wish impossible things.
quarta-feira, março 20, 2013
Eu sei
Eu sei
ousei flertar com claridades
mas sou filha do breu
e agora me recolho
barroca e contorcida
(Oh, minhas frágeis asas de cera
e um Verão inteiro em minha cama, ardendo)
Não quero a Lua lasciva
inchada de beleza e horror
( ah, essa adorável música de loucos....)
Não quero a saudade do mar
Não quero misérias de amor
(Oh, minhas frágeis asas de cera
e um Verão inteiro em minha cama, ardendo)
Em meu desejo, deusas, despudoradas, desfilam.
ousei flertar com claridades
mas sou filha do breu
e agora me recolho
barroca e contorcida
(Oh, minhas frágeis asas de cera
e um Verão inteiro em minha cama, ardendo)
Não quero a Lua lasciva
inchada de beleza e horror
( ah, essa adorável música de loucos....)
Não quero a saudade do mar
Não quero misérias de amor
(Oh, minhas frágeis asas de cera
e um Verão inteiro em minha cama, ardendo)
Em meu desejo, deusas, despudoradas, desfilam.
quinta-feira, janeiro 17, 2013
Letícia
Letícia só tem dois anos e me pergunto: como pode caber tanto sofrimento numa pessoa tão pequenina?
Ela estava sentada ao redor de uma mesa de biblioteca, ouvindo histórias. Os olhos úmidos e a voz rouca denunciavam o choro de uma manhã inteira.
Não de muito longe, eu observava seu nervosismo, sua tensão e a inquietude em seus olhos.
Letícia, pequena, inquieta e triste.
Então uma caixa grande, com lápis de todas as cores, foi colocada sobre a mesa.
Mas Letícia não quis saber deles. Preferiu um vidro de cola, que foi aberto sem querer por suas mãos impacientes, o que fez com que o conteúdo se espalhasse por todos os lados.
A garota lidou com o acontecimento como os nervosos lidam com as tragédias: inflou pulmões, vibrou cordas vocais e explodiu num choro gritado e contínuo, enquanto apertava os olhos entre as pálpebras encharcadas e ficava vermelha como uma pimenta brava.
A avó até que tentou fazer a menina parar de chorar, mas em vão. Não, as flores lá de fora não eram belas o bastante para compensar a tristeza de Letícia, e nem era suave o canto dos pássaros que estavam separados de nós por um pequena distância, reforçada pelo vidro das janelas.
Letícia, tão inconsolável. Por quê?
Meu coração se encheu de ternura. Me aproximei um pouco e experimentei lhe oferecer um lápis azul. Ela não quis.
Então resolvi fazer cena: quebrei a ponta do lápis e dei início ao meu drama:
_ Meu Deus! A ponta do lápis quebrou! E agora? Como vou colorir meu desenho? E agora, Letícia?
Ela de repente se calou e seu olhar, de forma surpreendente, acolheu meu apelo, como se ela entendesse a dor que eu fingia.
_ E agora, Letícia? E agora?
Ela chegou muito perto. Olhava com gravidade, ora para mim, ora para meu lápis ferido.
Um menino, que estava por ali acompanhando a performance, disse que tinha a solução para meu problema. Um apontador!
Continuei fingindo, dessa vez exultante:
- Um apontador, Letícia! Ele tem um apontador! A gente vai poder fazer a ponta nascer outra vez!
Dizendo isso, comecei a apontar o lápis, me deliciando com a força de encantamento que nem eu mesma sabia que tinha. Letícia não desgrudava os olhos dos movimentos de minhas mãos, como que enfeitiçada.
- Letícia, olha! A ponta nasceu de novo! Agora posso colorir meu desenho! Ela estendeu as mãos. Queria pegar no lápis, queria tocar no milagre.
Então ela voltou para a mesa e fez um desenho.
Silenciosa, ela era toda rouquidão.
2
Quando eu estiver triste, triste de não ter mais jeito;quando eu estiver triste e sem Parságada para onde ir; quando meus potes escaparem de minhas mãos e meus sonhos se sujarem de terra; quando eu estiver chorando, quando eu estiver gritando, eu desejo que venha alguém, mesmo que minta, eu desejo que venha alguém e faça nascer outra vez a ponta azul do meu lápis de colorir.
Ela estava sentada ao redor de uma mesa de biblioteca, ouvindo histórias. Os olhos úmidos e a voz rouca denunciavam o choro de uma manhã inteira.
Não de muito longe, eu observava seu nervosismo, sua tensão e a inquietude em seus olhos.
Letícia, pequena, inquieta e triste.
Então uma caixa grande, com lápis de todas as cores, foi colocada sobre a mesa.
Mas Letícia não quis saber deles. Preferiu um vidro de cola, que foi aberto sem querer por suas mãos impacientes, o que fez com que o conteúdo se espalhasse por todos os lados.
A garota lidou com o acontecimento como os nervosos lidam com as tragédias: inflou pulmões, vibrou cordas vocais e explodiu num choro gritado e contínuo, enquanto apertava os olhos entre as pálpebras encharcadas e ficava vermelha como uma pimenta brava.
A avó até que tentou fazer a menina parar de chorar, mas em vão. Não, as flores lá de fora não eram belas o bastante para compensar a tristeza de Letícia, e nem era suave o canto dos pássaros que estavam separados de nós por um pequena distância, reforçada pelo vidro das janelas.
Letícia, tão inconsolável. Por quê?
Meu coração se encheu de ternura. Me aproximei um pouco e experimentei lhe oferecer um lápis azul. Ela não quis.
Então resolvi fazer cena: quebrei a ponta do lápis e dei início ao meu drama:
_ Meu Deus! A ponta do lápis quebrou! E agora? Como vou colorir meu desenho? E agora, Letícia?
Ela de repente se calou e seu olhar, de forma surpreendente, acolheu meu apelo, como se ela entendesse a dor que eu fingia.
_ E agora, Letícia? E agora?
Ela chegou muito perto. Olhava com gravidade, ora para mim, ora para meu lápis ferido.
Um menino, que estava por ali acompanhando a performance, disse que tinha a solução para meu problema. Um apontador!
Continuei fingindo, dessa vez exultante:
- Um apontador, Letícia! Ele tem um apontador! A gente vai poder fazer a ponta nascer outra vez!
Dizendo isso, comecei a apontar o lápis, me deliciando com a força de encantamento que nem eu mesma sabia que tinha. Letícia não desgrudava os olhos dos movimentos de minhas mãos, como que enfeitiçada.
- Letícia, olha! A ponta nasceu de novo! Agora posso colorir meu desenho! Ela estendeu as mãos. Queria pegar no lápis, queria tocar no milagre.
Então ela voltou para a mesa e fez um desenho.
Silenciosa, ela era toda rouquidão.
2
Quando eu estiver triste, triste de não ter mais jeito;quando eu estiver triste e sem Parságada para onde ir; quando meus potes escaparem de minhas mãos e meus sonhos se sujarem de terra; quando eu estiver chorando, quando eu estiver gritando, eu desejo que venha alguém, mesmo que minta, eu desejo que venha alguém e faça nascer outra vez a ponta azul do meu lápis de colorir.
terça-feira, janeiro 01, 2013
Diários e fins de ano
Quando eu era adolescente gostava de anotar minha vida em diários. Guardo comigo muitos deles, num saco plástico, no fundo do armário.
E era regra: na última página , a do dia 31 de dezembro, eu registrava uma espécie de balanço anual, com retrospectivas e avaliações.
Tentei manter tal hábito na vida adulta, mas fracassei. Ou melhor, continuo fracassando,pois ainda insisto em comprar , a cada início de ano, uma nova agenda, que logo abandono.
Minha agenda-diário do ano que acabou de acabar só foi rabiscada até o mês de maio. Depois disso as anotações que há nela se resumem a lembretes de reuniões chatas de trabalho e de tarefas mecânicas.
Mas vamos ao que ficou na memória, não necessariamente em ordem cronológica, com ou sem anotações:
Terminei o Proust ( que ainda reverbera dentro do meu corpo e acho que isso vai ficar acontecendo até o meu último dia de vida nessa bosta de mundo que de vez em quando é tão bonito que chega a doer).
Reclamei até: de problemas conjugais dos mais variados; de menstruação, de cólicas e de outras dores do feminino; do trânsito; da falta de tempo pra ser feliz, por causa do trabalho.
Assisti a filmes, mas como não anotei, não me lembro de todos. Nada que me fizesse ficar chapada. Vi muitas coisas dos primórdios do cinema: Lumières, Meliès, Griffith. Vi Cabíria, O grande roubo do trem, essas coisas. Vi também uma dezena de filmes do Hitchcock e descobri que é muito mais divertido procurá-lo em seus filmes do que procurar o Wally no meio da multidão desenhada naqueles livros infantis. E por falar em Wally, vi Medianeras e achei uma fofura.( Quando fui à Argentina, entrei naquele planetário e foi lindo).
Em maio fui ao Chile. Visitei Santiago, subi cerros, caminhei pela
Alameda, comi deliciosamente frutos do mar no mercado central da cidade. Fui à Cordilheira dos Andes, fiz guerra de neve,tirei fotos lindíssimas, dormi num quarto com calefator, fui à Viña del Mar, onde mergulhei meus pés, com tênis e tudo, no gelado Pacífico e caminhei com Raquel por praias maravilhosas. No mesmo dia partimos para a exótica Valparaíso, a cidade dos curiosos astensores, que levam para os cerros em profusão. Fomos de ônibus a uma das casas de Neruda, na parte alta da cidade, de onde se vê o porto lá embaixo e barcos indo embora. Na estação de ônibus, quando esperávamos para retornar a Santiago, Raquel sorriu para mim, enquanto tomava um café-expresso. Fazia frio. E o sorriso dela me fez sonhar com o quarto, com a noite, com os cobertores e com o corpo dela dando sentido à existência do meu.
A viagem acabou. E com ela, as férias. E ao retornar fui surpreendida pela ameaça da perda, quando ao visitar minha mãe encontrei-a em meio a uma crise respiratória, agravada por um forte resfriado, um enfisema pulmonar e sinais de insuficiência cardíaca.Os dias que se seguiram foram os piores do meu ano. Foi uma semana inteira de enfermaria, vendo minha mãe enfraquecida ( ela que sempre foi meu exemplo de força), nervosa, brigando comigo quando eu fechava a porta do banheiro , ou diante de minha excessiva preocupação com a borracha do soro, que ela arrancava toda vez que se levantava.
Depois ela voltou para casa e foi minha vez de ficar doente: a pior gripe da minha vida, até hoje. Dias sem pronunciar uma palavra, por causa da afonia. Provavelmente resultado das noites de vigília naquela enfermaria gelada. Foi a parte do ano em que mais tive medo.
Depois passou. E maio, finalmente acabou.
Li muita poesia. Pizarnik e Backer chegaram para mim da Colômbia e da França, respectivamente.
Quase não li quadrinhos. ( Um Moebius, foi o que li de melhor). E Li Lucille também. Ah, e teve a HQ Vó, do Jean, que a Raquel me apresentou e pela qual me apaixonei.
Não vi nenhum Bergman. Vi um Ozu. As melhores coisas que li: As ondas, da Virgínia e A caixa preta do Amóz Oz. Não li os meus Lobos Antunes que me aguardam na estante. E tem também uma coleção inteira da Virgínia me esperando.
O fato é que a seleção do Mestrado deste ano me privou de muitas leituras e de muitos filmes...Mas no fim deu certo.
Fui ao show do Morrissey. A acústica estava péssima, decepcionante... Fui ao show do Bob Dylan e fiquei emocionada com a energia daquilo. Fui ao show do Kid Abelha e desejei chegar aos 50 com as pernas da Paula Toller. Fui ao show da Shirley King e descobri que alegria é possível.
Visitei Buenos Aires. Entrei no planetário do filme Medianeras. Explorei a cidade a pé, com Raquel, a infatigável, do Boca ao Palermo. Numa dia de briga, comemos bondiola de cerdo con papas, tomamos vinho e voltamos bêbadas, felizes e reconciliadas para o hotel.
Ouvi blues o ano inteiro.
O trabalho continua sugando a poesia da minha vida.
Mas a música traz a poesia de volta.
Por isso, bem no finzinho do ano, comprei uma gaita.
E como os negros do Delta do Mississippi eu vou cantando pra suportar as tristezas.
Que venha 2013!
E era regra: na última página , a do dia 31 de dezembro, eu registrava uma espécie de balanço anual, com retrospectivas e avaliações.
Tentei manter tal hábito na vida adulta, mas fracassei. Ou melhor, continuo fracassando,pois ainda insisto em comprar , a cada início de ano, uma nova agenda, que logo abandono.
Minha agenda-diário do ano que acabou de acabar só foi rabiscada até o mês de maio. Depois disso as anotações que há nela se resumem a lembretes de reuniões chatas de trabalho e de tarefas mecânicas.
Mas vamos ao que ficou na memória, não necessariamente em ordem cronológica, com ou sem anotações:
Terminei o Proust ( que ainda reverbera dentro do meu corpo e acho que isso vai ficar acontecendo até o meu último dia de vida nessa bosta de mundo que de vez em quando é tão bonito que chega a doer).
Reclamei até: de problemas conjugais dos mais variados; de menstruação, de cólicas e de outras dores do feminino; do trânsito; da falta de tempo pra ser feliz, por causa do trabalho.
Assisti a filmes, mas como não anotei, não me lembro de todos. Nada que me fizesse ficar chapada. Vi muitas coisas dos primórdios do cinema: Lumières, Meliès, Griffith. Vi Cabíria, O grande roubo do trem, essas coisas. Vi também uma dezena de filmes do Hitchcock e descobri que é muito mais divertido procurá-lo em seus filmes do que procurar o Wally no meio da multidão desenhada naqueles livros infantis. E por falar em Wally, vi Medianeras e achei uma fofura.( Quando fui à Argentina, entrei naquele planetário e foi lindo).
Em maio fui ao Chile. Visitei Santiago, subi cerros, caminhei pela
Alameda, comi deliciosamente frutos do mar no mercado central da cidade. Fui à Cordilheira dos Andes, fiz guerra de neve,tirei fotos lindíssimas, dormi num quarto com calefator, fui à Viña del Mar, onde mergulhei meus pés, com tênis e tudo, no gelado Pacífico e caminhei com Raquel por praias maravilhosas. No mesmo dia partimos para a exótica Valparaíso, a cidade dos curiosos astensores, que levam para os cerros em profusão. Fomos de ônibus a uma das casas de Neruda, na parte alta da cidade, de onde se vê o porto lá embaixo e barcos indo embora. Na estação de ônibus, quando esperávamos para retornar a Santiago, Raquel sorriu para mim, enquanto tomava um café-expresso. Fazia frio. E o sorriso dela me fez sonhar com o quarto, com a noite, com os cobertores e com o corpo dela dando sentido à existência do meu.
A viagem acabou. E com ela, as férias. E ao retornar fui surpreendida pela ameaça da perda, quando ao visitar minha mãe encontrei-a em meio a uma crise respiratória, agravada por um forte resfriado, um enfisema pulmonar e sinais de insuficiência cardíaca.Os dias que se seguiram foram os piores do meu ano. Foi uma semana inteira de enfermaria, vendo minha mãe enfraquecida ( ela que sempre foi meu exemplo de força), nervosa, brigando comigo quando eu fechava a porta do banheiro , ou diante de minha excessiva preocupação com a borracha do soro, que ela arrancava toda vez que se levantava.
Depois ela voltou para casa e foi minha vez de ficar doente: a pior gripe da minha vida, até hoje. Dias sem pronunciar uma palavra, por causa da afonia. Provavelmente resultado das noites de vigília naquela enfermaria gelada. Foi a parte do ano em que mais tive medo.
Depois passou. E maio, finalmente acabou.
Li muita poesia. Pizarnik e Backer chegaram para mim da Colômbia e da França, respectivamente.
Quase não li quadrinhos. ( Um Moebius, foi o que li de melhor). E Li Lucille também. Ah, e teve a HQ Vó, do Jean, que a Raquel me apresentou e pela qual me apaixonei.
Não vi nenhum Bergman. Vi um Ozu. As melhores coisas que li: As ondas, da Virgínia e A caixa preta do Amóz Oz. Não li os meus Lobos Antunes que me aguardam na estante. E tem também uma coleção inteira da Virgínia me esperando.
O fato é que a seleção do Mestrado deste ano me privou de muitas leituras e de muitos filmes...Mas no fim deu certo.
Fui ao show do Morrissey. A acústica estava péssima, decepcionante... Fui ao show do Bob Dylan e fiquei emocionada com a energia daquilo. Fui ao show do Kid Abelha e desejei chegar aos 50 com as pernas da Paula Toller. Fui ao show da Shirley King e descobri que alegria é possível.
Visitei Buenos Aires. Entrei no planetário do filme Medianeras. Explorei a cidade a pé, com Raquel, a infatigável, do Boca ao Palermo. Numa dia de briga, comemos bondiola de cerdo con papas, tomamos vinho e voltamos bêbadas, felizes e reconciliadas para o hotel.
Ouvi blues o ano inteiro.
O trabalho continua sugando a poesia da minha vida.
Mas a música traz a poesia de volta.
Por isso, bem no finzinho do ano, comprei uma gaita.
E como os negros do Delta do Mississippi eu vou cantando pra suportar as tristezas.
Que venha 2013!
sexta-feira, dezembro 28, 2012
Nem tudo está perdido
Livro sobre Anne-Marie de Backer. Um dos poucos de crítica sobre sua poesia
Veio com autógrafo! Que alegria!
O rosto que eu queria conhecer...
Hoje tive um dia chato. Postei o seguinte desabafo no facebook:
"Coisa chata número um do dia: às 4 da manhã, o vizinho liga o rádio dele na Itatiaia. Me acorda, acorda Raquel. Fico puta porque quando acordo assim, fico com dificuldades pra dormir de novo e fico um molambo o dia todo. Fui lá na varanda, chamei o vizinho. Xinguei.
Coisa chata número dois do dia: voltando pra casa, na companhia de Cíntia Almeida, um ser musculosinho de ray ban na cara entrou repentinamente com sua motoca envenenada na frente do meu carro, o que me fez tomar um puta susto, embora estivesse muito atenta. Buzinei, para chamar a atenção e o menino ficou com raivinha e começou a morcegar na minha frente, empacando uma fila inteira de pessoas cansadas que queriam voltar pra casa antes do temporal. Quando deu eu ultrapassei e não resisti: chamei ele de folgado. O bebê chorão ficou ainda com mais raiva, e deu uma acelerada na titanzinha . Esse é certamente o jeito que ele, animal,
sabe bufar. Veio em direção ao meu retrovisor esquerdo e eu preparei a minha mãozinha maquiavélica para puxar o tornozelo dele, caso ousasse chutar meu espelho. Não o fez, mas passou, olhando feio, tentando intimidar, relinchando sobre duas rodas.
Coisa chata número três do dia: cheguei a rua de casa debaixo do temporal. E pra variar, tava lá, na frente da garagem dessa pobre moça cagada de urubu, um carro estacionado. E a rua cheia de vagas. E o carro parado na porta da minha garagem. Esperei. O dono do bat-móvel era um senhor. Juro que pensei que fosse um menino, desses de 18, muitos dos quais ainda não têm responsabilidade alguma. Mas era um tio, de óculos e barba. E quando eu reclamei, dizendo que não se para em portas de garagem, ele me disse que tinha sido por apenas 2 minutos. E quando eu disse que não se para em portas de garagem em hipótese alguma porque é proíbido ,ele me chamou de alguma coisa feia que não ouvi direito, porque ele já estava dentro do carro. A essa altura, a chuva já estava bem mais forte, fato que fez com que eu tivesse muito mais trabalho pra abrir o portão e entrar, depois fechar o portão, sob um guarda-chuva que não segura tempestades.
Então: embora eu seja uma pessoa pacífica, cidadã e consciente dos males que a violência gera no mundo, eu juro que nesses momentos eu queria ter os músculos do meu irmão, William Mutante, pra afundar os osssos dos narizes de seres como esses dos quais falei acima"
Após mais de 60 cometários a respeito desse post, um dos meus vizinhos ( não era o do rádio da madrugada) me chamou para me entregar uma correspondência: era o livro sobre Anne-Marie de Backer que eu tinha importado da França. O livro veio autografado, como o "Oiseaux-Soleil", livro de poemas dela, que eu havia importado há alguns meses.. Pude conferir as letras e me certificar de que o autógrafo é dela mesma! de verdade! Além disso, pude ver, pela primeira vez, seu rosto, numa fotografia que faz parte do livro recém comprado. Acima estão as fotos :
1) da capa do livro
2) do autógrafo de Backer
3) a fotografia de seu rosto, que eu estava desejosa de conhecer, desde que o coração dela começou a conversar com o meu , quando li, pela primeira vez, dois versos seus num livro de Bachelard...
Nem tudo está perdido.
quinta-feira, dezembro 13, 2012
Outro da Backer
Tempestades
Se você soubesse! Eu sofro e eu gostaria de sobreviver
à morte das palmas, ao fenecimento das espigas.
Parece-me que um dia maravilhoso irá me seguir
Após essas voragens que sopram incessantemente
O espectro de uma árvore se inclina sobre a sebe
O castelo assombrado movimenta-se embaixo de escuros pinheiros
todos os pecados mortais são opulentos e eu experimen
Se você soubesse! Eu sofro e eu gostaria de sobreviver
à morte das palmas, ao fenecimento das espigas.
Parece-me que um dia maravilhoso irá me seguir
Após essas voragens que sopram incessantemente
O espectro de uma árvore se inclina sobre a sebe
O castelo assombrado movimenta-se embaixo de escuros pinheiros
todos os pecados mortais são opulentos e eu experimen
to
vender meu coração por um reflexo de esperança.
Os Espíritos da noite e do fogo me iludiram
mas o ar cintilante da chuva é semelhante ao cristal;
Tropeçarei ainda no ouro desta espada
quando eu tentar me esquecer dos jardins que acolheram meus primeiros gemidos?
Se você soubesse! O vento se atira pela minha janela
Folhagens sombrias, e eu não tenho sequer um ramo de oliveira em água benta embebido
Eu sei de cor o grito duro dos corvos que gira em minha cabeça
e faz vibrar até o infinito.
Quando a torre assombrada ampara as tempestades
eu permito que se queimem nas chamas do inferno aqueles que procuram seus corações
e rezo, desejando viver com a erva selvagem
até que venha a divina redenção da alegria.
Tradução: Simone Teodoro
IN: Le Vent des Rues
Edtions Pierre Seghers. Paris.
vender meu coração por um reflexo de esperança.
Os Espíritos da noite e do fogo me iludiram
mas o ar cintilante da chuva é semelhante ao cristal;
Tropeçarei ainda no ouro desta espada
quando eu tentar me esquecer dos jardins que acolheram meus primeiros gemidos?
Se você soubesse! O vento se atira pela minha janela
Folhagens sombrias, e eu não tenho sequer um ramo de oliveira em água benta embebido
Eu sei de cor o grito duro dos corvos que gira em minha cabeça
e faz vibrar até o infinito.
Quando a torre assombrada ampara as tempestades
eu permito que se queimem nas chamas do inferno aqueles que procuram seus corações
e rezo, desejando viver com a erva selvagem
até que venha a divina redenção da alegria.
Tradução: Simone Teodoro
IN: Le Vent des Rues
Edtions Pierre Seghers. Paris.
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quarta-feira, dezembro 12, 2012
Mais um poema de Anne-Marie de Backer
Anjo
Contra os roseirais reverdecidos
por tempestades exasperados,
meu Anjo da Guarda me abandonou
nos confins do Paraíso.
Quando enfim eu chegaria
ao País dos corações sem problemas,
onde é possível esquecer de si mesmo
Tradução: Simone Teodoro
In: Le vent des rues. Editions Pierre Seghers. Paris.
Contra os roseirais reverdecidos
por tempestades exasperados,
meu Anjo da Guarda me abandonou
nos confins do Paraíso.
Quando enfim eu chegaria
ao País dos corações sem problemas,
onde é possível esquecer de si mesmo
do amor e da fome.
Nos confins do Paraíso
meu Anjo da Guarda me deixou.
Sua cabeleira balançava
no vento gelado e resplandecente.
E suas asas de veludo azul
E suas vestes de neve adocicada.
Quem me hipnotizará sobre o musgo
ou cantará para que eu durma perto do fogo?
Esta capela de verdes vitrais
onde os Santos estão sempre tranquilos
Não há nada que possa me salvar ou me exilar
de um sonho pelo inferno avermelhado.
Da flor vermelha das papoulas
escondi conhecidas noites
Muitas coisas acontecem
para serem esquecidas sem nenhum gemido.
Meu anjo luminoso partiu
Através da maravilha do Reinos,
Eu acolherei todos os fantasmas;
para viver em paz, já menti tanto!
Sem as asas de veludo azul
E as vestes de neve adocicada.
Que o Demônio venha, se ele quiser...
Eis -me sozinha, à beira das chamas,
E nenhum astro me protege.
Nos confins do Paraíso
meu Anjo da Guarda me deixou.
Sua cabeleira balançava
no vento gelado e resplandecente.
E suas asas de veludo azul
E suas vestes de neve adocicada.
Quem me hipnotizará sobre o musgo
ou cantará para que eu durma perto do fogo?
Esta capela de verdes vitrais
onde os Santos estão sempre tranquilos
Não há nada que possa me salvar ou me exilar
de um sonho pelo inferno avermelhado.
Da flor vermelha das papoulas
escondi conhecidas noites
Muitas coisas acontecem
para serem esquecidas sem nenhum gemido.
Meu anjo luminoso partiu
Através da maravilha do Reinos,
Eu acolherei todos os fantasmas;
para viver em paz, já menti tanto!
Sem as asas de veludo azul
E as vestes de neve adocicada.
Que o Demônio venha, se ele quiser...
Eis -me sozinha, à beira das chamas,
E nenhum astro me protege.
Tradução: Simone Teodoro
In: Le vent des rues. Editions Pierre Seghers. Paris.
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sexta-feira, dezembro 07, 2012
Tulipas
Há uma parte de mim
onde a saudade é
vermelha
cálida
gotejante.
E enquanto não vens
Estranhas tulipas explodem
na umidade insana
do desejo
que lentamente
do desejo
que lentamente
me aniquila.
quinta-feira, dezembro 06, 2012
Azul-escuro
Extraordinária pétala
irrompendo em fúria
entre ramos sem cor.
Extraordinária lua,
interlúdio de luz
neste réquiem de sombras.
Mas o vento pronuncia
meu nome
E uma toalha manchada de vinho
espalha tristeza
sobre todas as coisas.
irrompendo em fúria
entre ramos sem cor.
Extraordinária lua,
interlúdio de luz
neste réquiem de sombras.
Mas o vento pronuncia
meu nome
E uma toalha manchada de vinho
espalha tristeza
sobre todas as coisas.
segunda-feira, dezembro 03, 2012
Valparaíso
1
Aquela casa era
um monumento às cores.
Feminina no nome
fora edificada no ápice
onde despertar
era um desenho distante do porto.
2
Horas mais tarde
você sorriria para mim
numa estação de buses
enquanto sorvia seu café expresso
tremendo de frio
sob o capuz vermelho do
suéter.
3
Em minha morada de cores
ecoa seu nome
E este sorriso
é mais que o mar
quando amanhece.
segunda-feira, novembro 05, 2012
Ana Cristina César Plath limpando a geladeira numa tarde de domingo
Resgatar
de dentro do freezer
o Polo Sul inteiro
( não me espantaria ter encontrado pinguins)
Icebergs na pia da cozinha!
E para evitar naufrágios
deliciar-me
ferindo o gelo
com a fina lâmina
da água fria.
de dentro do freezer
o Polo Sul inteiro
( não me espantaria ter encontrado pinguins)
Icebergs na pia da cozinha!
E para evitar naufrágios
deliciar-me
ferindo o gelo
com a fina lâmina
da água fria.
quarta-feira, setembro 26, 2012
Não era
Não era vento:
era ser forte
era ser fraco
e, às vezes, sem rumo.
Não era chama:
Era um gosto na língua
Era umidade entre as pernas
Era angústia de amar.
Não era outono:
era a superfície da pele
alcatifada por rugas.
Não era um trilho de trem
uma estação rodoviária
um aeroporto
nem mesmo o mar
com um barco distante:
era a vida que restava
acorrentada à ausência.
Não era chuva:
era tristeza pura.
E só.
era ser forte
era ser fraco
e, às vezes, sem rumo.
Não era chama:
Era um gosto na língua
Era umidade entre as pernas
Era angústia de amar.
Não era outono:
era a superfície da pele
alcatifada por rugas.
Não era um trilho de trem
uma estação rodoviária
um aeroporto
nem mesmo o mar
com um barco distante:
era a vida que restava
acorrentada à ausência.
Não era chuva:
era tristeza pura.
E só.
segunda-feira, setembro 24, 2012
Profanação na teia
Tirar a roupa dela
enquanto vermelha lua
arde.
Romper cascas, desfiar casulos.
Contrair-me em
aracnídeo inseto.
Patas e pelos, perfurar
a pele profanada
E ela se contorce toda
Presa em minha teia:
Era pétala amputada
tornou-se flor inteira.
enquanto vermelha lua
arde.
Romper cascas, desfiar casulos.
Contrair-me em
aracnídeo inseto.
Patas e pelos, perfurar
a pele profanada
E ela se contorce toda
Presa em minha teia:
Era pétala amputada
tornou-se flor inteira.
sábado, setembro 22, 2012
Pizarnik
Vou lendo a Alejandra aos pouquinhos e traduzindo, aos pouquinhos também. Em breve voltarei com a Backer. Já estou sentindo falta!
Nemo
Não está longe o dia de raro verdor
em que cantarei à lua odiada que dá luz à minha espessa
cabeça cortada à navalha
que dá luz aos ventos brutais
às flores agudas que ardem nos dedos sob as benignas
ataduras
à estrela que se esconde quando é chamada
à chuva úmida girando em sua nudez repulsiva
ao sol amarelo que traspassa as peles marcando escuros
traços
ao despertador, enviado do infernos interrompendo belos
sonhos
aos mares gelados arrastando lixo ondas brilhos dourados
ardores nos olhos.
( Alejandra Pizarnik in: Poesía Completa. Lumen: Barcelona, 2011)
Versão de Simone Teodoro
( Alejandra Pizarnik in: Poesía Completa. Lumen: Barcelona, 2011)
Versão de Simone Teodoro
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